
O Contador de Histórias
“Boa tarde, aqui é a seção de Achados e Perdidos?”
“ Não senhor, é a seção de Perdidos e Achados.”
“Não é a mesma coisa?”
“Não senhor, primeiro se perde, depois é que se acha”
“É, faz sentido. Eu estou à procura da felicidade.”
“Sinto muito, volte amanhã, já encerramos o expediente.”
“Mas o expediente não se encerra às 18.30? Ainda são 18 horas.”
“É que nós precisamos de meia hora para desligar os aparelhos, apagar as luzes, ir ao banheiro, o senhor sabe, para encerrar o expediente às 18.30 impreterivelmente.”
“Mas por Deus, me atenda, por caridade, é uma emergência!”
“É contra o regulamento, mas vou abrir uma exceção. O que é que o senhor está procurando mesmo?”
“A felicidade.”
“Vamos ver… F-e-l-i-c-i-d-a-d-e. Não consta.”
“Não consta? Como não consta? Procure então, por favor: alegria, contentamento, ventura…”
“O senhor ainda não entendeu. Eu preciso de números. Identidade, CPF… O senhor não tem nenhum documento com código de barras?”
“Acho que você é que ainda não entendeu. Felicidade é um estado de espírito, um sentimento.”
“Meu senhor, o computador é uma máquina, não tem sentimentos.”
“As máquinas modernas calculam, pensam, apresentam soluções… quem pode garantir que elas não tem sentimentos?”
“O senhor, ao menos, pode descrever a felicidade. Assim, se ela aparecer…”
“É uma sensação maravilhosa, surpreendente, é como se, de repente, a vida fizesse sentido.”
“Preciso de uma descrição mais segura: cabelo, cor dos olhos, altura…”
“Cabelos esvoaçantes como as copas das palmeiras bafejadas pelo vento, olhos mais brilhantes que a mais brilhante estrela do firmamento, sorriso que acaricia e traz esperança, conforto, alento…”
“Já vi que o senhor é poeta, mas com essa descrição será impossível reconhecê-la.”
“Você saberá que é ela imediatamente, assim que ela estiver presente.”
“Sinto muito, vou estar encerrando o expediente. Daqui a um minuto o computador vai desligar automaticamente. Mas não desanime, continue procurando, se a felicidade existe…”
“Existe, claro que existe. Eu já a tive em minhas mãos, mas por um descuido, talvez um pouco de orgulho, um tanto de timidez, por medo, a deixei escapar por entre os dedos.”
“Com licença, até outro dia, boa sorte!”
“Moça, moça! Posso te fazer uma última pergunta. Você é feliz?”
Silvio Ribeiro de Castro
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