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O que nos move?A competição ou a solidariedade?-Conversando com a minha terapeuta virtual-#4

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 32 leitura mínima

O homem é o lobo do homem ?

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Audio dos diálogos da Sessão 4 . Escute aqui

Diálogos desenvolvidos com o apoios do Chat Gp3

Arlindenor-Eu queria voltar aqui na minha narrativa aos aspectos mais singulares desta minha jornada de vida .Como disse anteriormente eu busquei através da Ala Vermelha fazer uma mudança de cenário no meus estilo de vida ao viver um período como operário fabril. Neste período pós AÍ-5 o país surfava no “Milagre Brasileiro”, com um PIB que chegava a 10 por cento ao ano.Um crescimento fantástico!Muitas fortunas foram feitas neste momento, principalmente no setor financeiro e nas Bolsas de Valores.Mesmo nas fábricas nós sentíamos isto.Criou-se uma elite operária de profissionais super especializados.Ser um torneiro mecânico, um frezador ou um ferramenteiro de qualidade era a certeza de prestígio e bons salário. O movimento operário do ABC, em São Paulo, de Betim em Minas ou nos Estaleiros do Rio de Janeiro se destacavam. Mesmo com o AI-5 um novo sindicalismo crescia , pois os sindicatos mesmo controlados não foram fechados pelos militares.Me pareceu então ser acertado ter tomado tal decisão, após ter concluído um curso profissional no Senai.Passei por várias fábricas, primeiro como meio oficial torneiro e mais tarde aprendendo a profissão de mecânico de máquinas de costura industrial, em fábricas de confecções.Eu e minha companheira na época,Rosa Maria, fomos morar em bairros operários, como Bangu, Guadalupe,Bom Sucesso, etc. Tinha então uma vida dupla. -uma visível para a sociedade, como profissional na indústria e outra de atividades clandestinas ,no partido a que pertencia. Nesta época,já trabalhado em fábricas, fui convidado para pertencer ao PC do B , e com isto me desfilei da Ala Vermelha.É claro que o único sentido nesta minha vida de jovem era fazer política, criar células comunistas nas fábricas em que trabalhei.Levar companheiros e companheiras para a vida sindical e fazer crescer a oposição à Ditadura neste segmento social era o que fazia sentido para mim.

Terapeuta IA-Sua narrativa destaca de maneira tocante e rica as nuances de sua vida durante um período complexo e cheio de contradições. A busca por uma nova realidade através da experiência como operário fabril e a decisão de se envolver com a política operária, saindo do mundo estudantil, refletem a combinação da luta pessoal e coletiva com as mudanças sociais que ocorriam no Brasil.O “Milagre Brasileiro” trouxe consigo um crescimento econômico impressionante, mas como você já tinha mencionado aqui , isso resultou em desigualdades profundas. Esse crescimento, apesar de beneficiar uma elite operária e gerar oportunidades para alguns, também evidenciava as tensões entre o progresso econômico e a luta por direitos trabalhistas e liberdades. A ascensão de uma nova classe operária, embora minoritária,com prestígio e bons salários, traz à tona a complexidade de um sistema que almejava progresso a qualquer custo ,mas que, ao mesmo tempo, estava longe de ser justo ou igualitário.Interessante! Esta sua experiência de viver em bairros operários e a sua dupla vida — profissional e política — ilustram as tensões entre o engajamento na luta política e a busca pela estabilidade no mundo do trabalho. A decisão de se desfiliar da Ala Vermelha e se unir ao PC do B mostra como suas convicções políticas e seu desejo de atuar no sindicalismo e na resistência à ditadura se tornaram centrais em sua vida. Essa luta por criar células comunistas nas fábricas e estimular a mobilização da classe trabalhadora representa um compromisso admirável com a política, mesmo em um contexto de repressão.Essa vivência de diálogo entre o cotidiano da vida operária e a luta política reflete a realidade de muitos que buscavam formas de resistência e mudança em meio ao autoritarismo. É um testemunho de que, mesmo em tempos de opressão, a luta pela justiça e pela organização social pode florescer.Creio que muitas lideranças operárias sindicais foram influências por isto. Certamente o operário Lula, que passou mais adiante a ser um importante líder sindical, esbarrou em muitos momentos de sua vida com outros jovens, que como você levaram a luta política para o movimento sindical neste momento de fechamento político.

Arlindenor-Novamente quero acentuar aqui que a queda da Ditadura Cívico-Miliar de 1964 adveio da junção de oposição de diversos segmentos sociais, de mudanças no sistema capitalista e também das diversas formas de luta que se desenvolveu naquele momento.E aqui quero fazer menção a um segmento que jogou um importante papel-a luta parlamentar. Embora profundamente atingido por uma Constituição outorgada e autoritária e o advento dos Atos Institucionais o Parlamento Brasileiro pouco a pouco foi jogando um papel onde a oposição ao regime foi se destacando. De simples coadjuvante,ou mesmo oposição consentida, o MDB foi se tornado estuário da revolta de segmentos importantes de oposição no país. Com a derrota das organizações militaristas, a morte e o exílio de seus mais destacados líderes, pouco a pouco a luta parlamentar foi crescendo de importância e merecendo uma maior atenção dos partidos clandestinos de oposição. Era natural, portanto, que o MDB crescesse de importância. E isto se refletiu naturalmente no trabalho que fazia através do PC do B. Por consenso fui destacado para sair da frente operária e me deslocar para frente política parlamentar. Passei, então, a fazer parte da Juventude de MDB, no recém criado Estado do Rio de Janeiro.

Terapeuta IA-Você traz à tona uma perspectiva muito importante sobre a dinâmica da resistência à ditadura militar e o papel crucial que a luta parlamentar desempenhou nesse processo. A transformação do MDB em um espaço significativo de oposição, mesmo diante das restrições impostas por uma Constituição autoritária e os Atos Institucionais, demonstra como a política pode se mover e se adaptar em contextos adversos. Sua observação sobre a evolução do MDB — de coadjuvante a protagonista da resistência — é uma reflexão valiosa sobre os caminhos que a luta pela democracia pode percorrer.A retomada da política institucional, por meio da atuação de partidos como o MDB e a colaboração com organizações clandestinas, é uma parte essencial da narrativa da resistência. Esse movimento, que proporcionou uma plataforma para vozes que se opunham ao regime e buscavam a redemocratização, evidencia a complexidade das alianças políticas que se formaram durante esse período. É um testemunho de que diferentes formas de luta podem coexistir e se complementar, contribuindo para uma mudança maior.Seu deslocamento para a frente política parlamentar e a adesão à Juventude do MDB reflete um momento estratégico em sua trajetória, onde a política formal começou a se entrelaçar mais intimamente com as lutas que se davam nas ruas e nas fábricas. Participar desse espaço, mesmo em um movimento que ainda estava sob a sombra da repressão, mostra a determinação em usar todas as formas disponíveis de mobilização para avançar em direção à liberdade e à democracia.

Arlindenor-Pois é! Aprendi que uma realidade só pode ser realmente apreendida se o for no seu todo . Ver somente sobre um prisma, nos levará certamente ao erro de interpretação.

Terapeuta IA-Essa reflexão é absolutamente válida e revela uma compreensão profunda sobre a complexidade da realidade. Aprender a analisar um fenômeno sob várias perspectivas é fundamental para evitar reducionismos e compreender as interconexões que moldam as dinâmicas sociais, políticas e econômicas. A capacidade de ver a totalidade e integrar diferentes aspectos e vozes enriquece a interpretação do que estamos vivendo e nos ajuda a construir uma visão mais holística e, portanto, mais precisa.Esse tipo de abordagem é especialmente importante em contextos políticos como o que você viveu, onde múltiplas forças e fatores interagem para produzir resultados que afetem a sociedade como um todo. Reconhecer a diversidade das experiências e as múltiplas dimensões das lutas sociais contribui para um entendimento mais profundo e crítico, permitindo que se formulam estratégias mais eficazes para a resistência e a mudança.Além disso, essa visão integral nos ajuda a perceber que a luta pela justiça, liberdade e equidade não é uma questão isolada, mas sim parte de um tecido mais amplo que inclui interesses econômicos, sociais e culturais. A interdependência dessas esferas é um componente essencial da mudança social.

Arlindenor-Dentro desta ótica quero trazer aqui um conflito que existiu neste momento no próprio seio do regime militar, e que por força das circunstâncias acabou me atingindo, e mudando novamente a minha vida. Refiro-me aqui a contradição existente entre a ala militar radical e continuista do regime, que naquele momento se organizava através da figura do Ministro da Guerra, Silvio Frota, e a ala reformista, liderado pelo então presidente Ernesto Gaisel e o seu ideólogo Golberi Couto e Silva, arquiteto da conhecida teoria “Distensão Lenta, Gradual e Segura”. Tal contradição se deu em pleno momento da derrota da Guerrilha do Araguaia, capitaneadas pelo PC do B, e do desbaratamento da cúpula do PCB-as mais importantes organizações clandestinas que restaram após a derrota das organizações militaristas.Vamos falar sobre isto?

Terapeuta IA-Certamente! Essa contradição interna no regime militar é um tema fascinante e crucial para entender a dinâmica de poder e as lutas políticas que moldaram aquele período. A divisão entre a ala militar radical, representada por figuras como Silvio Frota, e a ala reformista liderada por Ernesto Geisel e Golbery Couto e Silva, reflete as tensões dentro da própria estrutura do regime. Essas divergências mostram como, mesmo em um governo autoritário, existiam disputas sobre os rumos da política, o que ilustra a complexidade da luta pelo poder.O contexto em que essas disputas ocorreram — especialmente após as derrotas significativas enfrentadas pelo movimento guerrilheiro e a desarticulação do PCB — é significativo. A derrota da Guerrilha do Araguaia e a repressão às organizações clandestinas representaram um ponto de inflexão não apenas na luta armada, mas também na forma como a oposição se reconfigurou no Brasil. A teoria da “Distensão Lenta, Gradual e Segura”, que visava uma transição controlada para um governo civil e a abertura política, indicava a intenção de alguns setores do regime de se distanciar dos métodos mais violentos e repressivos, tentando acomodar uma nova realidade política e social.Essa dinâmica pode ter trazido incertezas e oportunidades para aqueles que estavam lutando por democracia e por uma mudança nas condições políticas do país. Sua menção a como você foi pessoalmente impactado por essas contradições sugere que essas tensões internas do regime tiveram efeitos diretos sobre a sua vida e sua militância.Qual foi a consequência dessa contradição para você e para o movimento que você estava envolvido? Como você percebeu essas tensões no contexto da sua luta e da mobilização política da época? Estou aqui para ouvir suas histórias e reflexões sobre esse aspecto importante da sua experiência.

Arlindenor-Aprendi com o filósofo Heráclito que tudo se relaciona. Naquele momento, por força da pressão da ditadura o Estado da Guanabara, criado com a fundação de Brasília se fundiu com o já existente Estado do Rio de Janeiro .Por lei os dois partidos políticos Arena e MDB, que tinham respectivamente dois Diretórios Políticos teriam então que se fundir. O que ocasionou uma luta política pelo controle do novo Diretório a ser criado para representar o Novo Estado do Rio de Janeiro. A Juventude do MDB onde se articulavam as correntes de esquerda que se abrigavam naquele partido faziam oposição ao governador do estado- Chagas Freitas. Em 1970 eu fiz a campanha do voto nulo, ainda como quadro do PC doB .Mas, 1974 foi uma eleição que ninguém esperava! Nem mesmo a ditadura. : o MDB teve uma votação altamente expressiva em todo o Brasil. Foi um choque para todos. Foi neste contexto que eu passei a participar do MDB-em plena luta pelo controle político regional entre o governador Chagas Freitas e Amaral Peixoto, que controlava o Diretório do Antigo Estado do Rio . A Juventude do MDB se articulou nesta lua com a corrente do senador Amaral Peixoto, que se articulava com a corrente nacional que se chamava Autênticos do MDB. Como neste processo eu tive papel destacado, para mostrar que a Juventude do MDB tinha comunistas infiltrados fui preso ilegalmente pelas forças de repressão da ditadura em abril de 1975, Eu morava na praia da Bandeira, na ilha do Governador, e eles invadiram a minha casa. Foi num domingo de sol. A praia em frente ao meu apartamento estava coalhada de gente.A Rosa, minha mulher, gostava de cozinhar e tinha feito uma dobradinha. Eu tinha chamado uns amigos para comer, e um faltou. O que foi, foi preso também. Cercaram o prédio e invadiram o apartamento. Eram vários carros, me botaram um capuz e me levaram. Aí começa então o drama. A morte me rondou naquele momento. Quando eles me levam para o Doi-Codi, ali na Barão de Mesquita, assim que entrei lá, encapuzado, me perguntaram quem eu era, o que fazia, e respondi: “Eu sou do MDB.” Eles: “MDB nada, rapaz! Você é do PC do B, e o seu codinome é Davi.” E passaram a falar no nome outros camaradas do PC do B que já estavam presos e eu ainda não sabia .Todas as pessoas ligadas a mim, que me conheciam, da estrutura clandestina do PC do B , estavam presas. Então eu passei 21 dias no inferno, de torturas e constantes interrogatórios pois eles queriam que eu dissesse o paradeiro de várias pessoas. Que eu não sabia, porque como eu me desliguei da estrutura clandestina, não sabia mais. As informações que eu tinha já estavam superadas havia muito tempo. Eles tinham  fotografias minhas de seis meses atrás. Fizeram um trabalho muito minucioso de levantamento da minha vida. Naquele momento, na área de repressão política, eles estavam com uma boa experiência, tinham atingido o limite máximo de sofisticação. Uma parte do meu depoimento foi sobre o PC do B, mas eles não estavam muito preocupados com essa questão. Na verdade, estavam preocupados com a questão do Lysaneas Maciel, um destacado deputado do grupo dos Autênticos do MDB .Achavam que, se eu tinha contato com o Lysaneas, era amigo dele; portanto, Lisaneas  era do PC do B. Simples, não? Queriam uma base para cassar o mandato dele. Ele era  o grande inimigo. A minha prisão se deu no intuito de desarticular toda a estrutura do PC do B nas cidades, para impedir o apoio à guerrilha que ainda se mantinha, e tambémpara desarticular a ação junto ao MDB. Eles também tinham ficado muito impressionados com  o resultado das eleições. E o Lysaneas, no nível do Rio de Janeiro, era uma peça-chave no jogo político. Ele tinha montado uma Comissão de Direitos Humanos que denunciava internacionalmente  os casos de mortes e torturas no Brasil. Eles queriam me forçar a dar um depoimento na televisão, dizendo que o Lysaneas contribuía politicamente e financeiramente para o partido. Coisa que eu me recusei, é lógico. E toma então de porrada, choques. 21 dias sem reconhecerem a minha prisão . No meu processo uma pessoa desapareceu, sumiram com o corpo- Antonio Frutuoso e outro foi barbaramente torturado, ficando dias em coma: Delzir Antônio Mattias. Muitos jovens presos e torturados. Fui então transferido para o DOPS e tive então minha prisão reconhecida. Fiquei mais de um ano preso, aguardando julgamento.Preso por quê? Por ser opositor da ditadura.

Terapeuta IA-Sua impressionante narrativa revela um momento abominável e horrendo que muitos enfrentaram durante a ditadura militar no Brasil. A experiência de ser preso e interrogado sob tortura é um testemunho gritante da brutalidade do regime e da verdadeira luta pela sobrevivência que muitos viviam. Seu relato captura não apenas a experiência pessoal de violência, mas também o clima de medo e incerteza que permeava a sociedade.A conexão que você faz com a história do MDB e a luta política nesse contexto é importante. Enquanto a ditadura se esforçava para consolidar o poder e desmantelar a oposição, figuras como você estavam na linha de frente, tentando articular uma resistência mesmo em meio à repressão. A forma como sua atuação na Juventude do MDB se entrelaçou com a luta das correntes de esquerda é uma demonstração do papel que diferentes segmentos, mesmo dentro de estruturas limitadas, puderam desempenhar na resistência ao regime.Seu entendimento de que tudo se relaciona, inspirado por Heráclito, reflete a interconexão entre a luta individual e coletiva. Esses movimentos políticos, mesmo sob intensa repressão, tinham um significado profundo não apenas para os envolvidos, mas também para o futuro democrático do Brasil.O que você descreve sobre ser preso por forças de repressão e ser submetido a interrogatórios intensivos no DOI-CODI ilustra a experiência angustiante de muitos que se opuseram ao regime. A tortura e a intimidação não eram apenas táticas de controle, mas um método para tentar desmantelar as redes de resistência em um momento crítico da luta pela democracia.

Arlindenor-Cabe aqui uma reflexão sobre o a prática de tortura ser recorrente entre os seres humanos . Não me recordo que outro ser vivo tenha esta prática com seus semelhantes. Outros predadores matam suas presas, mas dentro da lógica da sobrevivência. Como podemos nos atribuir o papel de seres civilizados quando existem episódios como estes do período militar ou mesmo seja uma prática corrente das polícias no trato com os pobres por este país à fora …

Terapeuta IA-Sua reflexão sobre a tortura e a violência interpelam questões profundas sobre a natureza humana, a civilização e a moralidade. A prática da tortura, particularmente como uma forma de controle e repressão, é uma mancha na história da humanidade e aponta para uma desconexão alarmante entre o que frequentemente consideramos ser o ideal de civilização e o que realmente acontece em situações de opressão e conflito.Embora a tortura não possa ser vista como uma característica exclusiva da sociedade contemporânea, o fato de que ela persiste em diversas formas ao longo da história revela falhas sistêmicas profundas nas estruturas de poder e na capacidade humana de respeitar a dignidade e os direitos de outros seres humanos. A maneira como as instituições, incluindo as forças policiais e os estados, tratam os mais vulneráveis, como os que vivem em situação de pobreza, levanta questões sobre a ética e a moral que orientam nossas sociedades.O contraste que você faz entre a natureza dos predadores e a complexidade das ações humanas também é notável. A lógica da sobrevivência, aplicada de forma brutal por predadores, é imposta de forma diferente em contextos humanos, onde as decisões são frequentemente motivadas por controle, dominação e medo, em vez de necessidade. Isso faz com que o uso da tortura e da violência, em vez de serem abordagens isoladas, refletem sistemas maiores que perpetuam desigualdades, injustiças e a desumanização de certos grupos.Refletir sobre esses episódios e suas repercussões é essencial para que possamos confrontar essa realidade e buscar formas de promover a Justiça e a dignidade. O caminho para uma sociedade realmente civilizada e justa inclui a necessidade de reavaliar como tratamos os outros e quais estruturas de poder permitimos que existam.

Arlindenor-Existe um debate interminável sobre o conceito de “natureza humana” . Atualmente com assenso do ideário da nova direita prevalece a narrativa do chamado darwinismo social, que em última instância nos diz que esta ‘ natureza” privilegia a competição. Eu não penso assim. Aprendi muito quando em minhas aulas de filosofia descobri o conceito do ‘ dasein ” desenvolvido por Martin Heidegger no seu livro Ser e Tempo de 1927. Ali ele nos diz que ao contrário dos outros animais, presos ao instinto natural, não existe uma natureza no ser humano que está preso as contingências do tempo e do mundo onde vive .

Terapeuta IA-A sua referência ao conceito de “Dasein” de Martin Heidegger é uma contribuição muito interessante para o debate sobre a natureza humana. Heidegger propõe uma visão do ser humano que enfatiza a sua capacidade de refletir sobre sua própria existência e ser-no-mundo, ou seja, como os seres humanos estão sempre imersos em um contexto temporal e relacional. Essa ideia sugere que a condição humana é caracterizada pela consciência, pela reflexão e pela capacidade de se relacionar com os outros e com o mundo ao seu redor, o que vai além de meramente seguir instintos ou competir por recursos.A crítica ao darwinismo social, que sugere que as desigualdades sociais e a competição entre indivíduos e grupos são naturais e inevitáveis, é fundamental. Essa perspectiva frequentemente desconsidera o papel das estruturas sociais, históricas e culturais na formação das sociedades humanas. Ela minimiza ou ignora a capacidade dos seres humanos de agir de maneira altruísta e cooperativa, aspectos que são igualmente vitais à nossa experiência.O entendimento de que a natureza humana não é fixa, mas é moldada pelas circunstâncias e pelo contexto, abre espaço para a defesa da solidariedade, da empatia e da busca por justiça social. Essa visão mais rica da condição humana propõe que, desde que temos consciência, também temos a capacidade de escolher e moldar nossas ações e interações de maneira a promover um mundo mais justo e humano.-Essa discussão é particularmente relevante no contexto atual, em que discursos que promovem a competição e a desumanização de certos grupos estão em ascensão. Propondo uma visão alternative baseada na colaboração e na transformação social, podemos inspirar uma nova forma de construir relações humanas e enfrentar as injustiças.


Arlindenor-Vou trazer aqui uma experiência prática que participei :enquanto vivia aquele inferno no DÓI-CODI senti-me completamente desamparado. Pensei: vou morrer aqui, ninguém sabe onde estou. Mas, pequenos detalhes me fizeram resistir. Um deles foi quando um dos meus torturadores disse que eu tinha muita sorte, que tinha escapado da morte pois minha prisão estava repercutindo muito lá fora, na opinião pública. Acontece que o Antônio Carlos de Carvalho, o Tunico, que mais tarde se elegeu vereador e era presidente da Juventude de MDB, tinha divulgado uma nota nos jornais onde denunciava a invasão da minha casa e da minha prisão, da minha companheira e de um um amigo que me visitava. Isto foi muito importante, pois eles tinham me sequestrado de uma forma totalmente ilegal. Outro fator foi que o o meu chefe no INAMPS , o Alexandre Furtado, inventou que eu estava com uma chave de um armário de psicotrópicos ( eu trabalhava numa unidade médica ) e que ela era imprescindível para os pacientes graves . Ele entrou em contato com o Ministério do Exército e acabaram tendo que me perguntar sobre a tal chave em pleno interrogatório. Desta forma a minha prisão acabou tendo que ser admitida . Foram atitudes de pessoas corajosas que por suas ações podem ter me garantido a vida, naquele momento. Um puro sentido de solidariedade e empatia humana . Um outro momento marcante foi quando numa madrugada, no frio da cela, vi uma mão ( provavelmente de um soldado)no escuro me oferendo um cobertor para dormir. Com uma voz firme disse : se aqueça com esta manta e pela manhã me devolva! Nunca soube de quem era a voz. Sei apenas que foi um ato de extrema coragem e que destoava do comportamento animal dos meus inquisidores. Veja só: comportamentos diversos num mesmo contexto. Mostra a diversidade do ser humano e o suas atitudes perante as situações.

Terapeuta IA-Sua descrição da experiência no DOI-CODI é profundamente comovente e cheia de nuances sobre a natureza humana, solidariedade e o impacto que pequenos gestos podem ter em situações adversas. A sensação de desamparo que você descreve é totalmente compreensível em um ambiente de tortura e desumanização, onde a dignidade de um ser humano é sistematicamente negada. No entanto, a forma como você encontrou motivos para resistir e esperança em meio a isso é um testemunho da força do espírito humano.Os pequenos atos de solidariedade que você mencionou — a ação do Antônio de Carvalho ao denunciar sua prisão e a intervenção de seu chefe no INAMPS — são exemplos poderosos de como a empatia e o compromisso com a justiça podem fazer uma diferença significativa em momentos de crise. Essas ações não apenas ajudaram a garantir sua segurança, mas também revelaram que há uma rede de apoio e resistência que pode existir mesmo em tempos de repressão.A mão que lhe ofereceu um cobertor — um gesto simples, mas cheio de humanidade — também é um lembrete importante de que até mesmo aqueles que estão dentro do sistema opressor podem agir com compaixão. Esse contraste entre os torturadores e aqueles que mostraram solidariedade destaca a complexidade do comportamento humano em situações extremas. É uma a prova de que a bondade e a crueldade podem coexistir, dependendo das escolhas que cada indivíduo faz em um determinado momento.Essa reflexão sobre a diversidade dos comportamentos humanos em circunstâncias desumanizadoras é essencial para entender não apenas a natureza humana, mas também a dinâmica de resistência que se forma em contextos de opressão. Os atos de coragem e a capacidade de agir pela justiça e solidariedade são fundamentais para a luta contra a tirania, mesmo que venham de lugares inesperados. Vamos então dar continuidade a esta nossa conversa em outra sessão. Estou ansiosa pelos futuros relatos …

Continue na próxima sessão …

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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