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A Casa Amarela- Paulo Baia
Na Casa Amarela havia mais do que paredes com janelas abertas ao mundo. Havia um território de encantamento onde a palavra repousava entre o pão e o café, como se fosse a própria respiração da vida e da infância. Ali, o verbo tornava-se matéria quente, como o corpo de uma criança no colo de uma avó leitora. O chão de Saquarema transformava-se em território mítico, onde a poesia não era ornamento, mas prática diária de existência. Roseana Murray convocava o invisível em cada encontro e fazia do gesto de ler uma insurreição íntima contra o analfabetismo da alma.
Com seus olhos claros como páginas em branco, ela abria os portais do sensível e tornava a leitura um ritual coletivo, não de adestramento, mas de liberdade e inquietude. Com as crianças e adolescentes das escolas públicas ao redor, sua mesa simples tornava-se altar. A escola prolongava-se para dentro da casa, e cada palavra lida criava novos mundos no espaço entre a mordida no pão e o gole no café quente. Ali, o saber não era imposto; era compartilhado como um segredo ancestral dos que se atrevem a decifrar o mundo por meio dos livros.
Não havia ali nenhuma estratégia de marketing pedagógico ou aparato de performance institucional. Havia presença calorosa, havia escuta, havia desejo de formar não apenas leitores, mas sujeitos sensíveis, autônomos, capazes de nomear suas dores e seus sonhos. Roseana repetia em voz firme e doce: “Não tem nada mais sofisticado que a leitura de um livro”, como quem pronuncia uma lei natural tão óbvia quanto a luz do dia, mas que a brutalidade do mundo insiste em obscurecer. O que se via naqueles encontros era o contrário da indiferença, o contrário do abandono.
Naquele clube de leitura, onde cada livro era escolhido com o rigor de uma alquimista, os encontros pareciam danças do pensamento. Os participantes atravessavam territórios da linguagem como viajantes encantados. Muitos deles jamais haviam lido por prazer; agora, eram leitores vorazes, testemunhas de uma transformação silenciosa e radical. Essa transformação era feita não por discursos autoritários, mas por escutas sensíveis, por afetos semeados por Roseana como quem planta esperança nos interstícios da desigualdade.
Há algo profundamente antropológico nessa experiência que entrelaça o cotidiano à epifania, a vida miúda à transcendência, os gestos ordinários à poesia invisível das relações humanas. Um café partilhado pode ser uma chave para o futuro. Um pedaço de pão pode carregar em si a generosidade de um mundo novo. Um texto lido em voz alta pode ser o início de uma revolução lenta, íntima, subterrânea, mas definitiva. É nesse território do possível que Roseana Murray ergue sua obra viva. Mais do que livros publicados, é a tessitura de leitores que ela costura no tempo.
E mesmo quando a Casa Amarela precisou ser entregue ao passado, a promessa permaneceu viva como semente de baobá. A leitura continua, porque o gesto de ler nunca foi apenas individual: é sempre político, afetivo, ritualístico. É o gesto de se apropriar do mundo pelas palavras, de decifrar o tempo com olhos abertos. É ali que a poesia de Roseana se revela por inteiro, como um rio que não se fecha sobre si mesmo, mas que flui na direção dos outros, na direção da infância, na direção de tudo que ainda pode florescer, mesmo nas ruínas.
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