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A COP30, marcada para ocorrer entre 10 e 21 de novembro de 2025 em Belém do Pará, já enfrenta uma crise inédita antes mesmo de começar. As hospedagens para estrangeiros atingiram valores tão exorbitantes que delegações de diversos países cogitaram transferir a conferência para outra cidade. Em anúncios recentes, casas de temporada chegaram a ser ofertadas por mais de R$ 1,5 milhão para somente 11 dias, equivalendo a cerca de R$ 68.850 por pessoa, por noite. Hotéis, por sua vez, elevaram tarifas para US$ 700 diários por hóspede, algo entre dez e quinze vezes o preço médio local. A situação se tornou tão crítica que o bureau climático da ONU convocou uma reunião de emergência em 29 de julho de 2025, preocupado com a exclusão de países mais pobres que não conseguiriam arcar com tais custos.
Esse episódio, onde a hospedagem se torna inacessível, inclusive para representantes de nações vulneráveis às mudanças climáticas, é um retrato fiel de uma característica profunda do Brasil: o que o filósofo Paulo Arantes, da USP, define como “capitalismo de compadres”. Trata-se de um sistema no qual os ganhos econômicos dependem menos da impessoalidade do mercado e mais de redes de favorecimento, alianças de conveniência e acesso privilegiado ao poder. No caso da COP30, o setor hoteleiro local, inserido em uma lógica clientelista, enxergou na conferência uma oportunidade para multiplicar lucros imediatos, inflando preços muito além da lógica mercadológica impessoal e, assim, limitando a participação de delegados de países em desenvolvimento.
Diante das pressões internacionais, o governo brasileiro precisou intervir, garantindo 2.500 quartos com tarifas entre US$ 100 e US$ 600 por noite (aproximadamente R$ 555 a R$ 3.327), valores ainda superiores à cota diária de subsistência da ONU de US$ 149. A solução, embora emergencial, expôs o dilema: a lógica privada da valorização imediata sobrepôs-se à lógica pública de inclusão, confirmando um padrão estrutural de nosso capitalismo, onde o interesse coletivo cede lugar ao oportunismo de curto prazo.
Vivemos, de fato, em um período de crises recorrentes e profundas, no qual o capitalismo global revela suas contradições estruturais. A expressão “capitalismo de compadres” de Arantes descreve com precisão esse arranjo: uma economia que, sob a aparência de modernidade, mantém práticas quase patriarcais, sustentadas por compadrio, parentesco e amizade como moedas de poder. Esse fenômeno, no entanto, não é exclusividade brasileira. O próprio ex-presidente Joe Biden chegou a declarar que “as oligarquias estão tomando o poder” nos Estados Unidos, quando da posse do atual presidente Ronald Trump, evidenciando que, mesmo em nações vistas como berços do liberalismo e da meritocracia, a concentração econômica e a influência corporativa corroem qualquer noção de competição justa.
Com o mundo mergulhado em crises econômicas, sociais e ambientais, eventos como a COP30, que deveriam ser espaços de cooperação internacional e construção de soluções coletivas, acabam frequentemente desviando de seus propósitos originais. Tornam-se, em muitos casos, vitrines turísticas e oportunidades de caça-níqueis para as oligarquias locais, que transformam emergências globais em pacotes de luxo e negócios privados. O que deveria ser uma cúpula para enfrentar a crise climática degenera em espetáculo mercadológico, em que a pauta da sustentabilidade serve somente de pano de fundo para o giro de capital em hotéis, restaurantes e empreendimentos predatórios, reforçando as contradições do próprio sistema que diz combater.
A crise global do capitalismo faz com que tais mecanismos se intensifiquem. Quando a acumulação desacelera ou entra em colapso, o mercado “livre” cede espaço ao mercado protegido, no qual somente aqueles com acesso às redes de poder sobrevivem e prosperam, enquanto a maioria é excluída. Assim, práticas comparáveis ao compadrio emergem também nos países centrais: oligarquias, bilionários e conglomerados moldam regras, capturam políticas públicas e transformam crises em oportunidades de concentração de riqueza.
No Brasil, esse padrão assume feições ainda mais cruas: empresários, políticos e intermediários articulam alianças que garantem obras públicas, concessões, créditos, subsídios e perdões de dívidas. Nos Estados Unidos ou na Europa, vemos uma versão mais sofisticada do mesmo fenômeno, protagonizada por fundos de investimento, Big Techs e complexos industriais-militares. Em todos os casos, a lógica é idêntica: o capitalismo se torna um sistema de autoproteção das elites, onde o risco é socializado e o lucro é privatizado.
O episódio da COP30, portanto, não é um acidente isolado, mas um sintoma do esgotamento do modelo capitalista. O que, segundo os ideólogos da lógica do mercado, deveria ser um sistema de concorrência e inovação, se retrai em redes de favorecimento, proteção mútua e concentração de poder, ampliando desigualdades, fragilizando democracias liberais e abrindo espaço para governos fortes.
Se quisermos romper com esse ciclo, será necessário enfrentar tanto o compadrio local quanto as oligarquias globais, ousando construir caminhos fora da lógica predatória do sistema de mercadorias. A crise revela não somente os limites do modelo, mas também abre brechas para novos horizontes — desde que tenhamos coragem de sair da rota que invariavelmente nos conduz de volta aos braços dos mesmos senhores.
Serra da Mantiqueira,agosto de 2025
Arlindenor Pedro


Paulo Arantes, filósofo crítico da USP, é uma das vozes mais incisivas na análise da crise do capitalismo, notadamente do Brasil,
Em sua leitura radical, o Brasil vive numa modernidade periférica bloqueada.
A crise deixou de ser exceção e tornou-se o modo de ser do mundo.
Dialogando em seu pensamento com Hegel, Benjamin e Robert Kurz, Arantes desmonta ilusões progressistas da intelectualidade brasileira
Seu pensamento desafia a imaginar novas formas de resistência e emancipação.
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