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Confissão intelectual: travessia das ideias – um ensaio de Paulo Baía
Escrevo como quem se confessa e como quem se reinventa. Não é apenas relato, mas mosaico. Minha trajetória intelectual não foi reta, mas curva, não foi síntese, mas polifonia, não foi dogma, mas travessia. Repito para que se inscreva: sou sociólogo em movimento permanente. Errante, inquieto, plural, habitando as fissuras entre tradição e invenção.
Foi em março de 1973, quando atravessei os corredores da UFRJ, que compreendi que o pensamento não é disciplina fechada, mas horizonte aberto. Vinha recém-saído do curso de Estatística da ENCE/IBGE, concluído em dezembro de 1972, carregando a disciplina dos números, a precisão das fórmulas, a frieza dos cálculos. Acreditava, como militante que orbitava o PCdoB e o PCB — ainda que sem filiação formal — que Marx, Engels, Lenin e Mao eram mapas definitivos. Pensava que a sociologia seria prolongamento desse catecismo. Mas a UFRJ me revelou outra coisa: o mundo não cabe em dogmas.
Descobri Émile Durkheim querendo fundar a ciência, Max Weber pressentindo a jaula de ferro, Norbert Elias narrando o processo civilizador, Clifford Geertz mostrando a teia simbólica da cultura, Michel Foucault desmontando regimes de verdade, Hannah Arendt devolvendo à política a dignidade da liberdade, Isaiah Berlin afirmando a inevitabilidade do pluralismo, Karl Popper criticando as pretensões totalizantes, Axel Honneth mostrando que reconhecimento é condição do humano, Pierre Bourdieu desvendando habitus e campos invisíveis. Descobri também Georg Simmel, que me mostrou que a vida social é feita de formas, encontros, distâncias, pontes e portas. E descobri, mais tarde, Eduardo Viveiros de Castro, que me mostrou que a antropologia brasileira pode ser revolução conceitual.
E não só eles: Cornelius Castoriadis dizia que a sociedade é imaginação instituinte, Raymond Williams lembrava que a hegemonia se inscreve na vida comum e que a cultura é sempre campo de disputas, Stuart Hall ensinava que a identidade é provisória e nunca essência, Paul Ricoeur lembrava que interpretar é sempre abrir novas camadas de sentido, Judith Butler mostrava que o gênero é performance, fissura e resistência, e Byung-Chul Han, mais recentemente, dizia que a sociedade do cansaço é a exploração internalizada como se fosse liberdade.
Mas foi em 1975 que abandonei o marxismo como teoria, política e dogma. Não abandonei a crítica, nem a indignação, nem a sensibilidade para as desigualdades. O que deixei foi o cárcere da rigidez. Compreendi que um único livro não contém a vida, que a história é feita de multiplicidades, contradições sem síntese final, vozes em disputa. Abandonar o marxismo dogmático foi como sair de uma cela e pisar o mundo aberto. A dúvida virou método, a pluralidade horizonte, o movimento tornou-se destino.
Nesse processo, percebi que aprendi tanto com livros quanto com imagens e cenas. Glauber Rocha mostrou que a fome pode ser força estética e política, Nelson Pereira dos Santos traduziu a miséria em imagens ásperas, Cacá Diegues captou a modernidade em trânsito, Hector Babenco denunciou a infância abandonada, Karim Aïnouz revelou o patriarcado como cárcere íntimo, Kleber Mendonça Filho mostrou que a resistência é coletiva, Nelson Rodrigues expôs o humano em crueldade e desejo, Plínio Marcos revelou a violência das margens, Ariano Suassuna transformou o sertão em epopeia popular, Brecht fez do teatro crítica, Beckett mostrou a condição da espera, Shakespeare dramatizou o poder e a loucura, Abdias Nascimento lembrou que o palco pode ser quilombo, Augusto Boal mostrou que a cena pode ser insurgência.
Na ditadura, resisti com leituras e imagens. Walter Benjamin dizia que o anjo da história olha para as ruínas, Arendt lembrava da banalidade do mal, Isaiah Berlin falava da irredutibilidade dos valores, Guerreiro Ramos denunciava a dependência intelectual, Alberto Passos Guimarães desnudava a estrutura agrária, Antonio Candido fazia da literatura sociologia, Maria Isaura Pereira de Queiroz estudava messianismos, Ruth Cardoso mostrava a potência da sociedade civil, Gilberto Velho explorava a vida urbana, Alba Zaluar se aproximava das favelas, Ely Diniz analisava o poder, José Murilo de Carvalho refletia sobre cidadania, Roberto DaMatta desnudava rituais da desigualdade, Castro Faria e Roberto Cardoso de Oliveira revisavam dilemas da antropologia, Florestan Fernandes seguia como mestre e combatente.
Na redemocratização, Darcy Ribeiro sonhava uma civilização mestiça, Milton Santos mostrava o espaço como luta, Canclini falava da hibridização cultural, Rama da cidade letrada, Dussel da ética da libertação, Quijano da colonialidade, Beatriz Nascimento lembrava que quilombo é pensamento, Sueli Carneiro falava do feminismo negro, Lélia Gonzalez fazia da amefricanidade teoria viva. No teatro, grupos experimentais reinventavam a resistência. No cinema, Babenco e Cacá Diegues traduziam a crise social.
Nos anos 90, o neoliberalismo corroía vínculos. Bourdieu denunciava a miséria simbólica, Bauman falava da liquidez, Beck do risco, Sennett da corrosão do caráter, Amartya Sen e Martha Nussbaum traziam a justiça como capacidade, Iris Marion Young defendia a política da diferença, Butler lembrava que a identidade é repetição e fissura, Cornel West fazia filosofia em ritmo de blues, bell hooks dizia que o amor é insurgência, Angela Davis lembrava que o cárcere é indústria da desigualdade. No cinema, Fellini mostrava o circo humano, Bergman o silêncio de Deus, Antonioni o vazio, Tarkovsky o tempo espiritual, Kurosawa a honra, Godard a crítica da linguagem.
Com a globalização, Said denunciava o orientalismo, Spivak perguntava se o subalterno pode falar, Bhabha falava de hibridez, Walsh e Escobar de pedagogia insurgente, Mbembe diagnosticava a necropolítica, Morrison escrevia a cicatriz da escravidão, Achebe denunciava a colonização, Ngũgĩ wa Thiong’o pedia a descolonização da mente, Soyinka dramatizava violências, Mia Couto reinventava o português, Agualusa narrava Angola, Galeano escrevia a memória do mundo, García Márquez recriava o real, Octavio Paz mostrava o labirinto da solidão, Claribel Alegría cantava a resistência, Vargas Llosa narrava o labirinto do poder.
No século XXI, diante do bolsonarismo, percebi que a barbárie não morreu. Arendt continuava lembrando da banalidade do mal, Benjamin das ruínas, Bauman da fragilidade líquida, Mbembe da necropolítica. No Brasil, Conceição Evaristo criava a escrevivência, Carolina Maria de Jesus seguia gritando da favela, Ana Maria Gonçalves devolvia voz à memória da escravidão, Itamar Vieira Junior mostrava a terra como personagem, Jeferson Tenório narrava o racismo como cicatriz íntima, Cristiane Sobral e Elisa Lucinda cantavam insurgências, Silviano Santiago lembrava que somos tradutores e traidores, Ruffato encenava o caos urbano, Hatoum narrava a Amazônia, Adriana Lisboa costurava delicadezas. O cinema resistia com Cidade de Deus e Bacurau, o teatro trazia corpos negros e periféricos ao centro, Spike Lee fazia do cinema ato político, Han Kang mostrava o corpo como campo de luta, Tagore e Kawabata revelavam a delicadeza, Orhan Pamuk narrava fronteiras culturais, Chimamanda Adichie lembrava o perigo da história única.
Mas é também neste século que emergem novas inquietações: a inteligência artificial, que coloca em xeque a noção de trabalho, subjetividade e vigilância; a crise climática, que redefine o destino do planeta e devolve a natureza ao centro do drama humano; a biopolítica contemporânea, que governa algoritmos e corpos, afetos e territórios, vidas e mortes. Pergunto-me se o sociólogo não deve ser intérprete dessas novas ruínas. Penso em Rachel Carson e sua Primavera Silenciosa, em Philip K. Dick perguntando se androides sonham, em Orwell e Huxley que ainda nos assombram, em Margaret Atwood que alerta sobre futuros possíveis, em Stanislaw Lem que interrogou a alteridade absoluta, em Ursula Le Guin que inventou sociedades alternativas, em Donna Haraway e seu Manifesto Ciborgue, em Bruno Latour lembrando que nunca fomos modernos, em Butler mostrando que corpos e identidades resistem mesmo em tempos de máquinas e algoritmos. Penso em Homero e Dante, Cervantes e Goethe, Dostoiévski e Tolstói, Balzac e Dickens, Kafka e Proust, Joyce e Virginia Woolf, todos a lembrar que o humano é sempre excesso, dor e invenção. Penso em Machado de Assis, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Drummond, Cecília, João Cabral, todos a mostrar que a língua brasileira é resistência e reinvenção.
E é olhando para o futuro que reconheço que a sociologia, junto da literatura, precisa se fazer novamente travessia. Se o século XIX foi o da razão e o XX o das ideologias, o XXI parece ser o das catástrofes e algoritmos. Mas é também o da insurgência dos corpos, da palavra que resiste, da ecologia como política, da tecnologia como desafio ético. A inteligência artificial nos obriga a perguntar se ainda sabemos sonhar; a crise climática nos mostra que a Terra não é recurso, é casa; a biopolítica contemporânea nos lembra que viver é sempre sobreviver a gestos de poder. Não podemos pensar o amanhã sem incluir as vozes que clamam pela terra, pelo direito de existir, pelo ar que respiramos. Não podemos ignorar que a literatura distópica — de Orwell a Atwood, de Huxley a Saramago — continua a ser alerta e espelho, enquanto a utopia se desloca para a defesa da vida em todas as suas formas.
Hoje, ao olhar para trás e para frente, vejo-me em 1973 atravessando os corredores da UFRJ, em 1975 abandonando o dogma, em cada década encontrando mestres e companheiros, e agora em 2025 interrogando as ruínas digitais, as queimadas da Amazônia, os algoritmos do poder. Reafirmo: sou sociólogo em movimento permanente. Brasileiro e latino-americano, atlântico e mestiço, negro e pardo, feito de tensões e de pontes, de insurgências e misturas. Filho da tradição da USP e da UFRJ, da literatura e da sociologia, do cinema e da dramaturgia, de Machado e Carolina, de Darcy e Antonio Candido, de Said e Mbembe, de Arendt e Butler, de Simmel e Viveiros de Castro, de Morrison e Ana Maria Gonçalves, de Glauber Rocha e Brecht.
Abandonei o marxismo em 1975, mas não abandonei a crítica. Deixei o dogma, abracei a pluralidade. Desde então sigo como errante. E nesta errância encontrei sentido. Se me perguntarem quem sou, direi: sou sociólogo em movimento permanente, fragmento e polifonia, ferida e farol. E ainda creio que pensar é ato de esperança. E viver, sempre, ato de resistência..

Paulo Baía é Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ.
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