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Um poema sobre Gaza-Wilton Cardoso

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 3 leitura mínima

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Escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro. 

Adorno

Eu não consigo escrever um poema sobre Gaza. 

Um poema, mesmo o mais baudelairiano, o mais cabralino, o mais feio e ríspido dos poemas tem um fundo de beleza e qualquer beleza que remeta à Gaza me parece humanamente insuportável. 

Um poema, por mais sério que seja, carrega um espírito lúdico e eu não consigo me imaginar brincando com palavras para dizer sobre as crianças de Gaza, que não brincam mais, que definham esquálidas até morrerem de fome, ou antes, de bala ou de bomba. 

Um poema é o prazer da palavra, o mel das palavras na boca do poeta e do leitor. Como conciliar o prazer com o horror inimaginável de filhos, pais, irmãos, primos, tios, amigos, concidadãos famintos, mutilados e assassinados com crueldade e covardia, apenas por serem palestinos em Gaza?

Um poema, um bom poema deve ser culto e criativo, evocar a tradição e criar alguma novidade relevante. Um poema que se preze é uma criação estética sofisticada e desafiadora, mas todas essas qualidades, essa cultura erudita e refinada que nutre o poema, tudo isso me pareceria uma pavonice fútil se apropriando do genocídio em Gaza. 

Um poema revolto de revolta e compaixão, um canto que cortasse a indiferença de uns e o sadismo de outros, mas tudo que se possa dizer me parece pouco, impotente e até desrespeitoso com Gaza. Gaza, esse Gueto de Varsóvia pós-moderno, onde a morte se transmite ao vivo pelas redes sociais, essa Auschwitz pornograficamente explícita se desnudando num reality show de horrores para as telas de bilhões de celulares. 

Um poema, eu achava que deveria (querer) escrever um poema sobre Gaza. Eu não quero escrevê-lo, a não ser que o poema fosse grito apenas, urro de horror de milhões de decibéis, explosão de dor que se espalha pela Terra inteira. Mas o poema é só palavras ditas em silêncio. Eu prefiro, então, silenciar o canto e dizer que não quero e não posso e não devo fazer um poema sobre Gaza.

Eu não consigo… e, no entanto, Gaza merece e precisa de todas as canções que se possa fazer. Para não esquecermos Gaza. Para nos irmanarmos com Gaza.

Wilton Cardoso nasceu em 1971 em Morrinhos-GO e mora em Goiânia. É jornalista e doutor em Estudos Literários de formação, já foi programador e professor por necessidade e, hoje em dia, ganha o pão como funcionário público. Poeta de ofício e ensaísta de ocasião, publica o que escreve.no Engenheiro Onírico

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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