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Carta de Lisboa-Silvie Armand

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 4 leitura mínima

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Os ares de Lisboa

Escrevo de meu pequeno apartamento em Moscavide,Lisboa, onde o Tejo parece compreender o que o Sena já esqueceu.

Deixei Paris há alguns meses. Uma cidade bela demais para quem ainda deseja respirar.

As ruas estavam tensas, cheias de olhos que evitavam se encontrar

O turista vê a luz de Montmartre; eu via apenas o cansaço e o medo que ela tenta esconder.

Nos muros, frases de revolta; nas praças, corpos apressados, como se a pressa fosse uma forma de sobrevivência.Paris espera! 

A beleza ali já não consola:vigia!

Lisboa, em contraste, me acolheu com seu ar gasto e suas paredes que descascam sem vergonha.

O tempo aqui anda descalço.

O Tejo tem a calma dos que sabem esperar o retorno das marés.

Nos cafés, escuto os sotaques da memória: brasileiros, cabo-verdianos, angolanos

-vozes que as caravelas espalharam e que agora voltam, multiplicadas.

A cidade se transforma numa concha que devolve o som do que tentou esquecer.

Penso que a cultura portuguesa se parece com a praia que aqui encontrei.

Lisboa é um lugar onde as ondas devolvem o que foi lançado ao além-mar,O mar tenebroso!

A língua, a música, os gestos :tudo retorna, mas… transformado.

O Atlântico não é apenas geografia; é um espelho de retorno e invenção.Lisboa não será a mesma, depois destes tempos …

Tenho pensado na minha dedicação em destrinchar a arte neste tempo cansado.

Já não acredito que ela salve, mas ainda creio que possa retardar o esquecimento.

A arte é o respiro entre o gesto e o colapso. O repouso do guerreiro!

Um intervalo onde o humano ainda se reconhece antes de desaparecer.

Escrevo à noite, ouvindo o murmúrio do comboio e o cheiro do sal que sobe do rio.

Lisboa dorme devagar, como se sonhasse em outra língua.

E penso que talvez seja isso o que busco: um idioma que não precise gritar para ser escutado.

De Paris trouxe a inquietude; de Lisboa, o silêncio.

E entre os dois, o ofício: observar o que resiste, recolher o que resta.

A cultura, no fim, é isso : uma tentativa delicada de continuar existindo quando o mundo já desistiu.

Lisboa me ensina que a melancolia pode ser também uma forma de lucidez.!

E é dessa lucidez triste, porém viva, que quero falar contigo,

leitor errante, estrangeiro de si mesmo.

Entre o Tejo e o Sena, continuo acreditando:

a arte, mesmo exausta, ainda é o nosso último abrigo.

O fado que o diga!

— Silvie Armand, Lisboa,

Silvie Armand nasceu em Lyon, em 1985, entre artesãos e músicos de bairro.
Formou-se em Filosofia na Université Lumière Lyon 2 e em Lisboa apaixonou-se pela língua portuguesa e pelo fado.
Poeta, ensaísta e cronista, transita entre jornalismo cultural e escrita experimental, unindo crítica e criação.
Atualmente vive em Lisboa e é correspondente do Blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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