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Os estrangeiros-O Início da Conversa-Uma crônica de Silvie Armand

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 8 leitura mínima

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Em “Os estrangeiros – O Início da Conversa”, Silvie Armand retorna a Paris para enterrar o pai e reencontrar dois amigos de juventude, Adrien e Malek. No silêncio do Père-Lachaise e depois em um café parisiense, o trio revive memórias e questiona o que significa pertencer. As vozes de Camus e Fanon ecoam entre eles: Adrien sente-se estrangeiro em seu próprio país, Malek fala das feridas coloniais, e Silvie observa — estrangeira de si e do tempo. A crônica reflete sobre culpa, beleza e exílio com a leveza de quem escreve entre a filosofia e o afeto.

O dia começou cinzento, como se Paris soubesse o tom exato para os meus sentimentos. O outono pesa de um modo diferente quando se vai enterrar alguém. No Père-Lachaise, o vento trazia o cheiro das folhas úmidas e o rumor distante da cidade. O cemitério parecia uma cidade invertida, onde tudo o que foi belo tenta descansar.

Adrien e Malek vieram. Não os via há anos. Portavam camisas pretas , discretos, com aquele jeito de quem não sabe o que dizer. Olhei para eles. Meu Deus! Como meus amigos eram bonitos! Dava gosto de se olhar! Cumprimentaram-me em silêncio, e por um instante voltamos a ser os jovens de Lyon, caminhando lado a lado, tentando entender o mundo. Agora o mundo era este chão frio que receberia o corpo do meu pai.

Há algo entre nós que o tempo não conseguiu dissolver. Fomos moldados pela mesma cidade e pelas mesmas perguntas. Na juventude, acreditávamos que o pensamento podia mudar tudo: Adrien pintava com raiva e pensava em ser economista Malek queria ser cientista espacial, e olhava as estrelas como se fossem refúgios, e eu tentava traduzir o invisível em palavras. Na busca destes destinos o mundo nos separou, mas nunca completamente. Continuamos ligados pela inquietação — essa necessidade de compreender o que se perde e o que ainda vale ser salvo.

A cerimônia foi breve. As palavras do padre se perderam no vento. Pensei em como a morte, mesmo esperada, sempre chega como uma surpresa. Olhei para as mãos do meu pai, agora imóveis, e lembrei das vezes em que ele consertava pequenas coisas em casa, como se quisesse manter o tempo em ordem. Senti que nenhuma ordem resiste muito tempo..

Depois caminhamos pelas alamedas do cemitério. As pedras guardavam um silêncio antigo, e o ar parecia suspenso entre o que foi e o que resta. Havia flores secas, passos contidos, um rumor de vento entre os nomes. Pensei: aquele cemitério é um espelho da França feito de lembranças e esquecimento, de grandezas e remendos. Ali, tudo parecia igualmente digno: o herói, o poeta, o anônimo. O tempo nivelava todos com a mesma ternura. Não há quem não se emocione em Père-Lachaise!

Seguimos entre túmulos até a parte alta, onde o vento era mais claro. O sol tentava atravessar o nevoeiro. Cada nome gravado parecia pronunciar o nosso. Havia algo de sereno em reconhecer que tudo, cedo ou tarde, se transforma em memória.

Cansados, mas prenhes de vivências, fomos a um café perto da Bastille. Era preciso compartilhar o que passamos. Chovia leve, e o vapor das roupas molhadas subia com o cheiro de café. Na televisão, ainda falavam do roubo das joias do Louvre. Sem dúvidas, o assunto do momento.

Adrien, com a sua voz nasalada, comentou que talvez o ladrão quisesse somente tocar o que é intocável. Malek disse que às vezes o desejo de possuir nasce do medo de perder. Fiquei calada. Pensei que o museu e o cemitério são parentes: ambos guardam o que não pode ser devolvido. A beleza e a morte têm o mesmo brilho breve. Suas vozes me tocavam. Talvez pela morte de meu pai ou pela presença deles, sentia-me emocionada naquele momento.

Adrien olhava o fundo da xícara como quem tenta decifrar o próprio reflexo. De repente nos disse que já não se sentia parte da França, que o país se tornara um espelho rachado. Falou com a serenidade dos cansados.Impossível não lembrar de Camus naquele momento, pensei : “o homem é sempre estrangeiro, até de si mesmo”. Lembrou do pai e da campanha na Argélia. E confessou: -sinto-me culpado com esta herança, Um peso invisível me faz hóspede de uma história que eu rejeito, concluiu com um ar grave.

Malek e eu o escutamos em silêncio. Após um interminável intervalo Malek falou com firmeza: -olha, eu também me sinto estrangeiro,mas sem o privilégio da escolha.E continuou:-nós, colonizados,aprendemos cedo que o rosto que estampamos não é o nosso verdadeiro. Temos que forjar um outro para sermos aceitos..E num tom mais alto: tu és estrangeiro por desencanto, eu por lembranças de onde vim,afirmou. Eu os observei, tomada por uma ternura inquieta. Pensei que talvez o exílio não fosse um lugar, mas uma condição: de quem sente demais e já não cabe no próprio tempo. Seria isto o que acontecia conosco? Mas, que tempo é este?

A conversa foi se firmando sem pressa. O café já está quase vazio, o som do relógio marcando a lentidão das horas. O garçom continuava a limpar as mesas ao redor, e nós permanecíamos ali, aguardando o que seria dito. Senti que aquele diálogo seria somente o começo, o início de uma escuta antiga, feita de silêncio e respiração.

Do lado de fora, Paris escurecia devagar. As luzes refletiam-se nas poças da calçada e pareciam chamar o nosso olhar de volta. Adrien desenhava algo no guardanapo, Malek nos fitava com seus olhos berbere, e eu ali,os observando,tentando guardar todos os contornos daquele instante. O mundo lá fora seguia indiferente, mas no café algo começava a nascer: uma conversa difícil de ser concluída!

Paris, outono de 2025.

Silvie Armand

Silvie Armand é poeta, ensaísta e cronista, transita entre jornalismo cultural e escrita experimental, unindo crítica e criação.
Atualmente vive em Lisboa e é correspondente do Blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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