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A bolha da inteligência artificial-Tomasz Konicz

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 31 leitura mínima

Breve análise da bolha, incluindo a sua classificação na economia das bolhas financeiras da era neoliberal em declínio

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 Este texto de Tomasz Konicz oferece uma leitura rigorosa e contundente da bolha atual da inteligência artificial, situando-a como o último grande surto especulativo da era neoliberal em declínio. A análise mostra como o fascínio pela IA repete o padrão das antigas bolhas – das dotcom ao mercado imobiliário –, mas com um potencial destrutivo maior por estar ancorada em transformações reais dos meios de produção. Konicz revela a combinação explosiva entre investimentos trilionários, receitas insuficientes, endividamento crescente e uma economia dependente de ganhos fictícios concentrados no topo da pirâmide social. O boom da IA aparece, assim, como um eco tardio da globalização financeira e, ao mesmo tempo, como o sintoma mais visível do limite interno do capital, que mina a própria base do processo de valorização. O resultado provável é um crash de alcance sistémico, com impactos profundos sobre a economia real, o emprego e a organização social.

Após um bom quarto de século desde o estouro da bolha das dotcom instalou-se uma certa rotina. Todos sabem que o boom da indústria de IA se transformou numa bolha que algum dia culminará num inevitável crash. Os principais meios de comunicação noticiam isso,1 os oligarcas da alta tecnologia admitem um entusiasmo irracional,2 instituições como o FMI ou o Banco de Inglaterra soam o alarme3 e os jornais económicos quase fazem apostas sobre o momento concreto da deflação desta dinâmica especulativa.4

E no entanto o feitiço não pode ser quebrado. O fetichismo do capital,5 o seu automovimento produzido inconscientemente pelos agentes do mercado, que ao desenvolver as suas contradições devasta a sociedade e a natureza, manifesta-se precisamente no auge de uma bolha especulativa. Nenhum dos actores relevantes se pode dar ao luxo de simplesmente sair, enquanto os biliões fluem, nenhuma instituição se pode atrever a estrangular essa febre de investimentos sem levar a economia ao abismo – mesmo que o inevitável crash seja ainda mais violento mais tarde.

A corrida especulativa, que constitui de certo modo um eco destrutivo da economia globalizada de bolhas6 da era neoliberal em declínio, terá mais uma vez um final trágico – a questão é apenas saber quão grave será. Para isso é necessário caracterizar e quantificar esta prosperidade da IA. A actual bolha da IA na fase final da globalização impulsionada pelos mercados financeiros lembra de forma impressionante o seu início, há cerca de um quarto de século, quando a bolha das dotcom, que rebentou na viragem do milénio, com as acções da Internet,7, formou a primeira dinâmica especulativa global (para mais detalhes, ver: «A IA como impulso final da automatização»).8Os avanços científicos e tecnológicos fazem surgir nos investidores a esperança de formação de novos mercados, novos campos de valorização para o capital, que acabam por assumir um carácter irracional – espera-se demasiado crescimento em muito pouco tempo, o que acaba por levar a maus investimentos e ao inevitável crash.

No entanto, existe uma diferença importante entre as duas bolhas de alta tecnologia no início e no fim da economia global de bolhas e a especulação imobiliária que entrou em colapso em 2008.9 ou a bolha de liquidez dos bancos centrais, que só chegou ao fim em 2020 com o aumento da inflação causado pela pandemia: embora todas as dinâmicas especulativas tenham impulsionado a economia, as bolhas de alta tecnologia foram baseadas em transformações económicas reais que realmente alteraram todo o modo de produção capitalista. Mesmo o período da globalização capitalista seria simplesmente inviável do ponto de vista organizacional sem a revolução das tecnologias da informação. O excesso especulativo de 2000 ou 2025 consiste, portanto, numa antecipação demasiado rápida da revolução da economia real – enquanto a economia de bolhas de 2000-2020 se baseou numa política monetária expansionista e na pura especulação de preços,10 que na sua fase final gerou um verdadeiro capitalismo de banco central.11

Breve avaliação da bolha

Os sistemas de IA poderiam (provavelmente) revolucionar fundamentalmente o capitalismo, caso as contradições internas resultantes não o levassem a um colapso semelhante ao que ocorre em grande parte da periferia. A especulação actual com a IA irá no entanto provocar um crash que afectará toda a economia, porque teria de gerar lucros excessivos num curto espaço de tempo para ser economicamente viável. Dois factores são fundamentais na avaliação desta especulação: a actividade de investimento com os empréstimos correspondentes e os aumentos das cotações nos mercados bolsistas.

O bilião (1 000 000 000 000 ) é agora a unidade prática de medição da actual bolha da IA. Dois números são discutidos publicamente: os investimentos dos gigantes do sector de TI em centros de dados, que formariam a infraestrutura do capitalismo de IA sonhado, devem totalizar US$ 2,9 biliões até 2028, de acordo com o Morgan Stanley,12 enquanto a consultora McKinsey prevê um volume de investimentos de US$ 6,7 biliões até 2030.13 Só este ano, segundo a revista The Economist, o sector deverá investir cerca de 400 mil milhões de dólares14 em infraestruturas de IA, enquanto as suas receitas totais ascendem a cerca de 50 mil milhões.15 Para que estes investimentos sejam rentáveis, as receitas, que este ano representam cerca de 13% do volume de investimento, teriam de explodir muito em breve.

O sector de negócios da indústria, a introdução de sistemas de IA na economia com o objectivo de racionalizar e aumentar a produtividade, está realmente em crescimento, mas a sua dinâmica irá abrandar cada vez mais em 2025.16 Assim, enquanto as despesas aumentam cada vez mais rapidamente, o crescimento das receitas abranda. Isto deve-se muito provavelmente às muitas dificuldades iniciais e insuficiências técnicas, cuja solução ainda não é de todo certa. Os primeiros resultados são desanimadores: de acordo com estudos recentes, cerca de 95% dos clientes empresariais da indústria de IA afirmaram não ter obtido lucros extra significativos com a aplicação desses sistemas.17 Outras pesquisas chegaram a conclusões semelhantes, de acordo com o New York Times18: 80% de todas as empresas que utilizaram «IA generativa» não obtiveram vantagens significativas «no final das contas».

A estas dificuldades, que provavelmente poderiam ser ultrapassadas com uma melhor implementação, juntam-se problemas fundamentais de escalabilidade que, de acordo com estudos, fazem com que os sistemas de IA utilizados, por exemplo, em empresas de software, estagnem com taxas de sucesso de 1,5 a 34 por cento.19 Modelos de linguagem maiores, mais caros e mais complexos não são necessariamente melhores: o ChatGPT-3 custou 50 milhões, o ChatGPT-4 custou 500 milhões e já foram investidos cinco mil milhões no ChatGPT-5, sem que isso tenha sido acompanhado por melhorias correspondentes nos modelos em uso prático. Isso não significa que não sejam possíveis novos avanços científicos e técnicos em breve, que permitam um novo impulso ao desenvolvimento – apenas que a utilização da IA em muitos campos deixa actualmente a desejar. O produto, que pode ser copiado cada vez mais facilmente e a baixo custo,20 ainda não está suficientemente maduro para múltiplas aplicações.

No entanto o boom dos mercados de acções dos EUA foi impulsionado quase exclusivamente pela bolha da IA, cujo volume, segundo estimativas, pode ter atingido 17 vezes o da bolha das dotcom e quatro vezes o da bolha imobiliária.21 Cerca de 80% dos aumentos nos preços das acções no mercado de acções dos EUA neste ano devem ser atribuídos ao boom do sector de IA.22 Desde o lançamento do ChatGPT em 2022, o valor do mercado de acções dos EUA cresceu vertiginosamente 21 biliões (ou seja, 21 000 milhares de milhões) de dólares, sendo que apenas dez empresas de TI são responsáveis por 55% desse aumento especulativo.23

Boom da IA na «fase do frango assado»

O boom do mercado financeiro é sustentado pelo correspondente endividamento, que no entanto não é suportado principalmente por investidores dispostos a correr riscos, como aconteceu com o boom das dotcom. Desta vez, são principalmente os gigantes de TI, como Alphabet, Meta ou Microsoft, que devem arcar com mais da metade dos investimentos previstos na infraestrutura de IA. Os titãs das TI representam cerca de 20% do valor de mercado de todas as empresas incluídas no índice S&P 500, mas as suas obrigações representam apenas 2% da dívida das empresas americanas.24 Assim estes gigantes tecnológicos altamente lucrativos podem absorver muito melhor os choques financeiros do que as muitas pequenas empresas da Internet financiadas por capital de risco durante o boom das dotcom que as criou há um quarto de século. Por outro lado, o elevado endividamento geral acumulado pelo sector privado nos EUA – que já atingiu um novo máximo histórico de 8,43 triliões de dólares25 no final de 2024 – deverá agravar a crise no próximo crash.

Um crash deverá derrubar muitas dessas torres de dívida. O facto de a bolha da IA estar a chegar ao seu estágio final é evidenciado pelos absurdos investimentos circulares, pelo incesto do investimentos no sector de IA, que parece ter como objectivo principal simular receitas para manter o fluxo de investimentos e consequentemente o boom especulativo. A agência de notícias Bloomberg26 descreveu em Outubro passado uma opaca rede de «negócios circulares» no sector, em que os gigantes da IA transferem montantes gigantescos entre si para financiar os seus investimentos: em Setembro de 2025, a Nvidia investiu cerca de 100 mil milhões na OpenAI para financiar centros de dados que serão equipados com chips da Nvidia. Outros gigantes, como a AMD, Oracle e Microsoft estão envolvidos em negócios semelhantes, em parte realizados em várias etapas, que simulam receitas, mas apenas movimentam milhares de milhões dentro do sector e dependem de financiamento externo, sem abrir a novos mercados e clientes.

O resultado final é evidente não apenas pelos métodos de financiamento «criativos»: o Financial Times concluiu, por exemplo, que a bolha da IA já havia atingido a sua «fase do frango assado», depois que as acções das cadeias de restaurantes de frango na Coreia do Sul dispararam até 20% em Outubro.27 O contexto: o CEO da Nvidia foi fotografado num restaurante de frango assado durante um jantar de negócios com os seus colegas da Samsung Electronics e da Hyundai Motors.

A exclusiva economia da inteligência artificial

Então quão grave será a situação quando a bolha estourar? Isso só pode ser determinado com base nos efeitos económicos concretos dessa bolha. Quão forte é a economia, a economia real, que se tornou dependente da dinâmica especulativa? A revista The Economist, que investigou as consequências destrutivas de todas as grandes bolhas especulativas desde o século XIX, concluiu que apenas o crash das companhias ferroviárias privadas no final do século XIX teve um potencial destrutivo maior do que o da actual bolha da IA.28 Assim os centros do capitalismo tardio correm o risco de sofrer abalos mais fortes do que os que se seguiram ao estouro da bolha imobiliária em 2008.

A IA é de longe o motor económico mais importante dos Estados Unidos. De acordo com estimativas29 de economistas, quase todo o crescimento real da economia dos EUA no primeiro semestre de 2025 se deve a «investimentos em centros de dados e tecnologia para processamento de software». Outras estimativas concluem que este ano o boom da IA será responsável por cerca de 40% do crescimento económico nos EUA.30

A construção, renovação e equipamento de casas próprias, que tornaram o sector da construção o motor económico durante a bolha imobiliária, estão agora a ser substituídos pela construção de centros de dados e pelos investimentos na infraestrutura correspondente. A isto acresce a procura de energia e água para a indústria da IA, desastrosa do ponto de vista ecológico,31 que alimenta o sector energético. Os sectores da construção e da energia beneficiam concretamente dos sonhos dos deuses da IA em Silicon Valley. E, a propósito, isto já constitui há um quarto de século a base da economia globalizada de bolha: as bolhas especulativas funcionam como motores da economia na sua fase ascendente.

Os gastos gigantescos, na casa dos biliões, com infraestrutura de IA também não são resistentes a colapsos, como gostam de afirmar os gurus da IA, que argumentam que os centros de dados poderiam ser reutilizados mesmo após uma «tempestade de limpeza do mercado». Ao contrário da rede ferroviária, que sobreviveu ao colapso da especulação ferroviária no século XIX, ou mesmo da rede de cabos de fibra óptica, que foi instalada freneticamente durante a bolha das dotcom, os centros de dados têm uma meia-vida muito curta, uma vez que os chips de IA se tornam obsoletos muito rapidamente – meia década é suficiente para transformar investimentos de bilhões em lixo electrónico.

Além da actividade de investimento alimentada pela especulação, o aumento da procura conhecido como «efeito de prosperidade», também estimula a economia, o que resulta na formação de bolhas. O aumento dos preços das acções, como já foi observado durante o boom das empresas dotcom, leva a um aumento dos gastos dos accionistas, que se consideram cada vez mais ricos, desde que o capital fictício em sua posse continue a subir. A participação das acções no património privado nos Estados Unidos atingiu agora o nível histórico de 35%,32 muito acima do nível especulativo durante a bolha das empresas dotcom (30%) e a bolha imobiliária (25%). A maior proporção de acções produz, assim, um efeito económico mais forte na forma de maior procura – ao preço de um potencial destrutivo maior quando a bolha estourar.

Este boom da procura, no entanto, é uma questão muito exclusiva, uma vez que a erosão da classe média, que se iniciou com o estouro da bolha imobiliária,33 e a pauperização da sociedade norte-americana devido à crise já estão muito avançadas. De acordo com a Bloomberg, quase metade de todos os gastos de consumo são agora atribuíveis ao décimo superior da pirâmide de rendimentos dos EUA.34 Em comparação, na década de 90 do século XX, esse valor era de apenas 36%.

Todo o aumento da procura nos EUA é atribuído aos 20% mais ricos, enquanto os 80% mais pobres, que ganham menos de 175 000 dólares por ano, viram os seus rendimentos nominais adicionais serem corroídos pela inflação – não contribuindo para o crescimento da procura interna. Segundo Bloomberg, é «preocupante»35 que um «pequeno grupo» de americanos seja responsável por uma «parte cada vez maior» dos gastos de consumo, que impulsionam significativamente a economia dos EUA. Uma «queda das acções» acarreta, portanto, um grande risco macroeconómico.

Eco da economia neoliberal de bolhas e surgimento do limite interno do capital

De facto a crescente divisão em relação ao aumento do consumo lembra a estrutura social de muitos «países emergentes» na semiperiferia do sistema mundial, onde as classes médias representam a minoria da população – essa estrutura social também se deve estabelecer nos centros ocidentais na sequência da próxima crise. O capitalismo de classe média está se tornando cada vez mais uma questão minoritária. Especialmente porque a política monetária dos EUA dificilmente será capaz de enfrentar o crash com as medidas de crise habituais. Desde a pandemia, a Fed tem-se esforçado por enfrentar o grande aumento da inflação36 a partir de 2021, afastando-se da política monetária expansionista,37 que constituiu a base da economia globalizada de bolhas financeiras do século XXI. Esta radical mudança perante a inflação, que privou a economia globalizada de bolhas e déficits da sua base monetária, constituiu o pano de fundo da transição para a actual fase de crise de estagflação (estagnação económica com pressão inflacionária contínua)38 e protecionismo.39

A Fed conseguiu, pelo menos, conter a inflação oficial, aumentando as taxas de juro e reduzindo o seu balanço,40 mas o banco central dos EUA já não pode reagir às próximas ondas de crise com uma política monetária expansionista tão excessiva como foi possível em 2008 ou 2020,41 sem correr o risco de um novo surto de inflação. O raio de acção da política monetária tornou-se muito menor na era da estagflação secular, uma vez que os bancos centrais se encontram frequentemente numa encruzilhada quase esquizofrénica, em que a inflação exige aumentos das taxas de juro, enquanto ao mesmo tempo a economia em declínio exige reduções das taxas de juro.42 A actual formação de bolhas, irracionalmente baseada numa real revolução dos meios de produção, representa assim um mero eco da globalização neoliberal.

Essa especulação já se desenvolve num ambiente socioeconómico e de política económica que dificilmente dispõe das possibilidades de retardar a crise e transferir a bolha, como tinha o capitalismo globalizado impulsionado pelos mercados financeiros. Além disso, o fim da globalização e o protecionismo massivamente propagado e executado de forma errática por Trump43 fazem com que Washington perca o seu estatuto de «porto seguro» em tempos de crise. Até agora os EUA podiam contar com a entrada de capitais em tempos de crise, o que tinha um efeito estabilizador na economia americana, com a sua esfera financeira dominante. Agora Washington já não pode contar com isso.

E finalmente, por meio dessa bolha de IA, ergue-se inexoravelmente o limite interno do capital,44 tornando-se agora manifesto e visível para todos aqueles que querem percebê-lo.45 Devido a esses aumentos de produtividade, o capital livra-se da sua própria substância, o trabalho que gera valor na produção de mercadorias. O amplo uso da inteligência artificial na economia, que ainda está estagnado no auge do boom e enfrenta dificuldades iniciais, provavelmente terá seu avanço económico durante a crise, o que aumentará massivamente a pressão por inovação e produtividade na assassina concorrência de crise. Apenas os actores do mercado que conseguirem aumentar a sua produtividade o mais rapidamente possível poderão esperar sobreviver à tempestade de limpeza da crise que se aproxima – custe o que custar à sociedade (pressupondo que a crise que se aproxima, devido às crescentes distorções sociais e ecológicas, ainda conduza a um regime de valorização estável, o que não é de todo certo).

Também aqui é esclarecedor olhar para o início da economia global de bolhas financeiras: os Estados Unidos sofreram a mais violenta redução de postos de trabalho na indústria após o estouro da bolha das dotcom entre 2000 e 2003, quando a força de trabalho industrial dos EUA diminuiu de cerca de 17,2 para 14,3 milhões.46 Algo semelhante é agora de esperar no sector dos serviços.47

E, aliás, foi a economia de bolhas financeiras da era neoliberal, baseada numa montanha de dívidas em constante crescimento, que retardou a contradição interna do capital, que já vinha avançando há décadas, por meio dos efeitos conjunturais descritos acima. A economia global de deficit cambaleia agora em direcção ao seu ponto de origem sistémico.48

 

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https://www.nytimes.com/2025/10/27/briefing/is-ai-a-bubble.html

2 businessinsider.com/bill-gates-ai-bubble-similar-dot-com-bubble-2025-10

https://apnews.com/article/ai-bubble-warnings-bank-of-england-imf-b15e54f6d06992371ee39b27f4e6da3a

https://www.ft.com/content/b0038b6f-d83d-4a6a-803a-fa089e2d10ef

https://www.konicz.info/2022/10/02/die-subjektlose-herrschaft-des-kapitals-2/

https://www.konicz.info/2019/01/28/die-urspruenge-der-krise/

https://de.wikipedia.org/wiki/Dotcom-Blase

8 Deutsch: https://www.konicz.info/2024/04/19/ki-als-der-finale-automatisierungsschub/ English: https://www.konicz.info/2024/08/05/ai-the-final-boost-to-automation/ Português: https://www.konicz.info/2024/04/24/a-inteligencia-artificial-como-impulso-final-de-automatizacao/

https://www.konicz.info/2006/11/30/keine-weiche-landung/ https://www.konicz.info/2007/03/05/vor-dem-tsunami/

10 https://www.konicz.info/2021/04/13/oekonomie-im-zuckerrausch-weltfinanzsystem-in-einer-gigantischen-liquiditaetsblase/ https://konicz.substack.com/p/gefangen-in-der-liquiditaetsblase Português: https://www.konicz.info/2021/04/14/economia-intoxicada-com-estimulos-sistema-financeiro-mundial-numa-gigantesca-bolha-de-liquidez/

11 https://jungle.world/artikel/2023/03/fahren-auf-sicht

12 https://www.gurufocus.com/news/2989169/aidriven-data-center-investments-to-reach-29-trillion-by-2028

13 https://www.datacenterdynamics.com/en/news/ai-could-drive-67-trillion-investment-in-data-centers-maybe-claims-mckinsey/

14 https://www.economist.com/business/2025/07/31/who-will-pay-for-the-trillion-dollar-ai-boom

15 https://www.economist.com/finance-and-economics/2025/09/07/what-if-the-ai-stockmarket-blows-up

16 https://www.marketwatch.com/livecoverage/stock-market-today-dow-s-p-500-and-nasdaq-set-for-mild-recovery/card/ai-adoption-rate-is-trending-down-for-large-companies-survey-shows-vBosmsYRiO5cy0CQ9O2o?mod=article_inline

17 https://aimagazine.com/news/mit-why-95-of-enterprise-ai-investments-fail-to-deliver

18 https://www.nytimes.com/2025/10/27/briefing/is-ai-a-bubble.html

19 https://www.marketwatch.com/story/the-ai-bubble-is-17-times-the-size-of-the-dot-com-frenzy-this-analyst-argues-046e7c5c

20 https://www.konicz.info/2025/02/16/die-ki-revolution-frisst-ihre-kinder/ Português: https://www.konicz.info/2025/02/18/a-revolucao-da-inteligencia-artificial-devora-os-seus-filhos/

21 https://www.marketwatch.com/story/the-ai-bubble-is-17-times-the-size-of-the-dot-com-frenzy-this-analyst-argues-046e7c5c

22 https://www.nytimes.com/2025/10/27/briefing/is-ai-a-bubble.html

23 https://www.economist.com/finance-and-economics/2025/09/07/what-if-the-ai-stockmarket-blows-up

24 https://www.economist.com/business/2025/07/31/who-will-pay-for-the-trillion-dollar-ai-boom

25 https://www.investmentexecutive.com/news/research-and-markets/u-s-corporate-debt-hits-record-mark-in-q3-sp/

26 https://www.bloomberg.com/news/features/2025-10-07/openai-s-nvidia-amd-deals-boost-1-trillion-ai-boom-with-circular-deals

27 https://finance.yahoo.com/news/fried-chicken-becomes-part-ai-124658748.html

28 https://www.economist.com/finance-and-economics/2025/09/07/what-if-the-ai-stockmarket-blows-up

29 https://www.wired.com/story/data-center-ai-boom-us-economy-jobs/

30 https://www.economist.com/finance-and-economics/2025/08/18/how-americas-ai-boom-is-squeezing-the-rest-of-the-economy

31 https://jungle.world/artikel/2024/16/kuenstliche-intelligenz-energieverbrauch-klimawandel-mehr-hunger-mehr-durst

32 https://www.investing.com/analysis/equity-ownership-by-households-at-alltime-high-should-investors-be-concerned-200649474

33 https://www.konicz.info/2008/01/23/middle-class-sturzt-ab/

34 https://www.bloomberg.com/news/articles/2025-09-16/top-10-of-earners-drive-a-growing-share-of-us-consumer-spending

35 https://www.bloomberg.com/news/articles/2025-09-16/top-10-of-earners-drive-a-growing-share-of-us-consumer-spending

36 https://www.konicz.info/2021/08/08/dreierlei-inflation/ Português:  https://www.konicz.info/2021/08/11/tres-tipos-de-inflacao/

37 https://www.konicz.info/2023/09/07/geldpolitische-schizophrenie/ Português: https://www.konicz.info/2023/09/14/a-esquizofrenia-da-politica-monetaria/

38 https://www.konicz.info/2021/11/16/zurueck-zur-stagflation/ Português: https://www.konicz.info/2021/11/18/de-volta-a-estagflacao/

39 https://www.konicz.info/2025/03/28/protektionistische-wiedergaenger/ Português: https://www.konicz.info/2025/04/06/almas-do-outro-mundo-proteccionistas/

40 https://www.ft.com/content/3cd43bba-35ca-4b23-8c1c-c8aa1824f341

41 https://www.konicz.info/2020/10/27/vergleich-der-krisen-2020-vs-2008/

42 https://www.konicz.info/2023/09/07/geldpolitische-schizophrenie/ Português: https://www.konicz.info/2023/09/14/a-esquizofrenia-da-politica-monetaria/

43 https://www.nytimes.com/interactive/2025/11/05/business/economy/trump-tariffs-us-imports.html

44 https://www.konicz.info/2025/05/26/trump-an-der-inneren-schranke-des-kapitals/ Português: https://www.konicz.info/2025/05/26/trump-perante-o-limite-interno-do-capital/

45 Excepto ideólogos da velha esquerda e oportunistas da pós-esquerda. Ver: „Der linke Blödheitskoeffizient“ https://www.konicz.info/2020/12/09/der-linke-bloedheitskoeffizient/ Português: https://www.konicz.info/2020/12/17/o-coeficiente-de-estupidez-da-esquerda/

46 https://www.bls.gov/opub/btn/volume-9/forty-years-of-falling-manufacturing-employment.htm

47 https://www.konicz.info/category/kuenstliche-intelligenz-ki/

48 https://www.konicz.info/2011/12/23/die-krise-kurz-erklart/

 

Original “Die künstliche Intelligenzblase” in obeco-online.org. Antes publicado em konicz.info, 09.11.2025. Tradução de Boaventura Antunes

IA: ferramenta, mercadoria e sintoma terminal do capitalismo digital

Análise crítica para os leitores do blogue

Um dos equívocos mais recorrentes no debate público é tratar a inteligência artificial como um simples instrumento técnico, uma ferramenta neutra colocada a serviço da produtividade humana. Esta visão instrumental, herdada da ideologia iluminista do progresso, ignora que, no capitalismo tardio, nada existe fora da forma mercadoria. A IA não escapa a essa lógica. O que está em discussão no texto de Konicz – e que aqui aprofundamos – é precisamente essa diferença decisiva: a IA como ferramenta é uma coisa; a IA como mercadoria, outra completamente distinta.

1. A IA como ferramenta: um meio técnico que poderia ampliar capacidades humanas

No plano puramente técnico, a IA é uma ferramenta poderosa: processa dados, automatiza tarefas complexas, desenvolve modelos preditivos, organiza fluxos de informação e até produz textos e imagens. Como ferramenta, sua função é reduzir trabalho necessário, liberar tempo, descentralizar processos e ampliar capacidades cognitivas.

Uma sociedade liberta do imperativo da valorização poderia usar essas ferramentas para reduzir o sofrimento, redistribuir tarefas e aprofundar a cooperação social.

Mas esse cenário só existe fora do capitalismo.

2. A IA como mercadoria: fetiche, promessa de lucro e motor de bolha financeira

Quando inserida na lógica do valor, a IA deixa de ser uma ferramenta e torna-se mercadoria, e, mais ainda, uma mercadoria típica do capitalismo de ponta: inflada por expectativas, especulação e promessas de rentabilidade futura. É isso que Konicz demonstra.

A IA como mercadoria não existe para melhorar a vida humana; existe para tentar recompor um sistema que perdeu sua capacidade interna de valorização.

A IA é convertida em:meio de extração de valor (redução de custos e eliminação de trabalhadores) ativo financeiro que atrai capitais fictícios em busca de multiplicação acelerada promessa de novos mercados, mesmo que estes ainda não existam infraestrutura especulativa, baseada em investimentos trilionários sem retorno real

Assim, a IA no capitalismo não é um instrumento de libertação produtiva, mas uma tentativa desesperada de salvar o processo de valorização de um colapso estrutural.

3. A contradição central: a mercadoria que destrói sua própria base

Visto desta forma fica evidente o paradoxo fundamental:

quanto mais a IA como mercadoria avança, mais destrói a substância que gera valor – o trabalho humano abstrato.

A IA empurra o sistema para um beco sem saída:

elimina postos de trabalho reduz a base de geração de valor aumenta produtividade sem aumentar salários acelera desigualdade e concentração exige investimentos gigantescos que não retornam em lucros

Ou seja, a IA, na forma mercadoria, rompe o chão onde o capitalismo se sustenta.

4A ecologia dos data centers e o conflito entre Big Techs e Estados nacionais

A expansão desenfreada dos data centers (a espinha dorsal física da bolha da inteligência artificial) aprofunda uma contradição ecológica central: para manter o automovimento do capital digital, é preciso consumir volumes crescentes de energia elétrica, água potável e materiais de alta complexidade industrial, gerando impactos locais e globais que não podem mais ser ocultados pelo fetichismo tecnológico.

Cada centro de dados de grande porte consome tanta eletricidade quanto uma cidade de médio porte e drena milhões de litros de água por dia para refrigeração, frequentemente em regiões já pressionadas pela escassez hídrica. Essa pressão ecológica, aliada ao apetite territorial das Big Techs, coloca as corporações em rota de colisão com os Estados nacionais, que são ao mesmo tempo dependentes das infraestruturas digitais e incapazes de regulá-las efetivamente. As Big Techs, agindo como novos “leviatãs privados”, disputam subsídios, isenções fiscais, acesso privilegiado a recursos naturais e controle sobre redes energéticas, convertendo Estados em meros administradores de interesses corporativos.

O conflito já se manifesta em disputas por água no Oregon e no Arizona, por eletricidade na Irlanda e na Holanda, por tributação na França e na Índia, e por soberania de dados em praticamente todo o planeta. No limite, a ecologia devastada pelos data centers e a perda de autoridade dos Estados nacionais revelam a natureza predatória de um capitalismo digital que devora as condições materiais de sua própria continuidade, enquanto aprofunda a assimetria entre poder corporativo e capacidade pública de governar o território.

5-Ferramenta libertadora ou mercadoria destrutiva? Depende do sistema social.

Entendemos então que a questão não é a tecnologia em si, mas a forma social em que ela se insere.

A IA como ferramenta poderia:

reduzir o tempo de trabalho obrigatório, ampliar a cooperação, democratizar conhecimento, permitir uma economia orientada ao bem-estar.

Mas na forma mercadoria, ela se torna:

vetor de precarização, motor de bolhas, mecanismo de extração de valor, força de destruição de empregos, acelerador da crise estrutural.

Em resumo: a IA não é um problema técnico; é um problema social.

Conclusão para os leitores do blogue

A análise de Konicz revela que a bolha da IA não é apenas mais um episódio de irracionalidade financeira. Ela expressa algo muito mais profundo: a tentativa de prolongar artificialmente um sistema que já não consegue se sustentar. A diferença entre a IA como ferramenta e a IA como mercadoria marca a fronteira entre dois futuros possíveis: um caminho emancipatório, fora da lógica do valor, ou a intensificação de uma crise civilizacional.

 

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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