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“Carne Negra” é um conto potente e perturbador que funde a estética do horror gótico com uma crítica visceral às violências do patriarcado, do racismo estrutural e da necropolítica. Inspirado no gótico andino de Mónica Ojeda, o texto encarna uma escrita das vísceras, em que o corpo negro, feminizável e periférico, é palco de exploração, desejo vil e abjeção social. A linguagem fragmentada, poética e insurrecta expressa a desagregação subjetiva provocada pela violência sistemática, ao mesmo tempo em que transforma o corpo violentado em denúncia e espectro vingador. Alaor Junior constrói aqui não apenas uma narrativa, mas uma performance literária que convoca o leitor a encarar o horror real de uma sociedade que descarta vidas. O conto emerge como ritual de memória, revolta e anunciação do retorno — não como vítima, mas como força que assombra.

“A carne mais barata do mercado é a carne negra
(Tá ligado que não é fácil, né, mano?)” Elza Soares
Minhas carnes doem. A sensação é que a alma escapa como último ato à traição. Por certo os desgraçados só desejavam a minha função: utilidade pélvica, essa é a verdade. Seria funesto destino da minha condição, avessa ao dúbio social estabelecidode antemão? Quem sou? Não sei qual a sua capacidade de suportar dores: físicas, emocionais, quais as piores? Subjetivo,né? Tem horas, como agora, que são insuportáveis. Sou pisteira, tenho bússola para guetos, geógrafo dos porões. Caçoafetos no breu, insana tentativa de entender meu eu, completude, e isso é literal: preenchimento dos buracos do abandono. Se é que posso… Sou mariposa rodada, aleluia serelepe em busca da luz. Mas, agora questiono: qual? Confesso que nem sei onde estou. Não consigo me mover, a paralisia me aterroriza no leito de lama, com os convexos ambarados, vitrificados como peixe passado, tento contar as estrelas, nuvens carregadas atrapalham. Chove: lágrimas da solidão. Retorno febril, [cicli]cidade angustiante. Tenho lampejos dos becos sujos, do labirinto urbano impregnado pelos perfumes de quinta, das encruzilhadas que tantoconhecem meus saltos. Busco respostas no céu e palavras na mente, só[mente], mente, contr[i/a]ção. Sinto a nuca empastada, minhas tranças fagocitam o chão, se enraízam ao profundo, estariam lá as respostas do submundo? O frio me esgarça, tudo se esvai frente à nudez, queimação. Tempo de lamento? Vai saber. [In]tento. Ensaio gritos em vão, não há saliva, nem me cabe a árida compaixão, o som ceifado escapa pelo pomo lacerado, estertor. Trombo férreo é engasgo,hematoma pétreo, ressequido. Confusão. As memórias vêm como insano remoinho. Violências másculas. Até parece: dissimuladas, pervertidas. Sinto-me perdido, toda cortada pelos cacos do preconceito, lancinação no peito. Caleidoscópio cinza.Enferrujado, usado. Toda cromática dos encontros depositando o branco nas entranhas da negro. Perdição. Meu corpo formiga. De súbito percebo em agonia: os vermes me serpenteiam eroem, fastio em alucinação? Não. Mas como escapar das amarras de cobre? Fios da covardia contra preta pobre, maldição. Inchaço, que sanhaço! A terra é coberta parca pro decote esgarçado, pro brinco arrancado, brilho apagado.Babado. Não tenho mais hálitos mornos, ficaram reféns dos hábitos frios, nem humores, quiçá t[r]emores. O que há? Chorumes. Minha memória dói, sinto as varejeiras me beijaremos lábios escancarados, languidez escamada. A mandíbula não responde, prostra-se rija em torno do falo extirpado que obstrui a glote. Minha língua nunca fora preguiçosa, aí me vem àlembrança os corpos que explorei, suados, fétidos, casuais, venais, adoentados, tão iguais ao meu prazer vendável: possibilidade última da sofreguidão. Agora, tudo acessa meus vazios, cessa. Meus furos preenchidos pela podridão faminta. Em desespero, me percebo pleno de muitos, saciado no abandono que tanto me consumia. O pânico me assombra, fantasma nos dias de sombra, os odores me revolvem as tripas, aos cantos dos olhos jardim de abróteas, ermidão é o que me dão. Não há repouso para o ab[usado], o tempo fecha, o universo castiga, os raios reascendem memórias: nojo da saliva dos falsos puritanos, dos cancros purulentos, dos dentes [tar]tarados dos Faustos, misto de álcool e desejo vil, mordidas insanas dos que tentam matar e afogar a própria identidade nas minhas reentrâncias, covardes frente a realidade negada.Teatral. Questiono-me se fui enganado, se eu mesmo mutilei a minha verdade como última tentativa de extirpar a vida nefastaque me consumia. Entreguei-me aos iguais, camuflados, mal-amados, personagens contidos sob a máscara do bom-mocismo, do politicamente correto, hipocrisia da família exemplar. Externaram tudo o que queriam fazer consigo (comigo): mastigaram meus seios, não há mais bicos, auréolas são crateras expostas, devoraram minha energia, vampiros d’alma, me bateram buscando aniquilar o recalcado dentro dos seus abismos de rotos tabus. Fui sodomizado, chutada, socado, lambida, comido, espancada, violado, saciada (também), mutilado, amarrada com fios, enforcado, asfixiada, desenhado e cortado na lâmina sádica, atirada numa caçamba, transladado ao Hades, depositada ao nada sulfurado, semeado e entregue ao destino das pulsões mais sombrias, libertado pela foiceraconsorte, sem sorte. Enfim, imolado, oferta totêmica ao patriarcado. Pois é, todo o discurso bordejado não foi o bastante para a auto-enganação, não, antes, flagelação, não me cabe a negação, me liberto, o crime dos três moralistas me ceifou, argumento torpe: simplesmente machos afrontados. Desprendo-me da carne e sigo no rastro dos que pra cá me enviaram, mas, honro as velas da louvação, regurgito ácida certeza: logo estaremos juntos, a obsessão é afrodisíaca…Demônio? Nem pensar! Tão somente feromônio.
AlaorJr131125

Alaor Junior ė Psicólogo e embasa sua abordagem clínica no viés psicanalítico. Especializou-se em psicologia hospitalar. Atualmente mora em Saquarema, RJ, onde divide horários entre o atendimento clínico e o exercício literário. Assinou enredos no carnaval carioca e catarinense, publicou contos em coletâneas, participa de oficinas de escrita e rodas de leitura.E autor do livro “Invencionismos,Pitoresquices e Fantaciosidade” e “Em Cont(r)os Bordejantes”

Carne Negra” : O horror como denúncia da mercadoria humana.
No conto Carne Negra, Alaor Junior não somente escreve uma história de horror: ele produz uma crítica das formas sociais contemporâneas. A narrativa, marcada por uma linguagem visceral e fragmentada, apresenta o corpo de uma personagem racializada, feminizável e periférica como espaço de abjeção, exploração e descarte. Mas, mais profundamente, revela como o capitalismo, ao subsumir todos os aspectos da vida à lógica da mercadoria, transforma até mesmo os corpos humanos em objetos de consumo, uso e eliminação.
A “carne negra” do título alude diretamente à famosa canção de Elza Soares, mas também é, aqui, expressão da condição do corpo enquanto valor de uso sexualizado e valor de troca precário: um corpo reduzido à sua função pélvica, como diz a narradora, e posteriormente descartado como lixo. Nesse sentido, o conto torna-se alegoria da mercantilização total da existência, onde a dignidade humana é dissolvida nos fluxos de desejo reprimido, violência patriarcal e racismo estrutural.
A escrita se inscreve na tradição do gótico contemporâneo, mas com um deslocamento decisivo: não é o castelo medieval que assombra, mas as vielas urbanas, os guetos, os porões e as caçambas da cidade neoliberal. O monstro não é um ser sobrenatural. Ele é o sujeito masculino comum, atravessado pelo moralismo hipócrita, pelos recalques e pelo poder impune. O corpo narrador, violentado, mutilado e depois silenciado, retorna como espectro, sinal de que a violência fundante do valor, que separa, hierarquiza, extrai e descarta, não pode mais ser naturalizada.
Neste contexto, o texto nos permite compreender que a opressão de gênero e raça não é mero resquício arcaico, mas parte constitutiva da forma social capitalista, que só pode operar pela criação sistemática de vidas “matáveis”, de sujeitos desvalorizados. O corpo narrador, ao final, assume uma posição quase totêmica, um signo maldito que carrega a maldição do mundo que o criou: e que, por isso, anuncia sua ruína.
Assim, Carne Negra não é somente um conto sobre violência. É uma denúncia estética e política contra a lógica da equivalência geral que nos reduz a todos, e em especial aos mais vulneráveis à condição de coisas. Um grito sufocado, mas impossível de ser esquecido.
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