Fundado em novembro de 2011

Os limites do poder-uma reflexão

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 15 leitura mínima

Ouça aqui o áudio deste post 

Receba regularmente nossas publicações e assista nossos vídeos assinando com seu e-mail em utopiasposcapitalistas.Não esqueça de confirmar a assinatura na sua caixa de mensagens

Há 40 anos, a eleição de Maria Luíza Fontenele em Fortaleza rompeu com o script da transição pactuada da ditadura à Nova República. Esta vitória inesperada não foi apenas um feito eleitoral, mas a irrupção de uma energia social que desafiava tanto a direita quanto a esquerda conciliatória. Neste texto, revisitamos essa experiência singular a partir dos testemunhos de seus protagonistas, confrontando-a com os impasses atuais. Mais que memória, trata-se de extrair lições para um tempo em que o colapso do capital já não permite ilusões reformistas. Em tempos de crise estrutural, pensar a emancipação exige romper radicalmente com as formas do poder capitalista .

Graças à Maria Luiza Fontenele,o PT conquistou em 1985 sua primeira prefeitura de capital. Aí a expulsou…

Um texto de Dalton Rosado

Extraído do blogue:Naufrago da Utopia

Era dia 17 de novembro de 1985 e terminava a apuração de votos: concretizara-se o primeiro triunfo de uma candidata do PT a um cargo executivo da importância da prefeitura de Fortaleza, quinta maior cidade do Brasil. A vitoriosa foi a simpática Maria Luíza Fontelenle

Uma multidão exultava diante do local de apuração, o Ginásio Paulo Sarasate. Tendo participado da coordenação da campanha (juntamente com Jorge Paiva, o coordenador geral, e outros menos votados, como o atual deputado federal José Guimarães, do PT), eu assistia àquela profusão de contentamento da multidão com um misto de alegria e preocupação. 

Lembro-me que estávamos em cima de uma Kombi, eu e o então deputado federal do PT José Genuíno (cearense radicado em São Paulo, que viera para o evento à última hora). Ele, percebendo minha alegria contida, que certamente transmitia certa dose de contrição, perguntou-me: você não está feliz?  

Respondi-lhe que sim, mas também preocupado com o day after, pois aquela multidão estava se sentindo redimida e a nossa vitória não significava, obviamente, a redenção.    

Nosso triunfo se devera ao caos que marcara os governos de prefeitos nomeados por governadores que, por sua vez, eram escolhidos pela ditadura militar. 

a simpatia pessoal da Maria Luiza não bastava para
obter êxito governando em circunstâncias tão adversas.

Ainda por cima, as prefeituras daquela época não tinham autonomia financeira, pois esta só viria quando a Constituição de 1988 passasse a vigorar, no ano seguinte.

No nosso caso particular, as dificuldades eram evidentes: não dispúnhamos de nenhum vereador do PT ou de qualquer partido de esquerda; nenhum deputado estadual; e nenhum deputado federal na bancada cearense. 

Eu viria a ser o secretário de Finanças, incumbido de administrar a falência da prefeitura de Fortaleza.

Os meus receios não tardaram a ser confirmados pelo desenrolar dos acontecimentos:

com 15 dias de governo, as categorias profissionais que haviam conquistado o piso salarial correspondente (graças, em grande parte, à nossa luta) estavam prontas para cobrar a implementação de tais conquistas, embora o orçamento já fosse deficitário; 

 a empresa de ônibus de propriedade da prefeitura exigia o aumento do preço das passagens, como forma de cobrir o déficit que vinha sendo subsidiado pela receita da própria prefeitura, cujas finanças estavam combalidas; — os empresários de ônibus, idem; 

reunião com o secretariado: abacaxis para descascar

as empresas de coleta de lixo, pressionando ao máximo que fossem efetuados os pagamentos em atraso, deixavam, premeditadamente, de cumprir sua tarefa, de forma que o lixo se amontoava nas ruas, tornando insuportável o mau cheiro e o desconforto;

para completar o quadro, naquele início de ano vieram as chuvas particularmente e precocemente regulares, que aumentavam os buracos sem que as tradicionais verbas federais (era assim que funcionavam as prefeituras ao tempo da ditadura) chegassem. Era uma deliberada tentativa de fazer passar por ineficiente a administração popular recém-instalada. 

As dificuldades administrativas tradicionais eram enormes e intermináveis.  Ademais, a prefeita Maria Luíza Fontenele, além de ser a primeira mulher eleita para uma prefeitura de capital, pertencia à ala marxista do PT, que sofria um processo de perseguição interna (éramos adeptos do marxismo tradicional, do movimento operário, só posteriormente evoluindo para o marxismo esotérico da crítica ao valor/dissociação de gênero.

A dose era muito forte para o sistema, e até mesmo para o PT.

A ideia de assumir um cargo executivo na esfera política do capitalismo liberal burguês era e é um equívoco para quem se propõe a ser anticapitalista. 

com D.Helder Câmara, detestado pelas elites brasileiras

Uma vez investido no poder, e sendo obrigado a conviver com todos os antagonismos sistêmicos institucionais decorrentes do imperativo de manutenção da ordem capitalista, um governo que possua norte revolucionário, ou mesmo reformista sério, passa a ter de administrar não somente a crise financeira do aparelho de Estado na atual fase de depressão econômica capitalista, como se vê obrigado a revogar as conquistas sociais adquiridas na fase de ascensão capitalista. 

No caso da nossa administração popular de 1986/1988 em Fortaleza, os problemas se agravaram pelo fato de não aceitarmos a política de conciliação com os políticos tradicionais e com donos do PIB tupiniquim. Isto o que nos colocou em rota de colisão com a descaracterização  ideológica do petismo, já em curso (corrupção à parte, pois naquela época ela ainda não era tão visível).

Este foi o verdadeiro motivo da expulsão de Maria Luíza e seus apoiadores (inclusive eu, por ela escolhido para ser seu candidato à sucessão). 

De tudo ficou a lição não apenas da ingovernabilidade de qualquer governo que se proponha a ser pró-povo (a máquina estatal não foi concebida e aperfeiçoada para isto), bem como de quão incoerente é, para quem denuncia a falência vindoura do capitalismo, tentar administrá-lo em proveito desse mesmo capitalismo.


Tal foi, em linhas gerais, a trajetória que nos levou ao amadurecimento político e consequente opção pelo Marx esotérico, que se contrapõe em tudo ao Marx exotérico, do movimento operário, marcado pelo politicismo inconsequente. 


A concepção de luta social a partir da crítica da economia política e da dissociação de gênero difere completamente:

dos métodos e objetivos teleológicos da luta eleitoral; 

da luta pela inserção administrativa no aparelho de Estado; e 

das concepções e objeto teleológico das atuais lutas do movimento sindical (movimento feminista do movimento dos sem-terra e dos sem-teto, etc).    

Estão equivocados os que defendem os sucessivos mandatos do Lula como se fossem atos de resistência anticapitalista. 

Destarte, não tenho saudades da nossa experiência da administração popular, mas confesso que aprendi com ela. (por Dalton Rosado)

Depoimento de Dalton Rosado ao Canal Crítica Radical

40 anos da vitória de Maria Luíza em Fortaleza: ruptura, contenção e os limites da política no capital

Análise com base nos testemunhos de Dalton Rosado e Jorge Paiva

Me enganei ao pensar que era possível transformar a Igreja por dentro. O poder não se reforma a partir do próprio poder.”

Giordano Bruno

Uma vitória contra a história conciliatória do Brasil

Em novembro de 1985, a cidade de Fortaleza protagonizou um evento político singular e profundamente simbólico: a eleição de Maria Luíza Fontenele para a prefeitura. À época filiada ao recém-criado Partido dos Trabalhadores, Maria Luíza foi a primeira mulher a governar uma capital brasileira, representando uma esquerda enraizada em lutas feministas, sindicais, urbanas e de base popular. Sua vitória não apenas desafiou os prognósticos das pesquisas e os arranjos da transição conservadora da ditadura para a chamada Nova República :ela materializou, naquele momento, uma ruptura concreta com a conciliação que molda o ethos político do Brasil desde suas origens.

Uma brecha na transição acordada

Como recordam Jorge Paiva e Dalton Rosado, em recente programa no Canal Crítica Radical, a eleição de Maria Luíza se deu num contexto nacional marcado pela frustração do movimento Diretas Já. Derrotada no Congresso, a proposta de eleições diretas foi substituída por um arranjo de cúpula: Tancredo Neves, o velho conciliador da política mineira, e José Sarney, oriundo da ARENA e da ditadura, assumiram a condução da transição pactuada. A esquerda institucional, majoritariamente, rendeu-se a esse processo.

Fortaleza, no entanto, se tornou exceção. Diante da disputa entre Paes de Andrade (MDB) e Lúcio Alcântara (PFL), expressões distintas da conciliação dominante, o grupo de Maria Luíza captou o “grito contido no ar”, o descontentamento não canalizado das massas. Com base em um acúmulo concreto de lutas – anistia, movimento feminista, ocupações urbanas, mobilização sindical.A candidatura de Maria não foi um artifício eleitoral, mas expressão condensada de uma prática social radical.

A irrupção e a contenção: lições de uma experiência-limite

A vitória da Maria Luíza foi um verdadeiro “acidente da história” para o sistema. Como não havia segundo turno, sua eleição surpreendeu institutos de pesquisa, imprensa, a direita e parte da própria esquerda. O aparato estatal, moldado pela lógica da reprodução capitalista, não estava preparado e nem nem disposto a aceitar uma experiência de governo popular fora das margens da conciliação.

O governo municipal iniciou-se com um orçamento falido, sabotagem de empresários, chantagem institucional e isolamento político. Mas o maior obstáculo, como bem aponta Rosado, não foi apenas conjuntural. O impasse era estrutural. Ao tentar administrar o capital em favor dos de baixo, o governo se viu obrigado a aplicar medidas de contenção da própria energia popular que o havia conduzido à vitória.

É aqui que emerge a grande lição crítica: não é possível “governar contra o capital” a partir do próprio interior do aparelho de Estado burguês. A estrutura do Estado moderno, como bem indicam as análises da crítica do valor, não é um instrumento neutro: ela é forma política específica da sociabilidade capitalista, inseparável das categorias fundamentais do capital : valor, trabalho abstrato, mercadoria, dinheiro.

Do exotérico ao esotérico: a ruptura teórica necessária

A experiência de Fortaleza impulsionou o grupo dirigente ao amadurecimento teórico. A leitura de Marx, sobretudo do “rascunho” de 1857-58 (Grundrisse), e o contato com os textos de Robert Kurz, permitiram compreender que a crise vivida não era um simples impasse político, mas um sintoma da crise estrutural do valor. A substituição do trabalho vivo por trabalho morto (automação, inteligência artificial) e a consequente erosão da substância do valor conduzem o sistema a um colapso interno, que se manifesta em desemprego estrutural, financeirização, destruição ambiental e regressão civilizatória.

A crítica passa, então, do marxismo exotérico : centrado na luta de classes, no operariado e na política institucional para um marxismo esotérico, que radicaliza a crítica da forma social, da economia política e da dissociação de gênero. A derrota prática se transforma, assim, em revelação teórica.

Ontem e hoje – por uma virada emancipatória real

Quarenta anos depois, o mundo vive a intensificação da crise que já era visível em 1985. A chamada redemocratização fracassou. A barbárie social avança, o meio ambiente colapsa, e os governos, à esquerda ou à direita, seguem administrando os escombros do capital. O governo atual, refém da financeirização e do agronegócio, repete promessas progressistas sem capacidade estrutural de realizá-las.

O exemplo de Fortaleza, com todos os seus limites, aponta uma direção fundamental: a necessidade de uma ruptura real, que não se acomode à lógica da administração da crise. Tem razão Jorge Paiva quando diz que : “não adiantou nos conter”. A tarefa de hoje é transformar o descontentamento difuso em consciência crítica radical. Isso exige mais do que eleições. E ė importa-te frisar isto: exige a construção de um movimento emancipatório que recuse o capital em sua totalidade.

O tempo da contenção acabou. A alternativa é clara: emancipação ou barbárie. E como já ensinava Marx, o futuro depende da capacidade de romper com as formas estruturantes do capital que molda o presente.O capitalismo é o hoje o inimigo mortal e principal da espécie humana!

Loading

Compartilhe este artigo
Seguir:
Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Ensaios e Textos Libertários

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading

Ensaios e Textos Libertários