Ouça aqui a crônica de Silvie Armand
Receba regularmente nossas publicações e assista nossos vídeos assinando com seu e-mail em utopiasposcapitalistas.Não esqueça de confirmar a assinatura na sua caixa de mensagens
Em “Carta de Inverno no Regresso”, em uma nova crônica,Silvie Armand volta a Lisboa após o luto do pai e a intensidade dos reencontros em Paris. A viagem de trem transforma-se num espelho do que fica e do que se perde. Ao chegar, encontra a cidade em clima de Natal — luzes, vitrines, castanhas — uma alegria que contrasta com sua melancolia silenciosa.Enquanto Moscavide se veste de festa, chegam do Brasil notícias sombrias da COP30 em Belém, travada entre impasses e promessas vazias. Silvie costura o íntimo ao planetário: uma mulher que regressa ao lar e um mundo que caminha resoluto rumo ao abismo.

Voltei a Lisboa de trem, atravessando paisagens que pareciam dissolver-se na janela. O céu tinha a mesma cor do meu cansaço — um cinza hesitante, entre o dia e o esquecimento. A noite caía.As árvores nuas, os campos húmidos, as pequenas estações perdidas entre colinas… tudo parecia respirar devagar, como se o mundo pedisse um intervalo. Senti o peso dos últimos dias: o enterro do meu pai, o apartamento fechado, Adrien e Malek no terraço vendo Paris escurecer. Cada lembrança surgia como uma fotografia mal revelada.
À medida que o trem avançava, pensei no silêncio que deixei para trás. Paris me deu um luto; Lisboa, talvez, pudesse me devolver o corpo. Os vagões sacolejavam e eu sentia que carregava dentro de mim três vozes distintas — a culpa de Adrien, o infinito de Malek, a minha tentativa de costurar tudo com palavras. A amizade é também isso: um país ao qual sempre regressamos, mesmo quando não sabemos nomeá-lo.
Quando o comboio entrou em Santa Apolónia, Lisboa já brilhava com luzes de Natal. O Rossio estava colorido e vivo, com a Feira de Natal erguendo barracas vermelhas, o cheiro de castanhas assadas subindo e misturando-se ao burburinho da multidão. Crianças riam, vendedores chamavam, e por um momento senti-me estrangeira num país que sempre me acolheu. Talvez o luto também nos transforme em estrangeiros da alegria.
Em Moscavide, as vitrines já exibiam presépios, chocolates, fitas douradas, embrulhos brilhantes. As luzes piscavam como quem tenta convencer o mundo de que ainda há tempo para esperança. O senhor Joaquim da padaria desejou-me Boas Festas e comentou que o preço do bacalhau subiu. A Dona Amélia falava das tradições, da ceia, da família que viria do norte. Havia ternura nessas conversas, mas também um cansaço difícil de disfarçar.
Naquela noite a Internet me trazia notícias. Do Brasil chegavam notas tensas: a COP30 em Belém travada, os países discutindo percentuais enquanto a floresta ardia em silêncio. Falavam em impasses, em metas que nunca se cumprem, em promessas de neutralidade carbónica que só existem no papel. Pensei nas palavras de Malek: “a distância é a nossa herança”. Talvez a maior distância hoje seja entre a urgência da Terra e a lentidão dos humanos.
A humanidade parece caminhar determinada para o precipício — resoluta, distraída, quase orgulhosa da própria cegueira. O capitalismo tornou-se um vício de luzes falsas: consome o planeta, enfeita o abismo e nos convence de que a queda é progresso. As decorações de Natal em Moscavide pareciam mais brilhantes do que nunca, como se quisessem competir com a escuridão que cresce em volta.
Sentei-me à mesa, abri o caderno e ouvi o comboio passar ao longe. O Tejo respirava devagar, como uma velha sabedoria que insiste em ficar. Pensei no meu pai, em Adrien, em Malek, em Paris, em Belém, em Lisboa. Tudo se misturava numa constelação imperfeita. Talvez escrever seja isso: tentar alinhar estrelas que nunca se encontram.
Mas, apesar de tudo, havia uma doçura teimosa naquela noite. Como se Lisboa me dissesse baixinho: resiste mais um pouco. E assim fiz — escrevi, respirei, deixei o inverno entrar.
Lisboa, dezembro de 2025.
Silvie Armand

Silvie Armand é poeta, ensaísta e cronista, transita entre jornalismo cultural e escrita experimental, unindo crítica e criação.
Atualmente vive em Lisboa e é correspondente do Blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários
![]()