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Este texto de Marcos Roberto Brito dos Santos reconstrói a figura de Antônio Conselheiro para além dos estigmas que marcaram a memória de Canudos. A partir de fontes históricas, relatos de sobreviventes e referências literárias, o autor mostra um Conselheiro humilde, sereno e profundamente comunitário, distante da imagem deformada pelos vencedores da guerra. O Belo Monte aparece como espaço de partilha, simplicidade e fraternidade, onde cada um contribuía conforme sua vocação e todos viviam sob a regra ensinada pelo Peregrino. Ao resgatar essa experiência, o autor evidencia o contraste entre a vida comunitária e o olhar repressivo do Estado e da Igreja oficial. “Só Deus é grande”, dizia o Conselheiro, síntese de uma ética que rejeita vaidades e poder. O texto convida a reler Canudos não como fanatismo, mas como testemunho de humildade, fé e convivência solidária.

Embora hoje, comparado aos anos da Guerra de Canudos, saibamos muito mais da vida e trajetória de Antônio Conselheiro, ele ainda é, e sempre será, figura controversa e misteriosa. Em 31 de janeiro de 1897, ano da guerra, quando já se organizava a 3ª Expedição Militar contra o Belo Monte (arraial fundado por Antonio Conselheiro na antiga Fazenda Canudos), Machado de Assis, em um artigo publicado em sua coluna na Gazeta de Notícias, já mencionava o mistério que o envolvia, para aqueles que com ele não convivia. Assim falava o escritor em sua crônica:
Este homem fundou uma seita a que não se sabe o nome nem a doutrina. Já este mistério é poesia. (…). De Antonio Conselheiro ignoramos se teve alguma entrevista com o anjo Gabriel, se escreveu algum livro, nem sequer se sabe escrever. Não lhe conhecem discursos. (…). Diz-se que é um místico, mas é tão fácil supô-lo que não adianta nada dizê-lo. (…). Não se sabendo a verdadeira doutrina da seita, resta-nos a imaginação para descobrí-la e a poesia para floreá-la
Diante disso, sugere então a ida de um repórter de jornal para colher informações sobre o arraial e trazer, em fotografia ou desenho, as feições de Antonio Conselheiro. Mas àquela altura dos acontecimentos, não havia mais diálogo possível, estava o governo determinado a exterminar dos Sertões a comunidade do Belo Monte.
Apesar de não ter enviado um jornalista, entre abril e maio de 1895, ou seja, um ano e meio antes do início da Guerra, em acordo com o governador Rodrigues Lima, o arcebispo de Salvador D. Jerônimo Thomé, enviou dois frades capuchinhos (Frei João Evangelista do Monte Marciano e Frei Caetano de S. Leo), que juntamente com o pároco do Cumbe (hoje município de Euclides da Cunha), realizaram uma “santa missão” no povoado do Belo Monte, com o objetivo de dissipar a comunidade. Ao final desta, um Relatório foi apresentado pelo Frei Evangelista do Monte Marciano, que a despeito de seu caráter ideológico, nos legou, quando analisado nas entrelinhas e com os devidos filtros, algumas poucas informações sobre o funcionamento da comunidade e sobre o pensamento e as atitudes de Antônio Conselheiro. Ainda que consciente de que, diferente do anunciado pelo frade, tratava-se de uma “missão de guerra”, reproduzindo aqui a expressão de um estudioso deste evento, compassivamente o Conselheiro acolhe os religiosos e a santa missão no seio da comunidade, mostrando muita serenidade no tratamento dado aos missionários.
Assim como nesta fonte, em outras, podemos encontrar este Antonio Conselheiro que prezava sempre pela humildade, serenidade, acolhimento e simplicidade, em contraponto a imagem construída pelos seus opositores, em especial Euclides da Cunha. José Calasans nos conta que Pedrão, um reminiscente da guerra de Canudos e do arraial do Belo Monte, teria ouvido da própria boca do Conselheiro, quando um dos adeptos ajoelhou-se diante dele:
Levante-se, que Deus é outra pessoa
Em seus escritos denominava-se como um “peregrino”, lembrando assim os Evangelhos que dizem: “O filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lucas 9,58) e ainda os versículos 46-48 deste mesmo evangelho de Lucas que nos conta sobre a briga entre os discípulos para ver quem seria o maior no Reino de Deus:
E suscitou-se entre eles uma discussão sobre qual deles seria o maior. Mas Jesus, vendo o pensamento de seus corações, tomou um menino, pô-lo junto a si, e disse-lhes: Qualquer que receber este menino em meu nome, recebe-me a mim; e qualquer que me receber a mim, recebe o que me enviou; porque aquele que entre vós todos for o menor, esse mesmo será grande
A frase presente no medalhão do arco-cruzeiro da Igreja do Bom Jesus de Crisópolis (BA), construída pelo Conselheiro, “Só Deus é grande”, sintetiza bem o conselho de Antonio para todos nós, peregrinos e discípulos da posteridade. São, assim, palavras sábias as de Jadilson Pimentel em sua dissertação quando afirma que
a mensagem deixada pelo peregrino, está revestida de fé e humildade, além de possibilitar a consciência de que tudo deverá ser feito para engrandecer o nome do Senhor
Assim, não obstante as diversas funções a que todos foram e são chamados na edificação do Reino, deve-se sempre ter em mente que somos todos chamados a serem irmãos, contribuindo com suas mais diversas vocações, incentivando uns aos outros e compartilhando os espaços. Onde há disputa, e reina as vaidades, não há evangelho, nem conselheirismo. Que os nossos dedos apontem para Jesus, para o Conselheiro e os mártires, não para nós mesmos.
Assim nos relata Honório Vilanova, ex-morador de Canudos e sobrevivente de guerra, em entrevista dada a Nertan Macedo em 1962, ao expressar o fundamento que animava a vida no Belo Monte:
Grande era a Canudos do meu tempo. Quem tinha roça tratava da roça, na beira do rio. Quem tinha gado tratava do gado. Quem tinha mulher e filhos tratava da mulher e dos filhos. Quem gosta de reza ia rezar. De tudo se tratava porque a nenhum pertencia e era de todos, pequenos e grandes, na regra ensinada pelo Peregrino
O Belo Monte é partilha e simplicidade. O Sertão é partilha e simplicidade.
“O mar vai virar Sertão”, profetizava ainda o Conselheiro. Que assim seja! Que a simplicidade do sertão um dia possa repousar no mar das vaidades que domina o mundo de hoje e que assim como as ruínas do Parque Estadual, que só se revelam de tempos em tempos, o Conselheiro a nós se revele, nas entrelinhas da história.

Marcos Roberto Brito dos Santos é doutor em História pela UFBA
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CALASANS, José. Cartografia de Canudos. Salvador: ALBA/IGHB, 2015.
SANTOS, Jadilson Pimentel. A arte e a arquitetura religiosa popular do Antonio Vicente Mendes Maciel, o Bom Jesus Conselheiro (dissertação – mestrado). Salvador: UFBA, 2011.
VASCONCELLOS, Pedro Lima. Missão de Guerra: capuchinhos no Belo Monte de Antonio Conselheiro. Maceió: EDUFAL, 2014.
BIBLIA SAGRADA (Edição Pastoral). São Paulo: PAULUS, 2005.

Sob as ruínas, o horizonte: Conselheiro e as utopias que sobrevivem ao massacre
Marcos Roberto Brito dos Santos tem como preocupação o estudo sobre Canudos e os personagens que edificaram sua história que fecunda o universo das utopias no Brasil. Seu texto sobre Antônio Conselheiro reacende uma dimensão essencial para o projeto do nosso blogue: Utopias Pós-Capitalistas. Ė a compreensão de que experiências comunitárias, mesmo fragmentadas ou esmagadas pela violência de Estado, constituem horizontes de possibilidade para pensar um mundo além da lógica mercantil. O Belo Monte, retratado não como fanatismo, mas como partilha e simplicidade, expõe aquilo que a crítica do valor identifica como uma ruptura simbólica com o imperativo da valorização do capital. A vida no arraial — baseada na reciprocidade, no cuidado mútuo, na ausência de competição e na centralidade do comum — não foi apenas uma organização religiosa, mas uma afronta silenciosa à modernidade capitalista que se consolidava no Brasil do fim do século XIX.
Revisitar o Conselheiro sob uma lente descolonizada é fundamental, porque o que se destruiu em Canudos não foi apenas um “reduto místico”, mas uma tentativa popular de construir sociabilidade fora da coerção do mercado e da forma mercadoria. A narrativa oficial transformou essa experiência em atraso, ignorância ou ameaça à ordem para justificar seu extermínio. Hoje sabemos que esse enquadramento é parte do próprio mecanismo de reprodução do valor: o capitalismo precisa desqualificar, demonizar ou invisibilizar qualquer forma não mercantil de existência para manter sua universalidade incontestada.
Resgatar Canudos como utopia comunitária é, portanto, um ato político contemporâneo. É reconhecer que, antes da financeirização global, antes da captura algorítmica das subjetividades pelo capitalismo digital, antes da transformação das relações humanas em dados e mercadorias, existiram — e ainda existem — brechas históricas onde outras formas de vida se pronunciaram. A simplicidade do Sertão, evocada pelo texto, não é ingenuidade: é resistência. É memória de uma sociabilidade que não foi governada pelo fetiche da equivalência abstrata, mas por vínculos concretos e cotidianos.
A crítica do valor nos permite compreender que imagens como as de Belo Monte foram distorcidas porque representavam perigo. Não o perigo militar,sempre inflado pelos relatórios oficiais,mas o perigo simbólico: a prova de que o capitalismo não é natural, inevitável ou absoluto. Por isso a importância de construir novas imagens descolonizadas, capazes de desmontar os imaginários que associam comunidade a atraso e autonomia coletiva a irracionalidade. Ao recuperar o Conselheiro sem o filtro do olhar republicano-armado ou da historiografia eurocentrada, produzimos fissuras na narrativa única do progresso capitalista.
Utopias não são arquiteturas futuras: são recuperações críticas de experiências que revelam que o mundo pode ser diferente. Canudos,reimaginado fora da caricatura e à luz de sua força comunitária devolve às lutas contemporâneas aquilo que o capitalismo tenta nos roubar: a confiança na capacidade humana de criar formas de vida não submetidas ao valor. E é justamente por isso que sua memória precisa ser recontada, reinscrita e defendida. O sertão da partilha ainda é possível, se soubermos ler suas ruínas e ouvir os silêncios que sobreviveram ao massacre.
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