Fundado em novembro de 2011

A nova estratégia de segurança dos EUA, corolário Trump e o Brasil-André Márcio Neves Soares

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 26 leitura mínima

Ouça aqui o áudio do nosso Post 

Receba regularmente nossas publicações e assista nossos vídeos assinando com seu e-mail em utopiasposcapitalistas.Não esqueça de confirmar a assinatura na sua caixa de mensagens

Neste artigo, André Márcio Neves Soares analisa o retorno da Doutrina Monroe sob um novo formato — o “Corolário Trump” — e suas implicações para o Brasil e a América Latina. Combinando rigor analítico e visão crítica, o autor denuncia a reconfiguração da política externa dos EUA como um projeto abertamente neoimperialista, amparado na força e na exceção. O texto alerta para os riscos do alinhamento das elites locais com essa nova hegemonia e aponta os desafios que se colocam a um eventual novo governo Lula, tanto no plano interno quanto no xadrez geopolítico hemisférico.

O primeiro texto deste ano não poderia tratar de outro tema, senão os recentesacontecimentos no continente americano, notadamente a retomada pelos Estados Unidos da “Doutrina Monroe” e o novo “Corolário Trump”, daí resultante.

nova Estratégia de Segurança Nacional americana reafirma a decisão dos Estados Unidos de ampliar sua presença militar e influência na região da América Latina. Como, infelizmente, os pequenos países que compõem a América Central já estão, em grande parte, sob o jugo estadunidense, resta a parte da América Latina que ainda não deu a guinada à direita, ou seja, a América do Sul e o México, atualmente presidido por Claudia Sheinbaum, do partido de esquerda Morena (Movimento de Regeneração Nacional), que assumiu o cargo em outubro de 2024. 

Mas o que seria de fato a nova Estratégia de Segurança Nacional americana? Nada mais nada menos do que o retorno da política externa do ex-presidente dos Estados Unidos James Monroe (1758 – 1831): “A América para os Americanos”. De acordo com a“Doutrina Monroe”, como ficou conhecida na história, os Estados Unidos declararam, em 1823, sua intenção de proteger a região contra o avanço de potências de outros continentes. É óbvio que o termo “proteger” está lá empregado de maneira enviesada, pois o objetivo verdadeiro era proteger os interesses dos Estados Unidos contra a concorrência estrangeira nos outros países das américas. Daí a qualificação da América Latina como o “quintal” dos Estados Unidos. É certo que outros presidentes, após James Monroe, também tiveram seus corolários, como, por exemplo, o presidente Theodore Roosevelt (1858-1919), que, em 1904, defendeu que os Estados Unidos deveriam intervir nos países da região que não fossem capazes de cumprir com seus compromissos financeiros ou cuidar das suas democracias.

Ora, se a nova Estratégia de Segurança Nacional americana tem como mote voltar a interferir descaradamente, sem floreios ou subterfúgios, nos assuntos internos dos países da região – o que aliás já vem ocorrendo, como demonstram as interferências nas eleições de meio de mandato presidencial na Argentina e na eleição presidencial de Honduras -, é preciso definir, mais assertivamente, o “corolário Trump”, para situá-lo na nossa contemporaneidade. 

Nessa toada, 200 anos depois que a “Doutrina Monroe” foi estabelecida, Trump parece querer ressuscitá-la e reafirmá-la ainda mais veementemente. De fato, que ninguém se iluda, o “corolário Trump” busca a supremacia total estadunidense nas Américas. Não se trata mais de evitar que países “de fora” interfiram nas transações econômicas e financeiras entre Estados Unidos e o resto de nós (Monroe), até mesmo porque isso seria impossível a curto prazo, em razão dos enormes investimentos chineses na região. Tampouco se trata de interferir nos países com problemas nas suas democracias ou nos seus balanços de pagamentos (Roosevelt). O “corolário Trump” busca interferir explicitamente na política interna dos países das Américas, com o objetivo de restaurar a proeminência estadunidense no hemisfério ocidental. E em todos os aspectos. É por isso que seu corolário ganhou a alcunha de “Doutrina Donroe”.

Mas o que queremos dizer exatamente com isso? O que seriam todos esses aspectos da “Doutrina Donroe”?

Fundamentalmente, a volta da submissão total! Após o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos assumiram o controle, quase completo, de todas as esferas da vida cotidiana das Américas: política, econômica e cultural. Não por acaso, a CIA foi criada em 1947. E dezenas de golpes de estado, diretos ou indiretos, foram desencadeadospelos Estados Unidos, sendo alguns dos mais ruidosos na Guatemala (1954), no Brasil (1964), no Chile (1973), na Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia (década de 1970), na Nicarágua (1980), no Panamá (1989) e na Venezuela (2002). 

O objetivo sempre foi o mesmo, a saber, a manutenção dos vínculos geopolíticos da América Latina com o governo norte-americano. Ao mesmo tempo em que freava os interesses europeus por uma nova fase de colonização pós-guerras na região, e mantinha o discurso público de defesa dos ideais da sociedade americana – democracia, república e liberdade -, estimulava a criação de alianças com as elites de cada país, visando a apropriação das principais riquezas de cada um deles, assim também a abertura dos mercados para os excessos da sua produção capitalista.

Acontece que a “Doutrina Donroe” vai mais longe. Inserida na nova Estratégia de Segurança Nacional, essa doutrina autoriza explicitamente o uso de força letal fora do próprio território. Isso é um perigo, pois rompe os pilares centrais do Direito Internacional. Na prática, os limites da política externa, da política comercial e da ação militar foram mitigados. O Hemisfério Ocidental, que abarca o continente americano, passa a ser tratado como um espaço de segurança interna expandida dos Estados Unidos. Isso representa a ruptura da ordem baseada em regras, agora substituída pela lógica do poder direto/imperial e da força, baseada em influência e coerção explícita.

E o Brasil, nessa nova narrativa neoimperialista americana?

A segurança do Brasil, enquanto país autônomo e independente (sic), está tensionada para além da já histórica dependência dos humores estadunidenses. Se é verdade que os Estados Unidos deixaram de ser nosso principal parceiro comercial desde 2009, com a China galgando este posto, é também verdade que ainda estamos sob influência direta das políticas de Washington. Basta lembrar a influência da taxa de juros americana na nossa política interna de juros. É preciso, pois, que o Brasil fique bem alerta à mudança dos ventos oriundos do hemisfério norte. 

Nesse contexto, sinais preocupantes não faltam. A interferência de Trump nas eleições majoritárias em vários países da América Latina no ano de 2025 deve ser vista como um “avant première” para as eleições brasileiras de 2026. Realmente, o próprio núcleo dirigente do PT sabe que Trump tentará interferir também aqui. Todavia, com a atual extrema direita brasileira ainda fragmentada, após a prisão de Bolsonaro, a indicação de seu filho, Flávio Bolsonaro, para concorrer à presidência, além da resistência ao nome de Michele Bolsonaro, não se pode ter clareza sobre o que esperar para este ano que se inicia. A meu ver, se essa fragmentação persistir até a eleição, as chances de a oposição evitar um quarto mandato de Lula fica bastante comprometida. Daí que, sinceramente, não acredito nisso. O mais lógico, do ponto de vista da direita, seria uma composição entre o seu principal candidato, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e a família Bolsonaro. No máximo, caso a amplitude de visão política da família Bolsonaro se confirme, a direita entrará dividida no pleito, mas estarão todos juntos no segundo turno. A conferir.

Apesar do imbróglio atual na nossa política interna, penso que haverá motivos de sobra para Lula se preocupar nos próximos anos, caso reeleito, com o candidato a ditador estadunidense. Na verdade, a preocupação brasileira pode se tornar ainda maior, no decorrer dos anos, a depender do que vai acontecer na política no norte das Américas. Mas isso não é possível prever. Talvez devamos torcer para que o caso dos “arquivos Epstein” defenestre Trump do poder ou pelo menos o façam perder a maioria republicana em uma das casas do congresso americano em 2026. Fato é que, caso ainda tenhamos três anos de governo Trump a solapar todo o arcabouço do direito internacional arduamente construído nos últimos 80 anos, não só o Brasil e as demais forças democráticas da América Latina devem manter-se atentos, mas o próprio mundo. 

Em relação ao Brasil, ainda que a extrema direita esteja fragmentada nesse momento, isso não quer dizer que ela está inoperante. A tentativa de arrastar o ministro do STF Alexandre de Moraes para uma espécie de nova “Lava-jato”, por meio de fake newspropaladas por uma jornalista antes apoiadora do ignóbil ex-juiz e atual senador Sérgio Moro, demonstram que a hidra ultrarradical da direita brasileira está mais do que viva. Ela se regenera rapidamente. De fato, se a grande mídia nacional ficou horrorizada com a gestão caótica, suicida e abertamente corrupta do governo Bolsonaro, isso não quer dizer que ela se tornou mais democrática. O apoio implícito que ela se permitiu prestar para a terceira eleição de Lula – ao evitar bombardeá-lo com notícias ruins ou falsas, como sempre fez -, somente existiu por conta do horror pelo bolsonarismo. Agora, com Bolsonaro preso e fora da disputa, a grande mídia nacional recarrega as baterias de injúrias que atravessarão a disputa eleitoral em 2026.

Nessas circunstâncias, ainda que Lula vença mais uma vez, os cenários nacional e internacional irão exigir dele uma força física e intelectual, e acima de tudo espiritual, que eu espero que ele ainda demonstre possuir. Afinal, se eleito, Lula entrará no seu último mandato já octogenário. Nesses últimos dias, a revista conservadora e liberal “The Economist” chegou até a pedir que Lula não se candidatasse a um novo mandato. É claro que a razão para o pedido tem muito menos a ver com a idade de Lula do que com o viés político. Mas fica aqui o registro de que o etarismo na política também existe, especialmente se o preconceito se coadunar com a ideologia. 

Caso confirme seu favoritismo, Lula terá muito mais com o que se preocupar do que com o etarismo, digamos, ideológico. De fato, uma possível derrubada do governo de Nicolás Maduro na Venezuela – e a ascensão da sua principal opositora, Maria Corina Machado, vencedora em 2025 de um muito suspeito Prêmio Nobel da Paz -, pode estabelecer um novo paradigma de intervenção dos Estados Unidos no continente latino. Além de se apossar das maiores reservas de petróleo conhecidas no mundo, um governo títere pró-Washington irá estabelecer uma espécie de cabeça-de-ponte dentro da América Latina para os interesses americanos mais escusos. De uma tacada só, Trumptambém ficará vizinho da Guiana, notadamente da região de Essequibo, onde foram recentemente encontradas valiosas reservas de óleo cru.

Nesse ponto, não é apenas com a possível queda de Maduro que o governo Lula deve se preocupar, embora tal fato já seja, de per si, bastante perturbador, considerando a longa calmaria que reina neste continente sul. Se Maduro cair, e aqui não estamos defendendo a ditadura chavista, o narcisismo patológico de Trump não se dará por satisfeito. Com sua retórica messiânica particular, Trump se sentirá ainda mais escolhido por “Deus” e tentará estender seus tentáculos para o resto da América Latina. Deveras, tendo vassalos a apoiá-lo incondicionalmente na Argentina, Chile, Bolívia e Equador, assim também nos países caribenhos, o cenário para o Brasil nos próximos anos pode ser descrito quase como um cerco. 

Agora chegamos ao ponto crucial deste texto. Afinal, penso que para todo pesquisador é necessário conhecer o passado, entender o presente e tentar vislumbrar o futuro. Ainda que o futuro, quase sempre, tenha muitos caminhos. Infelizmente, neste momento, as alternativas para o futuro do Brasil, e da América Latina por tabela, estão restritas a duas, a depender, claro, do que acontecerá com o governo Trump e sua sucessão.

Sobre a primeira alternativa, se Trump sair fortalecido da eleição de meio de mandato em 2026, o mundo vai tremer. Favorecido mais uma vez nas urnas, os últimos dois anos do governo Trump, 2027 e 2028, serão certamente um acerto de contas com seus inimigos mais ferrenhos e uma busca frenética por mais espoliação. Afinal, é conhecido o relato de Tucídides (460 a.C. – 400 a.C.), historiador da Grécia Antiga e general,sobre a vitória de Atenas na Guerra do Peloponeso: “os fortes fazem o que querem e os fracos sofrem o que podem”. Não à toa, Trump voltou a ameaçar o Irã com novos bombardeios; recebeu Netanyahu como um verdadeiro chefe de governo (e não como um genocida e corrupto); intensificou as operações de ataque na Venezuela; vem tentando alinhavar um cessar-fogo na guerra da Rússia contra a Ucrânia, com termos mais favoráveis aos primeiros; e busca reforçar os armamentos estadunidenses com novos navios de guerra que batizou, narcisicamente, de classe “Trump”. 

Trump pode ser um ignorante em termos de história e política, mas seu séquito mais próximo não. Muitos deles sabem que a chance de redefinir o conceito de soberania nunca esteve tão próxima, desde o fim das duas guerras mundiais. O partido Republicano está quase todo ele nas mãos de Trump. O partido democrata até aplaude muitas das iniciativas imperialistas de Trump. Ou seja, em termos de política externa, Trump tem a benção da maioria dos parlamentares do Congresso americano. Com efeito, poucas vozes, na oposição, têm sido ouvidas contra as explosões de barcos venezuelanos, e também colombianos, sob o pretexto de que estariam levando drogas para os Estados Unidos. 

Nessas circunstâncias, ainda que os Estados Unidos se considerem uma nação abençoada por Deus, soberania é um constructo social. O jurista nazista Carl Schmitt dizia que a soberania é “a capacidade de decidir o que é uma exceção ao Estado de Direito e agir de acordo”. O governo Trump parece estar seguindo esse conceito. Ao agir como um soberano que busca conseguir tudo o que deseja, sob o argumento de que é do interesse estadunidense, sem limites para aplicação de força econômica e/ou militar, ele também persegue a Virtú e a Fortuna de Maquiavel. Com isso, o governo Trump passa a mensagem de irrelevância da ordem internacional. Nenhuma aliança antiga, nem mesmo as históricas, estão a salvo da gana de Washington. A Dinamarca que se cuide com a Groelândia.

A outra alternativa para o futuro se refere à sucessão de Trump. Se houver… Afinal, quem pode hoje, em sã consciência, dizer que ele não tentará mudar a Constituição americana para se permitir um terceiro mandato? Ele já tentou anular a eleição de Joe Biden no início de 2023, quando incentivou a invasão do Capitólio. Se tentar novamente alguma manobra política para permanecer no poder, pode vir a conseguir dessa vez. E apossível (mas não provável) permanência de Trump no poder ou a ascensão de alguém do seu grupo mais restrito, como o Vice-Presidente JD Vance ou mesmo o Secretário de Estado Marco Rubio, pode intensificar a onda de governos autoritários nessa região que já está dividida. É por isso que a próxima eleição será crucial para o Brasil e a América Latina

Para o Brasil, as consequências podem ser ainda maiores. Com efeito, a próxima eleição americana para presidente ocorrerá na metade do mandato do próximo presidente brasileiro. Hoje Lula é o grande favorito. Se isso se confirmar, o próximo presidente americano pegará o último governo Lula no já tradicional viés de baixa, em termos de popularidade. Isso por inúmeras razões: dois mandatos são, historicamente, desgastantespoliticamente; as inconstâncias da economia interna e externa; os conchavos políticos para uma nova história política brasileira, desta feita sem a figura proeminente de Lula; além da previsível pressão estadunidense por maior alinhamento político e econômico com Washington. 

Se Trump não lograr êxito em sua empreitada para se manter no poder – afinal, ele também já será um octogenário e enfrenta problemas de saúde que busca esconder – e o novo presidente americano for menos belicoso, o respiro de alívio não será apenas do Brasil, mas do mundo. Se ele conseguir, porém, é possível prever apuros para o Brasil. Com reservas de petróleo significativas e aumentando, com a segunda maior reserva mundial de terras raras e com uma elite quase totalmente alinhada com a necropolíticados Estados Unidos, é provável que o Sul Global prove ainda mais da fórmula mágica da soberania do império. O Brasil será levado por esse rolo compressor. De nada adiantará apelar para as instituições e normas internacionais, porque elas já estão mortas.  

Na década de 1920, quando o ditador fascista italiano Benito Mussolini ascendeu ao poder, o filósofo marxista sardo Antonio Gramsci descreveu aquela época como um tempo de monstros, “quando o velho mundo está morrendo, e o novo mundo luta para nascer”. A alegoria de Gramsci se referia a períodos de profunda instabilidade social, crise e transição, em que o antigo sistema não se sustenta e o futuro é incerto, abrindo espaço para o surgimento de fenômenos políticos e sociais perigosos, ou “monstros”, como o fascismo ou outras formas de autoritarismo, que emergem nesse “claro-escuro” de transformação. Algum(a) leitor(a) tem dificuldade para identificar o atual tempo de monstros na figura de Donald Trump? A diferença aqui é que a velha ordem do multilateralismo está morta, mas o novo mundo autoritário nasceu rapidamente.

Mas como não quero finalizar esse texto com uma mensagem tão pessimista, ainda mais no início deste ano de 2026, registro que é possível enxergar alternativas para o Brasil,nos dois cenários acima retratados, que podem mitigar os efeitos de um terceiro mandato Trump ou a eleição de alguém com a mesma ideologia.

O problema é que a maioria delas é de longo prazo. No curto prazo, os recursos são muito poucos. Mas vamos tentar especificar alguns.

No curtíssimo prazo, o governo Lula deveria reforçar as políticas sociais como o fim da escala 6×1 de trabalho. A queda da taxa de juros em 2026 também seria bem-vinda, uma vez que nenhum país do mundo consegue crescimento sustentado com taxas de juros estratosféricas – na verdade, não existe explicação convincente para o atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, indicado pelo governo Lula, continuar mantendo juros tão altos. Nesse sentido, Fernando Haddad, patrono da indicação de Galípolo, deuum tiro no pé em termos políticos. Uma outra medida importante seria a valorização do serviço público, reduto eleitoral fundamental em todas as eleições de Lula. Vale também lembrar a justa medida de acabar com o imposto de renda para quem ganha até R$ 5.000,00 e reduzir o imposto para quem ganha até R$ 7.350,00, o que beneficiará no total mais de 15 milhões de cidadãos e cidadãs. Por fim, ainda em 2026, seria preciso que Lula seja bem explícito na mídia, sobre seus planos de governo, caso seja reeleito, para evitar “fake news”. 

No curto prazo, se Lula for reeleito, é preciso acelerar as reformas econômicas para que deixemos de ser o quinto país mais desigual do mundo, segundo o Relatório da Desigualdade Global, do World Inequality Lab (Laboratório da Desigualdade Mundial), liderado pelo economista fracês Thomas Piketty. Não podemos ter os 10% mais ricos do Brasil concentrando 59,1% da renda nacional, enquanto os 50% mais pobres ficam com apenas 9,3% da renda nacional. Nessa toada, a valorização do salário mínimo é importante, mas já não basta. Assim, uma redução do volume de juros pago aos rentistas – hoje na casa de quase um trilhão de reais por ano –, para que parte desse valor economizado seja revertido em políticas públicas que gerem emprego e renda para osmais pobres, viria bem a calhar. 

Ademais, como “gran finale”, Lula deveria, no seu último mandato, colocar em prática algumas das suas promessas nunca realmente cumpridas, como, por exemplo, a realização de uma robusta reforma agrária. O sertão nordestino, com suas eternas secas e inúmeros latifúndios improdutivos, que matam a corajosa população de lá, é uma vergonha nacional. A valorização da cultura e do turismo em suas várias facetas de representações também precisa sair do papel. Como se vê, o curto prazo é muito curto para tanta coisa. Mas isso não deve ser desculpa para não tentar. Mais de vinte anos depois do primeiro mandato de Lula, se as medidas de curto prazo acima citadas tivessem sido implementadas, em parte pelo menos, talvez não teríamos tido o golpe de 2016 contra Dilma Rousseff, muitos menos a nefasta ascensão do bolsonarismo.

Chegamos agora ao longo prazo. Claro que Lula não estará mais no comando da nação. Porém, isso não significa que ele não possa dar os primeiros passos que o Brasil precisa, se não quiser se tornar uma Argentina no futuro, quiçá uma Venezuela. Um bom começo seria, a nosso ver, uma reforma educacional de base, abrangendo todo o território nacional. Sem isso, podemos esquecer o desejo de sermos realmente uma nação respeitada mundialmente. Outra questão, de extrema importância para o futuro,diz respeito à nossa capacidade de segurança nacional. Aqui, os exemplos nas últimas duas décadas no Iraque, Irã, Venezuela e até na Ucrânia (para ficarmos só nos maiores e mais representativos países, sem esquecer dos genocídios palestino e sudanês), devem ser levados muito a sério. Um país que não tem capacidade material de se defender adequadamente de possíveis agressões externas está fadado a ser colônia sempre.

Ora, e quando Trump, ou outro maluco estadunidense, voltar seus olhos para nossas capacidades energéticas ou nossa água? E se um JD Vance for eleito presidente e quiser tomar a Amazônia, sob o pretexto de que ela é o pulmão do mundo, logo pertence à humanidade? (ainda que esse pretexto já tenha sido rebatido como falso pela ciência, é fato que a Amazônia exerce influência nos processos climáticos mundiais). Então, o que faremos? Cederemos a região amazônica e viraremos um protetorado americano? Pagaremos por ela aos Estados Unidos, como pagamos por nossa independência à Inglaterra? Por isso defendo um forte incremento nos sistemas de defesa interna do país. Sem um plano estratégico para cobrir todo o território nacional, que tem 16.886 km de fronteira terrestre, fazendo divisa com 10 países (Guiana Francesa, Suriname, Guiana, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai), além de umaextensa faixa litorânea (de aproximadamente 7.367 km), estamos à mercê de qualquer potência invasora, não só os Estados Unidos. 

Concluo dizendo que o horizonte para as Américas, caribenha e sul-americana, nunca foi tão sombrio desde o período Reagan, embora já tenhamos enfrentado tempos difíceis antes De fato, o presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan (1911 – 2004), entre1981 e 1989, também tentou retomar as “rédeas do destino da nação”, ou seja, recuperar o padrão de vida dos estadunidenses via espoliação dos países periféricos. Mas ele não conseguiu, a despeito do processo de desintegração do mundo soviético. Quase 40 anos depois, Trump quer fazer a mesma coisa, porém com forte viés totalitário. Quem se der ao trabalho de ler a Nova Estratégia de Segurança dos Estados Unidos, e mais o acréscimo do “corolário Trump”, ficará estarrecido. A menos que seja parte da elite que sonha em transformar o Brasil numa Trinidade e Tobago ou algum ignorante bolsonarista que descobrimos, para nosso infortúnio, serem tantos em solo nacional.

 

P.S.: Acabo de saber hoje, dia 03/01/2026, que os Estados Unidos sequestraram o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, usando a força de elite conhecida como Delta Force. Maduro e a mulher estão a caminho de Nova York. Uma ação totalmente ilegal, mas contra a qual o mundo provavelmente não se insurgirá, mais uma vez. Aqui, a mídia golpista atenuará essa infâmia internacional com o discurso de que Nicolás Maduro era um presidente ilegítimo. De fato, era. Mas não mais ilegítimo do que as monarquias do golfo pérsico, de Putin, Zelensky, Erdogan, Viktor Orbán e tantos outros. No lado americano, Trump já afirmou que os Estados Unidos tomarão conta do petróleo venezuelano e tranquilizou a China sobre qualquer interrupção no fornecimento dessa commodity. As portas do inferno na América Latina foram abertas.

André Marcio Neves Soares

André Márcio Neves Soares é doutor em Política Sociais e Cidadania pela Universidade Católica do Salvador – UCSAL – e funcionário público federal há trinta anos

Loading

Compartilhe este artigo
Seguir:
Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Ensaios e Textos Libertários

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading

Ensaios e Textos Libertários