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Um mundo que se tornou pequeno-uma crônica de Silvie Armand

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 5 leitura mínima

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Nesta nova crônica para os seus leitores, no regresso de comboio do Porto para Lisboa, Silvie Armand transforma a paisagem em pensamento: entre a memória do Ano Novo partilhado, o luto ainda recente e as notícias de um mundo em tensão, nasce nela um vazio inquieto e novo. Ao chegar a Moscavide, sob um inverno duro e um Natal já fora de tempo, na crônica ela nos revela o início de uma insatisfação que pede mais do que observação. Um texto íntimo sobre quando a lucidez deixa de bastar e a vida começa a exigir resposta.

Um mundo que se tornou pequeno-uma crônica de Silvie Armand

Entrei no comboio ainda tomada pela exuberância da estação do Porto. Os azulejos, as vozes, o vai e vem dos corpos davam à partida uma solenidade discreta, como se cada viagem exigisse respeito. Sentei me junto à janela. Gosto desse lugar onde o mundo passa sem pedir licença.

Na memória ainda estavam vivos os dias do Ano Novo com Fernand, Maria José e os amigos que se juntaram naquela casa voltada para o Douro. As conversas longas, as brincadeiras despretensiosas, os projetos lançados com a leveza de quem acredita que o tempo se deixa organizar. Falamos de viagens, de mudanças possíveis, de futuros que pareciam caber em frases curtas. Ri, participei, senti me acolhida. E, no entanto, por baixo dessa alegria partilhada, algo já se insinuava em mim. Um descompasso silencioso. Como se aquelas palavras, embora sinceras, já não alcançassem o que eu procurava.

À medida que o comboio avançava, a paisagem tornava se um fluxo contínuo. Campos húmidos, casas dispersas, um céu de inverno sem promessas. O movimento embalava o pensamento. Primeiro veio o meu pai. Não a imagem dura do fim, mas uma saudade tranquila, quase dócil. Depois, algo mais fundo. Um vazio. Não um vazio de dor, mas de sentido. Como se o luto tivesse aberto um espaço maior do que eu previa, e agora me obrigasse a habitá lo. De repente meu mundo ficou pequeno!

O mundo real, muito maior,passava pela janela do pensamento. As notícias insistiam, mesmo quando eu tentava afastá las. A Venezuela em convulsão. O petróleo a reorganizar alianças. As nações capitalistas a redesenhar fronteiras invisíveis. A violência espalhada como método. Tudo parecia um filme acelerado, sem pausa, sem plano geral. E eu, ali sentada, sentia crescer uma insatisfação nova. Não apenas com o estado das coisas, mas comigo mesma.

Pela primeira vez, com uma clareza desconfortável, percebi que observar talvez já não fosse suficiente. Sempre acreditei na escuta, na escrita, na atenção ao detalhe. Mas algo começava a pedir outra coisa. Ainda vaga, ainda pequena. Uma ação mais concreta. Uma micropolítica do gesto, do corpo, da presença. Não sabia como, nem onde. Apenas sabia que a distância começava a pesar.

Quando Lisboa se anunciou, o comboio já levava consigo esse incómodo. A cidade recebeu me com um ar de fim de festa. As ruas ainda guardavam restos de Natal. Luzes cansadas. Enfeites esquecidos. Uma alegria fora de tempo. O frio apertava. Pessoas dormiam nas entradas dos prédios, embrulhadas em cobertores gastos. Os imigrantes tornavam se mais visíveis. Não por excesso, mas por abandono. Havia violência contida nos olhares. Um medo baixo, constante, que não se diz.

Desci ao metro, segui até Moscavide. O bairro acolheu me como sempre. Familiar. Imperfeito. Vivo. Caminhei devagar, sentindo que algo em mim tinha mudado, ainda sem forma. Lembrei me então de um verso de Carlos Drummond de Andrade que atravessou o pensamento como um aviso manso: “o último dia do ano não é o último dia do tempo”. Talvez seja isso. O mundo não acaba. Mas cobra. E a vida, quando já não se contenta em apenas ver passar, começa a pedir resposta.

Lisboa, janeiro de 2026

Silvie Armand

Silvie Armand é poeta, ensaísta e cronista, transita entre jornalismo cultural e escrita experimental, unindo crítica e criação.
Atualmente vive em Lisboa e é correspondente do Blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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