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Feminicídio no Brasil: o que está por trás dos números recordes?-Arlindenor Pedro

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Neste ensaio, Arlindenor Pedro parte de uma vivência pessoal em uma delegacia para refletir sobre os alarmantes números de feminicídio no Brasil, onde quatro mulheres são assassinadas por dia. O autor articula dados recentes com uma análise crítica fundamentada nas teorias de Leni Wissen, Robert Kurz e Roswitha Scholz, para mostrar que a violência contra mulheres não é exceção, mas expressão estrutural de uma sociedade em colapso. Ao conectar o avanço do protagonismo feminino na economia à crise da masculinidade e do modelo patriarcal, o texto denuncia o feminicídio como sintoma de uma forma social que implode sob suas próprias contradições. É um convite à escuta — e à transformação.

Feminicídio no Brasil: o que está por trás dos números recordes?-um ensaio de Arlindenor Pedro

Tendo que resolver uma questão administrativa, precisei passar algumas horas nas dependências de um distrito policial em um município do Estado do Rio de Janeiro. Durante o tempo em que estive ali, algo me chamou profundamente a atenção: o fluxo constante de mulheres entrando na delegacia para registrar denúncias. Eram, em sua maioria, jovens, muitas visivelmente abaladas, relatando violências cometidas por seus companheiros, namorados, ex-parceiros. Era um desfile silencioso de dor — e de coragem também. Todas apelavam para a Lei Maria da Penha e, por ela, eram acolhidas naquele espaço policial.

Dias depois, me deparei com a publicação de uma pesquisa do Ministério da Justiça, que apontava um dado estarrecedor: quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil vítimas de feminicídio. A leitura desse dado me transportou imediatamente à cena que presenciei na delegacia. Naquele momento, entendi com mais nitidez: a violência contra mulheres não é exceção; é estrutura. Esses números não são meros acidentes estatísticos. Eles não apontam para uma “onda de violência” momentânea. Eles revelam algo muito mais profundo: a falência da forma social que organiza nossas relações, nossos afetos e nossas subjetividades. Um fato que precisa ser analisado com maior profundidade, e fora dos clichês moralistas a que a mídia nos submete.

A partir dessa experiência concreta, comecei a me perguntar: o que esse número revela, de fato? Que tipo de sociedade permite que mulheres sejam assassinadas todos os dias apenas por serem mulheres? E, mais que isso: por que esse número segue crescendo? É essa reflexão que quero dividir com você, leitor.

A realidade dos números que se acumulam

Os dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) confirmam uma tendência brutal. Em 2025, o país alcançou a marca recorde de 1.470 feminicídios, a maior desde que a lei passou a registrá-los. Foram 1.459 casos em 2024, 1.449 em 2023, 1.451 em 2022. A média de quatro mulheres mortas por dia se mantém com uma constância que grita.

Além disso, o Mapa Nacional da Violência de Gênero mostra que, só no primeiro semestre de 2025, já haviam sido registrados 718 feminicídios e 34 mil casos de estupro. Não é difícil imaginar o perfil predominante dessas vítimas: mulheres jovens, negras e periféricas, aquelas que vivem onde o Estado raramente chega com proteção,mas sempre aparece com repressão.

Quando o sujeito masculino entra em colapso

A filósofa Leni Wissen, em um texto marcante publicado em 2025, propõe uma leitura instigante da violência masculina como sintoma da crise do sujeito moderno. Segundo ela, o homem foi educado para ser autônomo, forte, invulnerável. Sua identidade foi construída em oposição à dependência, à fragilidade :ou seja, ao feminino. Mas à medida que a realidade concreta desmorona sob o peso da crise social, econômica e afetiva, esse sujeito entra em colapso.

E o que acontece quando alguém formado para exercer controle absoluto percebe que perdeu o controle de tudo? Wissen responde: ele entra em desespero. E o desespero, muitas vezes, vira violência. A mulher se torna o alvo simbólico. Ela representa tudo aquilo que o homem foi ensinado a reprimir em si mesmo, e que agora odeia ver refletido no outro. O feminicídio, nesse quadro, aparece como uma afirmação perversa de potência numa vida marcada pela impotência real.

O agravante brasileiro: crise estrutural em uma periferia do capital

Essa leitura, já perturbadora em si, se torna ainda mais devastadora quando aplicada ao Brasil. Aqui, o capitalismo:um capitalismo retardatário e periférico,nunca cumpriu suas promessas de inclusão, cidadania ou estabilidade. Como destaca o teórico alemão Robert Kurz: vivemos sob uma modernização negativa, que destrói sem construir, precariza sem reorganizar.

Num país marcado por desigualdade estrutural, racismo sistêmico e colapso das redes de proteção social, a crise do sujeito masculino assume contornos explosivos. A masculinidade tradicional não desaparece:ela se transforma em ressentimento, raiva, agressividade difusa. E o corpo da mulher se torna o campo de batalha dessa frustração.

A dissociação entre produção e reprodução: a chave de Roswitha Scholz

A filósofa Roswitha Scholz oferece,neste caso, outra chave analítica decisiva. Segundo ela, o capitalismo se estrutura a partir de uma dissociação entre o valor (associado ao masculino, à produção) e a reprodução (associada ao feminino, ao cuidado, ao corpo). Essa cisão foi naturalizada pela modernidade patriarcal e se torna ainda mais violenta em tempos de colapso.

No Brasil, essa dissociação se traduz em abandono. O feminino dissociado é descartável, violável, disponível. E quando se recusa a cumprir esse papel: quando rompe com a obediência, quando tenta sair de uma relação abusiva, vira alvo da violência letal. O feminicídio é, muitas vezes, a punição final por uma tentativa de liberdade.

Mulheres na linha de frente do sustento familiar — e da crise social

Enquanto a violência cresce, uma transformação silenciosa também acontece: as mulheres estão se tornando o pilar econômico de muitas famílias. Dados recentes indicam que mais da metade dos lares brasileiros é chefiada por mulheres, e que grande parte dessas chefias ocorre sem a presença de um parceiro homem.

Essa mudança se deve à maior participação feminina no mercado de trabalho:mas também à crise prolongada do emprego formal, à queda da renda masculina e à substituição de funções patriarcais tradicionais por estratégias de sobrevivência feminina. O paradoxo é cruel: as mulheres acumulam sobre si o peso do cuidado, do sustento e ainda se tornam vítimas da violência daqueles que não suportam sua autonomia crescente.

Segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (RASEAM 2025), as mulheres chefes de família são maioria entre os mais pobres, enfrentam os maiores índices de informalidade e recebem, em média, cerca de 22% menos que os homens. Mesmo assim, sustentam seus lares,muitas vezes sozinhas.

Esse deslocamento econômico não foi acompanhado por uma reconfiguração simbólica das relações de poder. O homem perde o “lugar de provedor”, mas não perde o privilégio social da dominação. E quando se sente ameaçado em seu poder, a resposta pode ser violenta: e fatal.

O que essas mortes estão dizendo

Cada feminicídio é mais do que um crime: é um sinal de alerta de uma sociedade em ruínas. O silêncio diante desses assassinatos é ensurdecedor, e em certa medida, cúmplice.

Não se trata apenas de “educar para o respeito”, nem de criar leis mais rígidas (a Lei Maria da Penha já é avançada). Trata-se de questionar radicalmente o modelo de masculinidade que o capitalismo produziu : e que agora implodiu. Trata-se de repensar o que significa ser homem, ser mulher, ser sujeito num mundo onde os vínculos sociais, afetivos e econômicos estão sendo corroídos.

A cada dia, quatro mulheres são assassinadas no Brasil por seus companheiros ou ex-companheiros.

Elas morrem por existirem.

E nós, o que estamos dispostos a fazer com essa verdade?

Serra da Mantiqueira, janeiro de 2026

Arlindenor Pedro

contato@utopiasposcapitalistas.com

Arlindenor Pedro é ex-preso político e anistiado. É também professor de história, filosofia e sociologia, além de editor do Blogue: Utopias Pós-Capitalistas — Ensaios e Textos Libertários.

Bibliografia de Apoio

Fontes Oficiais e Estatísticas

BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (SINESP). Dados sobre feminicídios no Brasil – 2022 a 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mj. Acesso em: jan. 2026. Attachment.pngBRASIL. Ministério das Mulheres. Relatório Anual Socioeconômico da Mulher – RASEAM 2025. Brasília: Ministério das Mulheres, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mulheres. Acesso em: jan. 2026. Attachment.pngFÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública – 2025. São Paulo: FBSP, 2025. Disponível em: https://forumseguranca.org.br. Acesso em: jan. 2026.

REFERÊNCIAS TEÓRICAS E ANALÍTICAS

KURZ, Robert. O colapso da modernização: da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia mundial. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. SCHOLZ, Roswitha. O sexo do capitalismo: teses sobre patriarcado, valor e forma-sujeito. In: JAPPE, Anselm; SCHOLZ, Roswitha; KURZ, Robert. A sociedade autofágica: capital, trabalho e crítica do valor. São Paulo: Hedra, 2018. WISSEN, Leni. Propensão masculina para a violência e o amoque no contexto do agravamento da dinâmica da crise capitalista. Utopias Pós-Capitalistas, 07 ago. 2025. Disponível em: https://utopiasposcapitalistas.com/2025/08/07/propensao-masculina-para-a-violencia-e-o-amoque-no-contexto-do-agravamento-da-dinamica-da-crise-capitalista-leni-wissen/. Acesso em: jan. 2026.

OUTROS ESTUDOS E DADOS SOCIOECONÔMICOS

FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS (FGV). Mais da metade dos lares brasileiros é chefiada por mulheres. Instituto Brasileiro de Economia (IBRE-FGV), 2025. Disponível em: https://ibre.fgv.br. Acesso em: jan. 2026. DIEESE. Boletim especial – Mulheres e mercado de trabalho em 2025. São Paulo: DIEESE, mar. 2025. Disponível em: https://www.dieese.org.br. Acesso em: jan. 2026.

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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