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Diretamente da Zona Autônoma da Maré Livre, interceptamos mais uma transmissão pirata de Nóia Zero.Neste novo comunicado, ele relata como o Brasil se fragmentou após a guerra civil, como surgiu a ZAML e como se vive hoje nas margens do mundo controlado pelas grandes potências e pelas big techs.Entre colapso nuclear, esterilidade humana, mutações e vigilância, emerge uma experiência radical de vida coletiva, educação autônoma e partilha da energia.Relatos da Zona Morta não é apenas ficção: é um espelho distorcido — e inquietantemente próximo — do nosso presente.
Nós não colapsamos. Nós estamos criando o novo!
Nóia Zero

À Margem- uma nova mensagem do Nóia Zero
Olá, galera, cá estou novamente para continuar o meu relato. O relato dos sobreviventes, que vivem à margem da civilização, após o grande colapso da sociedade da mercadoria que moldou um mundo distópico controlado pelas grandes potências: os dois EUA, a Grande Rússia, o Império Chinês, e as áreas controladas pelas grandes big techs.
Para vocês entenderem: depois da nossa guerra civil, o Brasil deixou de ser país, tá ligado? Pelo menos como o que assim conhecíamos. Na verdade, o que restou foi uma colcha de retalhos, costurada com arame farpado e silêncio.
Seis grandes blocos se ergueram sobre os biomas brasileiros — pedaços instáveis de administração, comércio armado e neo tecnocracia. O Sudeste, a região onde vivemos, virou uma zona de controle fiscal e vigilância descentralizada. O governo ali não governa: gerencia passivos.
Pós é: como eu disse no meu primeiro comunicado, vivemos em uma área que chamamos, e assim é reconhecida, como Zona Autônoma da Maré Livre. Ela se estende pelas margens da Baía da Guanabara, da região que antes era conhecida como complexo da maré até a Baixada Fluminense, na grande área do Brasil Sudeste.
Foi nessa rachadura que a ZAML nasceu:Zona Autônoma da Maré Livre.
Deixaram que ficássemos — com uma condição:Todo mês de janeiro, pagamos o chamado Tributo de Manutenção do Estado, criado originalmente pelo Império Sionista de Israel na Palestina e mais tarde copiado por todos os sistemas de contenção dos povos no mundo.
Topamos, é melhor assim: sobreviver e criar um novo modelo de vida é a nossa missão. É o imposto da exclusão. O valor que pagamos para sermos deixados em paz.
Não fomos fundados. Fomos deixados para trás — e ali, criamos vida Não tínhamos mais valor econômico. Não éramos nada. Nem para trabalhar servíamos, pois os postos de trabalho foram substituídos por robôs, por IAs. Sem valor econômico, não tínhamos cidadania e não podíamos viver nas grandes cúpulas de vidro, de ar puro, onde as cidades estavam encapsuladas.

Lá fora, o mundo também quebrou.Não por completo, mas o suficiente para nunca mais voltar a ser o mesmo.
Depois da guerra nuclear religiosa, entre Índia e Paquistão, o planeta ficou com receio de si. As grandes potências — EUA, Democratas, EUA, MAGA, China, Rússia — chegaram a um acordo não formalizado, mas que virou rotina: bombas nucleares estratégicas estão banidas. Apenas as táticas são permitidas. A guerra se miniaturizou. Mas o efeito se espalhou por todos os continentes.Se algum país ou comunidade não cumprisse as regras as grandes potências, que competiam entre si, se aliavam e em conjunto eliminavam do planeta o corpo rebelde. Era a lei dos mais fortes !
O ar ficou denso. A água é ácida. A radiação não era visível, mas estava em toda parte — e cobrou caro. As florestas começaram a calar.
Os animais sumiram e cada vez são mais raros. O mar se tornou perigoso para a humanidade, habitado por seres que vieram do fundo para a superfície, ocupando o espaço marinho das espécies que foram extintas pela radiação e o aumento da temperatura das águas. Nós também mudamos.
A praga da esterilidade se espalhou entre os seres humanos. Fruto da radiação disseminada. Homens e mulheres deixaram de gerar, e o nascimento natural virou uma raridade. Só em vitro, em laboratórios — e é muito caro! As clínicas privadas viraram zonas de desespero genético. As mulheres que ainda são férteis são caçadas como escravas e barrigas de aluguel. O pânico está instalado! A humanidade está diminuindo no planeta: seja como fruto das guerras, seja pela diminuição da taxa de natalidade.
Aqui, no nosso refúgio, cada nascimento é coletivo. Protegemos as mulheres e as crianças das investidas dos caçadores de escravas. O cuidado começa antes da gestação e continua muito depois. É um cuidado coletivo! As crianças são criadas por círculos — não por núcleos. E cada uma delas carrega um pouco da aposta que fizemos: de que a vida vale, mesmo quando o valor não vale mais nada.
É importante narrar para vocês de onde vem a energia que consumimos, tá ligado? O fato é que, depois do colapso, um grupo encontrou o casco de um submarino soviético soterrado aqui nas margens da Baía. E dentro dele: um reator compacto. Estável. Silenciado há décadas.
É claro que nós o reativamos: com cuidado, com estudo, com o saber técnico e a intuição coletiva! Hoje, o reator Antares-02 alimenta boa parte da ZAML. Ninguém é dono dele. Ele pertence à coletividade e nos dá boas condições de vida. A energia aqui é compartilhada. Como tudo o que importa.
A base da nossa existência são as nossas crianças e é sobre elas e a nossa rede de educação que quero falar mais com vocês. Nosso estilo de vida não é retorno ao passado. Não somos tribos. Nem utopia.Somos o que sobrou e se negou a repetir.

Nosso sistema de educação nasceu olhando para o Zapatista do antigo México. Chamamos nossas escolas de Caracóis.Não há séries, nem provas, nem diplomas.Há ciclos, há trocas, há rituais de aprendizado.
Crianças aprendem a desmontar placas solares e a ler o céu.
Jovens discutem história crítica e agricultura regenerativa.Velhos contam. Todos escutam.
Pois é: A ZAML não está isolada.Temos redes com outras zonas livres, em todos os continentes. São como pontos de luz no meio da escuridão da barbarie.Estamos em contato com os Caracóis do Chiapas, com comunidades nas ex-estepes do Cáucaso, com desertores das big techs refugiados no Sahel.
Nos falamos por ondas curtas, pela internet conectadas a satélites piratas:satélites reciclados e sinais codificados.Fazemos parte de uma constelação invisível. A última rede que ainda pulsa — sem centro, sem mercado, sem Estado.
Mas isto é uma conversa para o nosso próximo comunicado. Em breve, falo com vocês, tá ligado?
Até a próxima!
Noia Zero, janeiro de 2056.
Zona Autônoma da Maré Livre-ZAML

Transmissão pirata interceptada pelo canal Utopias Pós-Capitalistas / Codificação: ZAML/2056/NZ-002
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