Ouça aqui o áudio do nosso Post
Receba regularmente nossas publicações e assista nossos vídeos assinando com seu e-mail em utopiasposcapitalistas.Não esqueça de confirmar a assinatura na sua caixa de mensagens
Nesta resenha, o sociólogo Paulo Baía propõe uma leitura densa e provocadora de “Tão longe, tão perto”, de Verônica Toste Daflon, situando a obra no coração da tradição crítica da sociologia brasileira. Ao articular raça, silêncio e desigualdade, o texto revela como o racismo no Brasil opera menos pelo escândalo e mais pela naturalização cotidiana. Com rigor teórico e sensibilidade histórica, a análise mostra que a morenidade não dissolve hierarquias, mas reorganiza o conflito racial em chave ambígua. Trata-se de uma reflexão incisiva sobre como o Brasil administra suas desigualdades à luz do dia — e pelo silêncio.


Entre a cor e o silêncio-Crônica sociológica sobre o Brasil que se esconde à luz do dia-uma resenha de Paulo Baía
Há livros que chegam como se sempre tivessem estado ali, aguardando apenas o momento histórico de serem lidos. Não fazem barulho, não disputam manchetes, não se anunciam como ruptura, mas carregam consigo uma força discreta e devastadora. Quando terminam, não é o livro que se encerra. É o leitor que já não é o mesmo. Tão longe, tão perto: identidades, discriminação e estereótipos de pretos e pardos no Brasil, de Verônica Toste Daflon, pertence a essa linhagem rara da inteligência brasileira. Um livro que não se satisfaz em denunciar. Ele prefere compreender. E, ao compreender, desestabiliza com mais potência do que qualquer acusação ruidosa.
A sociologia brasileira nasceu marcada pela urgência de explicar a desigualdade. Desde seus primeiros passos, soube que o tema racial não era um capítulo lateral da história nacional, mas o seu eixo estruturante. Não se tratava apenas de fenótipo, mas de ordem social, de poder, de longa duração histórica, de violência organizada e legitimada. Florestan Fernandes foi quem formulou esse diagnóstico com maior contundência. Ao observar o Brasil que se urbanizava e se industrializava, percebeu que a abolição não havia integrado o negro à cidadania plena. Havia apenas deslocado a exclusão para novas formas. A raça, em sua análise, aparecia como obstáculo material à igualdade, como herança ativa da escravidão. Era preciso nomear o conflito. Era preciso romper o pacto do silêncio.
Esse gesto fundador abriu caminho para leituras ainda mais duras e empiricamente sofisticadas. Carlos Hasenbalg demonstrou que a desigualdade racial não era um resíduo do passado escravista, mas um mecanismo vivo do presente. O racismo não sobrevivia por inércia histórica. Ele se reproduzia como engrenagem. Articulava-se ao mercado de trabalho, à escola, ao acesso diferenciado a oportunidades. Mais tarde, Antonio Sergio Alfredo Guimarães deslocou definitivamente o debate ao afirmar que raça não é essência, mas construção social dotada de efeitos reais. Não havia biologia. Havia classificação. Havia linguagem. Havia poder. A cor não explicava o racismo. O racismo explicava a cor.
É nesse terreno denso, já amplamente cultivado pela tradição crítica brasileira, que Verônica Toste Daflon decide caminhar. Mas ela o faz com um gesto raro. Não abandona o legado. Tampouco o repete mecanicamente. Seu livro nasce de uma inquietação teórica genuína. Algo permanecia mal resolvido. Os dados insistiam em mostrar uma proximidade quase absoluta entre pretos e pardos nos indicadores sociais mais duros. Renda, escolaridade, vulnerabilidade, exposição à violência. Ainda assim, quando se perguntava sobre discriminação, as respostas divergiam. Pardos relatavam menos. Reconheciam menos. Nomeavam menos. O problema não era estatístico. Era sociológico. Era simbólico. Era político.
A resposta fácil seria concluir que pardos sofrem menos racismo. O livro rejeita essa conclusão com firmeza analítica. O que ele demonstra, com elegância metodológica e sensibilidade teórica, é algo muito mais inquietante. O racismo incide de modo semelhante. O que muda é a forma como ele é percebido, reconhecido e narrado. Não se trata de ausência de violência simbólica. Trata-se de uma pedagogia social do silêncio. Uma aprendizagem histórica que ensina certos sujeitos a suportar a discriminação sem nomeá-la como tal. A morenidade surge, então, como categoria central. Não como identidade escolhida livremente, mas como gramática social produzida ao longo de séculos.
É nesse ponto que o diálogo com Darcy Ribeiro se impõe. Darcy celebrou a mestiçagem como força criadora, como promessa civilizatória, como virtude histórica de um povo que soube fundir mundos. Sua obra foi decisiva para romper leituras racistas e biologizantes do Brasil. Mas Tão longe, tão perto revela o avesso dessa narrativa. A mestiçagem não dissolveu hierarquias. Reorganizou-as. Produziu zonas cinzentas, ambíguas, onde o racismo não desaparece, mas se dissimula. A morenidade, longe de ser síntese harmoniosa, funciona como espaço de negociação desigual. Um lugar onde se vive o racismo sem que ele se apresente como racismo. Onde a dor existe, mas carece de linguagem pública para ser reconhecida.
Esse deslocamento é decisivo porque impede tanto o romantismo quanto o moralismo. Daflon não acusa os pardos de alienação, nem os transforma em vítimas passivas de um sistema onipotente. Ela os compreende como sujeitos sociais atravessados por estruturas simbólicas densas e persistentes. A dificuldade de reconhecer o racismo não é falha moral. É efeito social. É resultado de um regime simbólico que valoriza a ambiguidade racial e pune a afirmação explícita da negritude. Nesse sentido, o livro oferece uma das análises mais refinadas já produzidas sobre o funcionamento cotidiano do racismo no Brasil.
A comparação com Alberto Carlos Almeida ajuda a iluminar ainda mais essa originalidade. Em parte do debate público, a baixa percepção do racismo aparece como evidência de sua menor centralidade social. O livro desmonta essa inferência. A ausência de reconhecimento não prova inexistência. Revela naturalização. O racismo brasileiro não precisa ser escandaloso para ser eficaz. Ele opera no detalhe, no gesto, no olhar, na suspeita, na repetição silenciosa das pequenas exclusões. Ele se infiltra na normalidade.
Essa leitura ganha densidade histórica quando colocada em diálogo com Manolo Florentino. Ao demonstrar que a escravidão no Brasil foi um sistema racional, organizado, lucrativo e sustentado por escolhas políticas conscientes, Florentino nos obrigou a abandonar qualquer leitura acidental do passado. A escravidão foi projeto. Foi estrutura. Foi linguagem social. Tão longe, tão perto sugere que a ambiguidade racial contemporânea é herdeira direta desse legado. A escravidão não produziu apenas desigualdade material. Produziu uma gramática da cor, graduada, relacional, estrategicamente opaca.
O livro também se destaca por sua sofisticação metodológica. Ao ir além das perguntas diretas sobre discriminação e incorporar medidas de experiências cotidianas de desrespeito, Daflon revela um racismo que não se manifesta apenas como evento isolado, mas como ambiente social. Um racismo que cansa, que desgasta, que se acumula. Um racismo que não precisa se declarar para existir. Essa escolha metodológica é também uma escolha política. Ela recusa a ideia de que só existe racismo quando há confissão explícita. Afirma que a violência simbólica pode operar plenamente no silêncio.
Há, nesse livro, uma crítica elegante à ansiedade classificatória que atravessa o debate contemporâneo. Ao mostrar que raça é relação, e não atributo fixo, Daflon restitui complexidade ao tema sem diluir o conflito. O pardo não é categoria residual. É figura central para compreender o modo como o Brasil administra suas desigualdades raciais. Ignorá-lo empobrece a análise. Colocá-lo no centro ilumina a engrenagem.
Tão longe, tão perto é, portanto, um livro urgente. Urgente porque recusa atalhos morais. Urgente porque desloca consensos. Urgente porque exige do leitor uma revisão de certezas confortáveis. Sua beleza reside exatamente aí. Na capacidade de pensar contra si mesmo. Na coragem de sustentar a dúvida como método. Na elegância de quem sabe que a crítica mais radical é aquela que não precisa gritar.
Num país que insiste em se narrar como cordial, mestiço e reconciliado, este livro lembra que a desigualdade também se constrói pelo silêncio. E que romper esse silêncio exige algo raro. Inteligência sociológica. Rigor histórico. Sensibilidade antropológica. E uma escrita capaz de iluminar sem simplificar. Verônica Toste Daflon entrega tudo isso. Seu livro não apenas merece ser lido. Ele precisa ser lido. Com atenção, com urgência, com a disposição de quem sabe que, depois dele, o Brasil se torna mais difícil de explicar. E exatamente por isso, mais verdadeiro.
Rio de Janeiro,janeiro de 2026
Paulo Baía

Paulo Baía é Sociologo,cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

Entre a cor e o valor: a ambiguidade racial sob a lógica da dissociação
A leitura da resenha de Paulo Baía sobre o livro “Tão longe, tão perto”, de Verônica Toste Daflon, convida à reflexão sobre o racismo estrutural no Brasil com densidade e sensibilidade. Reconhecemos a relevância do texto ao reinscrever a questão racial no centro da tradição crítica brasileira, retomando a linhagem de Florestan Fernandes, Hasenbalg e Guimarães. O livro comentado revela como o silêncio — e não o grito — estrutura as formas cotidianas do racismo, sobretudo entre os sujeitos identificados como “pardos”. Trata-se de uma contribuição valiosa e necessária.Mas, devido a relevância do tema não poderíamos nos furtar em emitir aqui nossa opinião.
Entendemos que , à luz da crítica do valor-dissociação, é possível complexificar ainda mais esse diagnóstico. A forma como o racismo opera na sociedade brasileira não é apenas expressão de um descompasso cultural ou simbólico, mas está imbricada na própria lógica da sociabilidade capitalista. O capitalismo não racializa apenas por contingência histórica, mas porque precisa da racialização e da dissociação para funcionar enquanto forma social.
A crítica do valor, como proposta por autores como Robert Kurz, Anselm Jappe e, sobretudo, Roswitha Scholz, autores que balizam muitas das nossas opiniões aqui, desloca o foco da crítica para o núcleo da forma-mercadoria e sua mediação abstrata. O que se apresenta como desigualdade racial ou ambiguidade de identidade é, em última instância, efeito da lógica do valor, que universaliza o trabalho abstrato como critério de pertencimento social e, ao mesmo tempo, dissocia tudo aquilo que não pode ser totalmente traduzido por essa equivalência: o cuidado, o corpo, a natureza: e, aqui, a morenidade ambígua, não plenamente reconhecida nem plenamente excluída.
O “pardo” torna-se então uma figura simbólica dessa dissociação: tolerado, desde que não afirme sua negritude. Reconhecido, desde que se silencie. Tal como a mulher na modernidade capitalista,necessária para a reprodução, mas secundarizada na política e no valor, o sujeito racialmente ambíguo ocupa um lugar de “funcional invisibilidade”.
Neste sentido, o silêncio não é apenas pedagógico ou histórico. Ele é funcional à sociabilidade capitalista, que precisa ocultar as violências que sustentam sua aparente normalidade. O Brasil cordial, mestiço, plural, é também o Brasil da violência sem nome, da hierarquia sem linguagem, da exclusão sem culpado. A ambiguidade racial, longe de ser uma falha moral, é um produto da forma social dissociada.
A resenha de Paulo Baía acerta ao denunciar a “pedagogia social do silêncio”,reconhecemos.O que acrescentamos é que este silêncio não é apenas cultural ou psicológico: ele é econômico, estrutural, imanente ao valor. Não basta, portanto, reconhecer a identidade parda ou negra como forma de superação. É preciso confrontar a própria forma social que faz do reconhecimento uma mercadoria e da identidade uma moeda. No texto Baía preserva a esperança no reconhecimento, quando talvez devêssemos desejar a abolição da forma social que exige esse tipo de reconhecimento seletivo.
O desafio está em imaginar não apenas um Brasil onde pretos, pardos e indígenas sejam plenamente reconhecidos, mas um Brasil onde o valor deixe de ser o princípio organizador da vida social. Onde a dissociação entre humano e valor, entre reconhecimento e mercado, entre corpo e abstração, possa enfim ser superada.
Talvez isso esteja longe. Mas está perto o suficiente para começar a ser pensado.
Pensar o impossível é o primeiro passo para torná-lo necessário.
Utopias Pós-Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários
![]()