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O tempo em que nada decide — uma crônica de Silvie Armand

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 9 leitura mínima

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Nesta crônica, Silvie Armand escreve a partir do esgotamento — pessoal e histórico — para refletir sobre um tempo em que a política já não decide e a democracia parece ter perdido o chão. Entre o cansaço do trabalho jornalístico, o inverno lisboeta e a vida modesta de Moscavide, ela observa o vazio das eleições, o deslocamento do poder e a sensação íntima de não pertencimento. Um texto sobre melancolia, lucidez e a necessidade urgente de reaprender a escutar o que ainda resiste quando tudo parece apenas funcionar.

O tempo em que nada decide — uma crônica de Silvie Armand

Voltei da Dinamarca com o corpo cansado e a cabeça ainda mais pesada. Foram dias de entrevistas rápidas, cafés frios, respostas contidas. Pessoas comuns tentando nomear um desconforto que ainda não sabe falar alto. Em Copenhaga, ouvi mais silêncios do que frases. O medo de um conflito com os Estados Unidos parecia absurdo demais para ser tratado como hipótese real e, justamente por isso, infiltrava-se nas conversas como uma sombra. Ninguém queria acreditar, mas ninguém ousava descartar.

Meu editor em Nova Iorque não me dá descanso. Pede mais vozes, mais impressões, mais mapas emocionais da Europa sob a nova política de Trump. Quer entender os humores, como se o continente fosse um corpo febril a ser medido. Trabalho até tarde organizando entrevistas, cruzando dados, tentando traduzir inquietações que não se deixam capturar facilmente. Há dias em que escrever parece menos um gesto criativo e mais uma tarefa de catalogação do mal-estar.

Hoje, sentada numa pastelaria de Moscavide, sinto finalmente o peso disso tudo. O inverno lá fora é cinzento e disciplinado. As pessoas entram e saem apressadas, pedem cafés curtos, não ficam. O bairro mantém sua rotina modesta, quase alheia às tensões que atravessam os jornais internacionais. Ainda assim, sei que o mundo chega aqui, mesmo diluído. Ele chega nos preços, nos olhares, na conversa interrompida.

Penso também em Portugal, que acaba de atravessar o primeiro turno das eleições. A campanha para o segundo turno ocupa o espaço público, mas me soa estranhamente vazia. Como estrangeira, observo com atenção e distância. O país parece encurralado entre uma extrema direita que cresce explorando o medo e velhos socialistas que repetem fórmulas gastas. Não escuto propostas reais para a crise estrutural que se impõe: a precarização, a dependência, a ausência de horizonte. A política parece mover-se em círculos, como se já não tivesse acesso às causas profundas do colapso que administra.

Talvez o que mais me inquiete seja perceber que a política já não decide. Ela apenas reage. Não governa processos, administra consequências. Fala-se muito, decide-se pouco, quase sempre dentro de limites já impostos por forças que não passam pelo debate público. A política tornou-se uma instância secundária, encarregada de legitimar aquilo que já aconteceu noutro lugar. O poder real parece ter migrado para esferas anónimas, automáticas, que ninguém elege, mas todos obedecem.

Nesse sentido, as campanhas eleitorais soam como teatro. Palavras cuidadosamente ensaiadas, promessas sabidamente irrealizáveis, marketing emocional substituindo projeto. A política sobrevive como forma, mas perdeu o conteúdo. Continua a convocar cidadãos, mas já não lhes oferece escolha substantiva. Não se discute o rumo da sociedade, apenas a melhor forma de administrar a sua própria impossibilidade.

Há algo de profundamente desolador nessa constatação. A democracia permanece, mas esvaziada, reduzida a ritual de legitimação. Governa-se a aparência enquanto a lógica que organiza a vida material segue intocada. A política fala, mas não toca. Promete, mas não transforma. Talvez seja por isso que o desencanto cresce, alimentando tanto a apatia quanto a fúria.

Percebo isso com o corpo antes de perceber com o pensamento.

O café esfria diante de mim. Penso no meu pai. Na ausência que ainda não aprendi a organizar. A morte não se impôs como choque, mas como erosão contínua. Ele não está mais ali para ouvir minhas dúvidas, para relativizar meus dramas, para me lembrar de que o mundo sempre foi difícil. Às vezes sinto que essa falta amplia tudo: o cansaço, a insatisfação, a sensação de estar girando em falso.

Pergunto-me, com uma nitidez incômoda, se este trabalho ainda me basta. Não por falta de compromisso, mas por saturação. Escrever sobre crises alheias, recolher inquietações, organizar o medo dos outros — tudo isso começa a atravessar-me de um modo mais íntimo. Há uma distância necessária ao ofício que sinto estar a diminuir perigosamente.

Talvez seja isso que me inquieta de verdade: a sensação de que descrevo um mundo cuja engrenagem já não pode ser corrigida pela política tal como a conhecemos. Pesquisa, entrevistas, pedidos do jornal, eleições vazias, inverno persistente, a ausência do meu pai — tudo se acumula como camadas de um mesmo silêncio estrutural.

Moscavide, com sua escala humana, tenta me ancorar. O bairro não oferece respostas, mas oferece presença. Ainda assim, sinto crescer uma melancolia que já não é apenas contemplativa. Ela carrega uma pergunta incômoda: o que fazer quando os instrumentos disponíveis já não correspondem à dimensão da crise?

Há um momento em que a crise deixa de ser apenas um diagnóstico e passa a ser um estado interior. Tenho vivido esse momento. Não como pânico, mas como desalinhamento. Tudo continua a funcionar à minha volta e, ainda assim, sinto que já não pertenço inteiramente ao que funciona. Em Moscavide, onde agora vivo, os dias seguem com uma regularidade modesta, quase cuidadosa. O bairro não exige nada de mim. Talvez por isso tenha se tornado o meu porto.

Às vezes me pergunto se partirei. Se Moscavide é apenas abrigo ou se poderá ser raiz. Ainda não sei. Por ora, fico. Fico porque este lugar modesto me permite escutar sem a pressão do centro. Fico porque não quero transformar o deslocamento em fuga. Fico para aprender a pensar com os pés no chão antes de decidir qualquer travessia.

Sinto que a crise que me atravessa é também um convite desconfortável. Não para salvar nada, mas para desaprender. Para aceitar que o centro já não é o lugar da resposta. Para admitir que talvez seja preciso reaprender a viver em comum, fora da obsessão pela produção e pelo desempenho.

Ainda não sei como fazer isso. Sei apenas que continuar a olhar apenas para o que colapsa já não me basta. Preciso aprender a escutar o que resiste — mesmo que venha de longe, mesmo que fale outra língua, mesmo que desafie tudo o que aprendi a chamar de progresso.

Pago a conta e me levanto. Lá fora, o frio continua. Caminho devagar, sabendo que esta crise não se resolve hoje. Mas também sabendo que ela não é passageira. Algo em mim pede deslocamento. Ainda não sei se será geográfico, político ou interior. Sei apenas que continuar assim, descrevendo a falência sem buscar outras formas de agir, começa a me parecer insuficiente.

Lisboa, inverno de 2026

Silvie Armand

Silvie Armand é poeta, ensaísta e cronista, transita entre jornalismo cultural e escrita experimental, unindo crítica e criação.
Atualmente vive em Lisboa e é correspondente do Blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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