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O que se tentou enterrar no deserto sírio — mas não morreu-Arlindenor Pedro

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Este ensaio de Arlindenor Pedro parte do cerco e da rendição das cidades curdas no norte da Síria para enfrentar um silêncio revelador da mídia dominante. Mais do que um episódio militar, o texto analisa o fim provisório de uma das experiências políticas mais ousadas do nosso tempo. O autor reconstrói o sentido histórico do Rojava como tentativa concreta de ruptura com o Estado, o capitalismo e o patriarcado. Em diálogo com outras experiências emancipatórias, como o zapatismo e a Revolução Espanhola, o ensaio insere a luta curda numa tradição subterrânea de negação da sociedade da mercadoria. Sem idealização nem resignação, afirma que a derrota não encerra a história. Em um mundo atravessado pela crise terminal do capitalismo, nada é estável. Resta estudar, aprender e preservar a memória viva das experiências que ousaram tentar.

O que se tentou enterrar no deserto sírio — mas não morreu-um ensaio de Arlindenor Pedro

Acompanhei e vi com inquietação crescente, o que se passou no início de 2026 no nordeste da Síria. Acontece que uma a uma, as cidades sob controle curdo foram se rendendo ao cerco metódico do governo central de Bashar al Assad. O que vimos foi uma rendição sem alarde, sem manchetes, sem indignação internacional. A grande imprensa, tão veloz em outros tempos para celebrar o heroísmo das combatentes curdas contra o Estado Islâmico, calou-se. Como se nada tivesse acontecido.

Mas eu sei, e faço questão de dizer a vocês leitores: o que ali tombou não foi apenas um território. Na verdade, foi uma das experiências mais ousadas de reinvenção social e política de nosso tempo. O que se se tenta enterrar sob o silêncio da mídia ocidental é um projeto que ousou dizer não ao Estado, ao capital e ao patriarcado. E ousou fazê-lo simultaneamente, com radicalidade e profundidade hoje,agora, na modernidade.

A verdade é que durante mais de uma década, o povo curdo construiu, no Rojava, algo que só posso chamar de insubmissão encarnada. Conselhos populares tomaram o lugar da soberania estatal. Milícias femininas protegeram aldeias e cidades. Cooperativas tentaram suplantar a lógica da mercadoria. Escolas formaram crianças em línguas negadas e em ideias emancipadoras. Influenciados pelo pensamento de Abdullah Öcalan e pela ecologia social de Murray Bookchin, os curdos organizaram uma estrutura política baseada no confederalismo democrático, onde o poder era partilhado, o território era comum e o patriarcado era confrontado desde a raiz. A crítica à dominação masculina não era um adendo superficial, mas uma das colunas mestras da nova ordem social que ali se tentava instituir.

Ali, a mulheres tinham o protagonismo central! Em meio ao fogo cruzado das potências imperiais, das milícias islamistas e da indiferença calculada do Ocidente liberal, o Rojava se ergueu como uma anomalia viva, como um campo de possibilidade real. Por isso, quando agora tentam apagar sua memória com a poeira do deserto, me recuso a aceitar. E repito a vocês: aquilo que ali floresceu, mesmo que por um tempo curto, não pode ser esquecido. A tentativa de enterrá-lo no esquecimento só mostra o quanto ele foi e continua sendo perigoso para a ordem estabelecida.

Quando olho para o Rojava, não o vejo isolado. Reconheço nele ecos de outras experiências históricas que me ensinaram a acreditar na possibilidade de mundos alternativos. Em 1994, os zapatistas em Chiapas desafiaram o neoliberalismo armado e criaram suas Juntas de Bom Governo. Em meio à selva mexicana, os indígenas maias estabeleceram autogoverno, educação autônoma, cooperativas comunitárias e uma proposta política centrada no “mandar obedecendo”. O mundo ouviu seu grito no primeiro dia do NAFTA e esse grito continua ecoando, mesmo abafado.

Vejo também a lembrança viva da Revolução Espanhola, quando operários e camponeses catalães e aragoneses socializaram fábricas e terras, instauraram conselhos e milícias populares, instauraram uma nova ordem coletiva por um breve mas inesquecível momento, até serem esmagados pelas forças fascistas com a conivência dos comunistas stalinistas.

Recordo também as comunas chinesas, surgidas durante o Grande Salto Adiante, onde milhões foram mobilizados em torno da ideia de superação da propriedade privada. Ainda que ali o impulso de emancipação tenha sido rapidamente absorvido e distorcido pelo poder central do Partido Comunista, houve um movimento popular que buscava caminhos outros.

Essas experiências, assim como o Rojava, se conectam por um fio subterrâneo que atravessa a história moderna. Elas não são repetição mecânica nem mito fundacional. São momentos em que a forma mercadoria, o Estado moderno e o patriarcado estrutural foram colocados sob tensão real. Nenhuma delas venceu. Todas foram, em alguma medida, derrotadas,é verdade. Mas, é dessas derrotas que nasce a memória ativa. Aos poucos vamos entendendo como realmente funciona este sistema abstrato de dominação que é o valor e a mercadoria, e vamos criando modelos que nos ajudarão a vencer a barbarie e moldar um outro tipo de sociedade. A sociedade dos seres humanos emancipados.

O Rojava se distingue pela clareza com que nomeou seus inimigos estruturais e pela forma com que organizou sua luta: um projeto que combinava democracia radical com autonomia local, produção cooperativa com crítica ao trabalho abstrato, combate patriarcal com protagonismo feminino real. Mulheres armadas não apenas para proteger aldeias, mas para comandar conselhos, legislar sobre seus corpos, forjar novas subjetividades. Essa imagem, a mais potente e insuportável para o olhar colonizado da modernidade, talvez explique o silêncio cúmplice que se seguiu à sua queda. Silêncio da mídia burguesa e da esquerda cooptada para o projetos da civilização liberal, que ora naufraga mundialmente.

Não tenho ilusões quanto ao pacto firmado entre os curdos e o regime sírio. Sei que ele foi amplamente desfavorável. Representou o esvaziamento institucional de uma experiência autônoma e a reintegração forçada a um aparato estatal autoritário e centralizador.Abandonada e isolada, a resistência curda teve que se render. Ou isto ou marchar para o massacre, o genocídio, de todo um povo, com a complacência da opinião pública mundial, envenenada pelas grandes potências capitalistas.Mas também sei que acordos feitos sob cerco e exaustão não definem o destino de um povo. O povo curdo está vivo. Viveu sua experiência, construiu saberes, acumulou práticas que está na memória de gerações, que nunca esquecerão.Essa experiência molda consciências e resiste. A memória de uma década de autogoverno e insurgência antipatriarcal não se dissolve com decretos.Não desaparece de uma hora para outra simplesmente!

Ora, não vivemos tempos de estabilidade!Ao contrário. Vivemos numa era em que o capitalismo global atravessa uma crise civilizatória de longo curso. Uma crise que não é apenas econômica, mas ecológica, social, subjetiva e simbólica. Vivemos a guerra de reordenamento mundial do capitalismo.Como placas tectônicas em fricção, as potências se rearranjam continuamente. Nenhum pacto é duradouro. Nenhum domínio é garantido. Por isso insisto que nenhuma rendição é final. Nenhuma derrota é absoluta. A história gira, às vezes em silêncio, às vezes em fúria. Onde estará o atual governo Sírio, daqui a alguns anos? Onde estará o governo autoritário da Turquia? Não sabemos. Tudo é frágil e se dissolve no ar!

Aprendi, com a crítica do valor, que o capitalismo não é só um sistema de produção. Ele é uma forma de vida total. Funda-se na abstração do trabalho, na circulação impessoal do dinheiro, na lógica do valor como critério de existência social. Ele esconde suas violências por trás das coisas, das mercadorias, das formas. E sustenta tudo isso sobre uma estrutura de dissociação patriarcal que relega o cuidado, o corpo, o emocional, o não quantificável, às mulheres e à sombra. Por isso, superar o capitalismo exige mais do que tomar fábricas ou controlar o Estado. Exige desarticular as formas sociais que nos constituem. E por isso considero o Rojava um momento de ruptura, ainda que parcial. Um laboratório vivo onde se tentou, em meio às ruínas da guerra, criar uma forma de vida outra. Estudar essa experiência não é nostalgia. É tarefa política. É responsabilidade histórica. Como diria Robert Kurz: longo e doloroso será o processo de colapso do capitalismo contemporâneo!

Recuso-me a deixar que o Rojava seja esquecido. Porque sei que novas explosões virão. Sei que a crise do capital abrirá novas fendas. Sei, também, que aquilo que parece enterrado pode germinar. Porque a história não é linear. E quando vier a rachadura, será preciso lembrar o que já foi tentado. Para não repetir erros. Para não temer o novo. Para que, da memória do Rojava, se possa extrair fermento. E não cinzas.

Serra da Mantiqueira, janeiro de 2026

Arlindenor Pedro

contato:utopiasposcapitalistas.com

Arlindenor Pedro é ex-preso político e anistiado. É também professor de história, filosofia e sociologia, além de editor do Blogue: Utopias Pós-Capitalistas — Ensaios e Textos Libertários.

Abdullah Öcalan é uma figura central na história política do povo curdo, na contemporaneidade.Nascido em 1949, na província de Şanlıurfa, no sudeste da Turquia ele é o fundador e principal teórico do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), organização criada em 1978, inicialmente com orientação marxista-leninista, que defendeu durante décadas a luta armada pela independência do Curdistão.

Durante os anos 1980 e 1990, o PKK conduziu uma guerra de guerrilha contra o Estado turco, e Öcalan tornou-se símbolo tanto da resistência curda quanto da demonização por parte do governo turco, que o acusa de terrorismo. Em 1999, após ser capturado no Quênia com apoio da CIA e do Mossad, foi extraditado para a Turquia, onde cumpre prisão perpétua em confinamento solitário na ilha-prisão de İmralı. Desde então, Öcalan abandonou a defesa de um Estado curdo independente e passou a propor uma nova estratégia baseada na autonomia democrática, no confederalismo não estatal, no ecologismo e no feminismo radical.

Influenciado pelas obras de Murray Bookchin, teórico da ecologia social e do municipalismo libertário, Öcalan reconstruiu sua teoria política em cativeiro. Passou a defender o que chamou de Confederalismo Democrático, um modelo de organização baseado em assembleias locais, democracia direta, igualdade de gênero e convivência entre diferentes grupos étnicos e religiosos. Essa mudança teórica foi decisiva para o que viria a ser implementado no Rojava, no norte da Síria, onde os curdos aplicaram, na prática, os princípios formulados por ele, especialmente após a retirada do regime de Assad da região em 2012.

Öcalan hoje é considerado por muitos curdos uma espécie de intelectual-místico e figura fundacional de um novo paradigma político, muito além da luta nacionalista. Ao mesmo tempo, continua listado como terrorista por Estados como Turquia, Estados Unidos e União Europeia — uma contradição que expressa a tensão entre seu papel como mentor de uma experiência radical de emancipação social e a lógica geopolítica que criminaliza alternativas reais à ordem vigente.

Seu pensamento, marcado por um hibridismo entre marxismo, crítica anticapitalista, pensamento libertário e matiz espiritual, constituiu uma tentativa contemporâneas de repensar a emancipação para além do Estado e do capital. Com centralidade na libertação das mulheres como eixo estratégico de qualquer transformação duradoura, seu pensamento demonstra, todavia, uma ausência teórica de crítica ao valor e do trabalho , o que no nosso entender,resulta em uma insuficiência de entendimento da crise atual do capitalismo. Mas, é preciso ressaltar que mesmo isolado em uma cela há mais de duas décadas, sua influência reverbera,sem dúvidas, nas práticas de organização social dos povos curdos e em diversos movimentos radicais pelo mundo.

Murray Bookchin (1921–2006) foi um pensador político, filósofo social e ecologista norte-americano cuja obra ocupa um lugar singular nas tradições libertárias do século XX.

Fundador da ecologia social, Bookchin desenvolveu uma crítica original à civilização capitalista, articulando questões ambientais, sociais, políticas e éticas sob uma perspectiva radicalmente anticapitalista e antiautoritária. Sua importância se expandiu de modo global, sobretudo após sua influência direta sobre o pensamento político de Abdullah Öcalan e, por consequência, na formulação prática do projeto do Rojava, no Curdistão sírio.

Nascido em Nova York em uma família de imigrantes russos de origem judaica, Bookchin iniciou sua trajetória política nos anos 1930 ligado ao comunismo, mas logo rompeu com o marxismo ortodoxo. Ao longo das décadas seguintes, construiu uma crítica profunda ao capitalismo industrial e ao produtivismo, argumentando que a destruição ecológica não era um problema técnico ou tecnológico, mas um reflexo das hierarquias sociais. Assim, a luta ecológica, para Bookchin, não podia ser separada da luta por uma transformação radical das estruturas sociais.

O centro de sua teoria é o conceito de ecologia social, que defende que a crise ambiental é inseparável das formas de dominação existentes na sociedade — incluindo o Estado, o patriarcado, o racismo e a lógica da mercadoria. Segundo ele, a relação destrutiva entre humanidade e natureza reflete, de forma ampliada, as relações destrutivas entre os próprios seres humanos. A libertação ecológica, portanto, exige a superação da dominação social em todas as suas formas.

Na esteira dessa crítica, Bookchin propôs o municipalismo libertário como alternativa concreta ao Estado-nação e ao capitalismo. Esse modelo defende a criação de redes de assembleias populares locais, confederadas entre si, onde a democracia direta substitua as formas representativas e burocráticas. Ele via nas cidades e nos bairros o espaço estratégico da luta política emancipadora, e não mais o proletariado fabril ou o partido revolucionário tradicional.

Entre suas obras mais importantes estão “The Ecology of Freedom” (1982), “Post-Scarcity Anarchism” (1971) e “Urbanization Without Cities” (1992), onde desenvolve de forma abrangente seu diagnóstico histórico e suas propostas para uma sociedade livre, ecológica e igualitária.

Nos anos 2000, seu pensamento encontrou um campo fértil e inesperado no movimento curdo. Abdullah Öcalan, após ler suas obras na prisão, adotou o confederalismo democrático como base teórica para uma nova forma de organização da luta curda, rompendo com o modelo socialista centralizado. O próprio Bookchin, já idoso, acolheu com entusiasmo essa inesperada recepção de suas ideias.

Hoje, Bookchin é reconhecido como um dos pensadores mais importantes da crítica ecológica à modernidade capitalista, oferecendo uma síntese entre libertarismo, crítica social, municipalismo e ecologia profunda. Sua influência segue viva nos movimentos que buscam alternativas não-estatais, pós-capitalistas e antipatriarcais — especialmente onde se compreende que a crise climática é apenas a expressão mais visível de uma crise civilizacional mais ampla, estrutural e sistêmica embora seja necessário dizer aqui que sua teoria carece de uma compreensão teórica mais profunda e crítica sobre o valor, o trabalho abstrato e a dissociação-valor na constituição da sociedade da mercadoria.

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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