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Nesta entrevista Roswitha Scholz , analisa a regressão da teoria de esquerda contemporânea diante da crise estrutural do capitalismo. A autora critica o retorno ao marxismo tradicional da luta de classes e à ontologia do trabalho, que volta a tratar sexismo, racismo e outras formas de dominação como “contradições secundárias”. A partir da crítica do valor‑dissociação, Scholz mostra como essas posições ignoram o caráter histórico e fetichista do trabalho abstrato e da forma social capitalista. A entrevista articula crise econômica, regressão política e empobrecimento teórico, dialogando diretamente com a tradição inaugurada por Robert Kurz e apontando os limites tanto do marxismo vulgar quanto das políticas identitárias contemporâneas.

Konkret: O seu novo livro chama-se Back to the Roots.
Roswitha Scholz: O título refere-se, como diz o subtítulo, à regressão na elaboração da teoria marxista-feminista, na verdade, na elaboração da teoria de esquerda como um todo, pois esta muitas vezes constitui a base para as teorias feministas. E aí se observa um retorno ao antigo marxismo do movimento operário, com a luta de classes e a ontologia do trabalho, e ao cidadão comum, bom trabalhador e disposto a trabalhar. Tenta-se simplesmente explicar o sexismo, o racismo, o anti-semitismo, o anticiganismo, a homofobia e a transfobia novamente através da contradição de classes. Em resumo, essa é a minha crítica à atual elaboração teórica de esquerda.
Konkret- Como é que se chegou a esta regressão?
Roswitha Scholz-Ela ocorre num contexto de regressão geral na sociedade mundial – a viragem à direita, a volta ao nacionalismo, a nacionalização do capital através de direitos aduaneiros e assim por diante, com que se reage ao facto de a globalização não ter funcionado, embora seja previsível que isso não resulte, mas sim agrave ainda mais a crise. É neste contexto que se deve ver o recurso da esquerda ao marxismo da luta de classes e à ontologia do trabalho. É um reflexo dessas relações sociais abaladas pela crise e o equivalente de esquerda à regressão da direita.
Konkret-Qual é o problema com o conceito de classe?
Roswitha Scholz-O problema com o conceito de classe é que hoje ele já não faz sentido. O conceito de classe, tal como ainda se encontra em Marx, já não consegue descrever adequadamente as condições actuais, porque a sociedade evoluiu de uma sociedade industrial para uma sociedade de serviços, com uma ampla camada média. A causa central da regressão está aqui: no medo das camadas médias de uma descida social. Marx fala, neste contexto, de contradição em processo: no decorrer do desenvolvimento das forças produtivas, cada vez mais trabalhos são racionalizados, ao mesmo tempo que aumenta a produção. O essencial aqui é que o trabalho abstracto não é algo ontológico, mas um produto histórico do capitalismo e do patriarcado, que tem de ser questionado. Por isso, o trabalhador também não pode mais ser aquele a quem seapela simplesmente.
Konkret–Alguma vez foi?
Roswitha Scholz-Essa é precisamente a piada. Como é sabido, o proletariado também se inclinou para o fascismo, já na década de 1930. Toda essa concepção de classe em si e para si de Marx ficou totalmente desacreditada. E continua a desacreditar-se hoje em dia. Poderíamos recordar a Escola de Frankfurt, onde, na Dialética do Esclarecimento, se afirma que o ser humano, no seu esforço de autopreservação, se transforma num anfíbio. Ou seja, torna-se um ser de reacção instintiva, que já não questiona a sua existência e se conforma com as circunstâncias.
Konkret-E qual é o problema da análise marxista-feminista?
Roswitha Scholz-Tomemos, por exemplo, a Social Reproduction Theory de Lise Vogel. O livro foi publicado em 1983, mas está a ser intensamente discutido actualmente. Vogel pega em Marx tal como ele é – quer dizer, o Marx da luta de classes, não o meu Marx do fetiche – e simplesmente pinta o domínio da reprodução com um pincel feminista. O que ela não faz é conceber a mulher como o Outro, como activa nesse domínio da reprodução que é menos valorizado. Para mim, esse Outro abrange o lado psicossocial, ou seja, a dissociação também dentro do sujeito masculino, que inferioriza as características consideradas femininas, e ofacto de que isso também pode ser comprovado em discursos científicos, teológicos e filosóficos. Além disso, a dissociação-valor é um processo. Antigamente havia uma polarização dos caracteres sexuais: o homem é racional, com um superego forte, e a mulher é emocional e sensível . Mas isso não permaneceu assim. Desde os anos 70, cada vez mais mulheres estão a trabalhar, o nível de educação aumentou. Hoje mais mulheres do que homens concluem o ensino secundário. Actualmente elas já não são consideradas apenas donas de casa, mas, como diz Regina Becker-Schmidt, são duplamente socializadas. No entanto, continua a ser verdade que as mulheres estãoabaixo dos homens em termos de estatuto.
Konkret– No seu livro, escreve que a regressão social já é visível há décadascentro da sociedade, mas que ganhou força nos últimos anos.Quando foi isso? Com a crise da globalização em 2007, 2008?
Roswitha Scholz-Wilhelm Heitmeyer já descreve essa regressão na década de 1980, quando os republicanos obtiveram vitórias eleitorais. E a individualização» descrita por Ulrich Beck, que se iniciou nessa época, levou a grandes incertezas e à viragem conservadora dos anos de Kohl. Após a «reunificação», vieram Rostock, Mölln e Solingen. Mas tudo começou realmente em 2007, 2008, com a crise financeira. Seguiram-se a crise do euro, a crise da Grécia e, em meados da década de 2010, os movimentos de refugiados. E o resultado são figuras como Trump e o avanço dos partidos de direita em toda a Europa. Pelo que sei, apenas duas pessoas da esquerda previram a crise financeira: o sociólogo americano Immanuel Wallerstein, com base na sua análise do sistema-mundo, e Robert Kurz, com a sua teoria da crise. Primeiro ele foi ridicularizado por isso. Era o Kurz do colapso.
Konkret– Por que é que a teoria de esquerda regrediu na crise docapitalismo? Não deveria ser o contrário?
Roswitha Scholz-Especialmente após 2008, formaram-se muitos círculos de leitura de Marx , houve uma nova leitura filosófica de Marx, foram publicadas várias antologias. Mas essa foi uma tendência relativamente curta e, com a ascensão da direita, a esquerda voltou a esse marxismo da luta de classes e, em grande parte, ao marxismo vulgar, porque o que se aplica à sociedade em geral também se aplica à esquerda, ou seja, em tempos de crise, as pessoas orientam-se por antigas certezas ou bobagens.
Konkret–A regressão da esquerda também inclui a crença de que não é mais necessário interessar-se por sexismo, racismo etc.?
Roswitha Scholz – Na contraposição entre classes e políticas de identidade, há um sentimento contra o wokeness. Isso é personificado, por exemplo, pela BSW. Outra coisa é a tentativa da revista «Z», dedicada à renovação marxista, de explicar e resolver o problema da interseccionalidade através da luta de classes. Não há sexismo grosseiro, mas o racismo, o sexismo e assim por diante são novamente declarados como contradições secundárias. O sexismo não ocorre directamente, mas já está presente. É claro que também é preciso dizer que a política de identidade também deve ser criticada. Ela não é totalmente inocente, mas tornou-se autoritária. Escrevi um texto decididamente anti-anticiganista, no qual a palavra cigano aparecia com frequência. E então, em um evento, alguém contou quantas vezes eu usei esse termo. Como um professor aposentado que fica constantemente a marcar erros ortográficos nas margens. Totalmente formalista. Num texto sobre anticiganismo, a conotação negativa, tal como é comum na sociedade dominante, também deve aparecer. A crítica linguística só faz sentido se levar em conta o contexto e a intenção.
Roswitha Scholz: Back to the Roots. Zur Regression marxistisch-feministischer Theoriebildung heute. Texte aus 30 Jahren [Back to the Roots. Sobre a regressão da teoria marxista-feminista actual. Textos de 30 anos]. Zu-Klampen-Verlag, Springe 2025, 334 páginas, 32 euros. [Prefácio do livro aqui]
Original “‘Sexismus wird wieder zum Nebenwiderspruch erklärt’ – Interview mit Roswitha Scholz” in exit-online.org, 07.01.2026. Antes publicado em konkret 11/2025. Tradução de Boaventura Antunes

Roswitha Scholz: uma inflexão teórica na crítica do valor e no feminismo contemporâneo
Roswitha Scholz é uma das principais representantes da chamada crítica do valor-dissociação (Wert-Abspaltungskritik), uma vertente da teoria crítica surgida na Alemanha nos anos 1990, profundamente influenciada pelo pensamento de Robert Kurz e pelo círculo da revista Krisis, posteriormente Exit!. Sua obra representa uma inflexão decisiva tanto no interior do marxismo quanto no campo do feminismo, ao rearticular de maneira radical a crítica das categorias fundamentais do capitalismo – valor, trabalho, mercadoria, dinheiro – com a dominação de gênero.
Diferente do marxismo tradicional, que tende a interpretar o patriarcado como uma opressão “externa” à lógica capitalista ou como uma contradição secundária, Scholz propõe uma concepção estrutural da relação entre capitalismo e patriarcado. Em seu ensaio seminal “O valor é o homem” (1992), ela introduz o conceito de dissociação-valor, demonstrando que a constituição do sujeito moderno e a forma social capitalista estão fundadas em uma cisão fundacional: de um lado, o polo masculino, associado ao trabalho abstrato, à racionalidade e à esfera da produção; de outro, o polo feminino, dissociado e relegado à reprodução, à emotividade e aos aspectos pré-reflexivos da vida social.
Nesse sentido, Scholz não “acrescenta” uma perspectiva de gênero ao marxismo, como fazem abordagens interseccionais superficiais. Ela reformula ontologicamente a crítica da economia política, mostrando que o valor, enquanto forma social específica do capitalismo, implica desde sua gênese uma lógica de exclusão e inferiorização do “feminino” como elemento estruturante. Tal abordagem rompe com a ontologia do trabalho presente no marxismo operário e rejeita a visão redentora da classe trabalhadora enquanto sujeito histórico da emancipação.
Sua importância reside, portanto, em dois níveis fundamentais:
Na crítica do marxismo tradicional, que ignorou o núcleo patriarcal do capitalismo e reafirmou categorias como “trabalho”, “produção”, “classe” ou “sujeito” sem submetê-las a uma crítica categorial radical. Na crítica do feminismo liberal e interseccional, que muitas vezes adota categorias burguesas (como igualdade jurídica ou identidade individual) sem compreender sua forma histórica e fetichista no interior da sociedade do valor.
Ao integrar a crítica do fetichismo da mercadoria à crítica do sexismo como processo de dissociação estrutural, Scholz fornece ferramentas analíticas cruciais para compreender os impasses atuais da crise capitalista, da regressão social e do esvaziamento das lutas emancipatórias.
Seu pensamento representa, assim, uma tentativa de atualizar a teoria crítica para além das aporias do marxismo vulgar e do feminismo institucional, apontando para a necessidade de uma crítica social que vá à raiz das formas sociais modernas – o que implica desmontar não apenas o capital, mas também o sujeito, o trabalho e o patriarcado como expressões históricas de uma mesma totalidade fetichista.
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