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Nesta crônica íntima e rigorosa, Silvie Armand narra a sua saída do New York Times como o desfecho de um longo processo de deslocamento intelectual e existencial. A partir da vida em Moscavide, ela revisita a sua formação liberal, o desencanto com a esquerda tradicional e a recusa de um feminismo cooptado pela lógica do mercado. Entre política esvaziada, crise civilizacional e novas escutas vindas das margens, o texto marca uma travessia: deixar o centro para continuar a pensar, escrever e viver com honestidade.

Depois do Desligamento-uma crônica de Silvie Armand
Escrevo hoje de Moscavide, do pequeno bairro onde aprendi a desacelerar o pensamento e a escutar o mundo em outra escala, para dizer algo que vinha sendo adiado, mas que já se tornara inevitável: deixei o New York Times.!Não foi uma decisão súbita, nem fruto de um conflito isolado. Foi um afastamento lento, quase orgânico, que começou muito antes dos textos vetados, das divergências editoriais ou das conversas cada vez mais tensas. Eu já não cabia ali. Ou talvez o jornal já não comportasse as perguntas que eu passei a fazer.
A vida em Portugal, e sobretudo aqui em Moscavide, foi decisiva nesse processo. Longe do centro do poder, das redações apressadas e da urgência permanente, passei a observar com mais nitidez o descompasso entre o discurso e a vida. As manhãs silenciosas, os cafés demorados, os vizinhos que se cumprimentam pelo nome criaram um intervalo raro:um espaço onde o pensamento pôde amadurecer sem a pressão de produzir opinião imediata.
Comecei a escrever para o Times ainda jovem, quando acreditava que o liberalismo representava uma forma possível de correção do mundo. Cheguei a Nova Iorque depois de um breve período no governo Obama, tomada por uma confiança que hoje me parece quase ingênua. Acreditava na ideia de progresso gradual, na força das instituições, na capacidade do centro de se reformar. Durante algum tempo, isso bastou.
Mas algo se rompeu. Não de uma vez, mas por acúmulo. As guerras intermináveis, o esvaziamento da política, a financeirização absoluta da vida, a incapacidade estrutural de responder à crise climática, social e civilizatória. Caminhando pelas ruas modestas de Moscavide, vendo a precariedade conviver com uma dignidade silenciosa, fui entendendo que o liberalismo não era apenas insuficiente; ele era parte do problema. Sua promessa de liberdade convivia perfeitamente com a destruição sistemática de tudo o que não pode ser convertido em valor.Percebi: o mundo liberal não tinha condições de sobreviver a crise profunda do capitalismo que se instalou.
Isto me levou, portanto, a um afastamento da esquerda tradicional do Partido Democrata. Não por cinismo, mas por esgotamento. Vi discursos progressistas tornarem-se slogans, pautas legítimas serem absorvidas pela lógica do marketing, e a crítica estrutural ser substituída por uma gestão moral da catástrofe. A esquerda institucional parecia disputar apenas o modo de administrar um mundo já dado, nunca a possibilidade de transformá-lo.Como conviver com o apoia dos democratas a política de genocídio dos judeus sionistas que estão no poder em Israel?
Houve também um afastamento mais amplo, silencioso e difícil de nomear, da esquerda tradicional como horizonte teórico. Uma esquerda que, diante da crise estrutural do capitalismo, parece incapaz de produzir pensamento novo. Em vez disso, retorna a categorias endurecidas, como se o passado pudesse funcionar como abrigo. O trabalho reaparece como essência humana, a classe como sujeito absoluto, enquanto tudo o que escapa a esse eixo é tratado como secundário, acessório ou adiável. Essa linguagem já não alcança a vida concreta que observo aqui, nem as formas contemporâneas de sofrimento, exaustão e precariedade.
O feminismo, que sempre foi para mim uma lente fundamental de leitura do mundo, também passou a me causar desconforto em suas versões mais institucionalizadas. Um feminismo que aprendeu a falar fluentemente a língua do mercado, da performance, da ascensão individual, da visibilidade como valor. Um feminismo que celebra conquistas simbólicas enquanto silencia sobre o trabalho de cuidado, a dependência, a reprodução da vida e o esgotamento cotidiano das mulheres. Não me reconheço num discurso que transforma emancipação em carreira e liberdade em adaptação bem-sucedida a um sistema intacto.
Neste processo, passei a observar com cautela o avanço de um identitarismo que, embora tenha sido essencial para nomear violências históricas, começa a se fechar em esquemas rígidos. Quando a identidade deixa de ser ponto de partida para a crítica e se transforma em essência fixa, algo se empobrece. O mundo passa a ser organizado por rótulos morais, e não pela análise das formas sociais que produzem desigualdade e sofrimento. Luto pela humanidade, pela igualdade de todos! Vejo aí um risco semelhante ao do marxismo dogmático: ambos preferem certezas a perguntas, pertencimento a pensamento, segurança simbólica ao risco intelectual.
Foi nesse impasse que encontrei, nas reflexões de Roswitha Scholz, um alívio raro. Não uma resposta pronta, mas a coragem de sustentar que capitalismo, patriarcado e racismo não são camadas hierarquizáveis nem contradições que se sucedem em ordem de importância. São dimensões entrelaçadas da mesma forma social., criada pela valorização do valor.Quando o sexismo volta a ser tratado como secundário, algo fundamental se revela: a crítica repete, sem perceber, a lógica de dissociação que sustenta o próprio capitalismo, sacrificando o cuidado, o corpo e a reprodução da vida em nome de uma abstração que se diz universal.
Meu olhar, então, começou a se deslocar. Primeiro para os países que se confrontaram com o império americano:Rússia, China. Mas ali também encontrei armadilhas. A herança do stalinismo, o autoritarismo russo, as relações mafiosas do poder sob Putin, o capitalismo de controle e vigilância da China. Não me interessava trocar um império por outro, nem substituir a mercadoria pela coerção. A questão da liberdade permanecia incontornável.
E foi nesse deslocamento que passei a escutar com mais atenção os ensinamentos vindos das margens. De sociedades que nunca foram plenamente integradas ao capitalismo ou que sobreviveram a ele de forma fragmentada. Povos indígenas, comunidades tradicionais, formas de vida que não organizam o tempo apenas em função da produção, mas do cuidado, da memória, da continuidade coletiva. Não romantizo. Mas reconheço ali perguntas que o centro deixou de saber formular.
Confesso aqui : a Arte teve um papel decisivo nesse processo. Na última Bienal de Veneza, quando o Times me mandou fazer algumas entrevistas, fui profundamente tocada por artistas indígenas, por obras de mulheres, por movimentos raciais que transformavam história violenta em linguagem viva. Não era arte para decorar o mundo, mas para desorganizá-lo. Ao regressar a Moscavide, percebi como essas obras dialogavam com a vida simples do bairro, com uma criatividade que resiste sem alarde à lógica da mercadoria.
Entendam: a ruptura com o jornal foi, portanto, consequência e não causa!O fato é que continuar ali significaria traduzir o mundo dentro de categorias que já não acredito. Escrever sobre crises sem poder questionar a lógica que as produz. Ajustar o discurso para não ferir consensos que considero falsos. Meu olhar amadureceu, e com ele veio a necessidade de outro espaço — talvez mais incerto, mas mais honesto.
Não sei ainda onde isso me levará. Sei apenas que este desligamento não é um recuo, mas uma travessia. Continuarei a escrever, a observar, a escutar. Mas agora sem a obrigação de caber. A crise que atravessamos exige mais do que correções de rota; exige imaginação radical. E isso, hoje, já não encontro no centro.
Escrevo para partilhar essa decisão com vocês, leitores que me acompanharam por tantos caminhos. Não como explicação defensiva, mas como gesto de transparência. Há momentos em que permanecer é uma forma de abdicação. E partir, uma tentativa de fidelidade ao que ainda pulsa.
Aqui, em Moscavide, entre ruas modestas e uma vida que insiste apesar de tudo, sinto que começo outra escuta. Não sei ainda que forma ela tomará. Sei apenas que precisava sair para continuar.
Lisboa, inverno de 2026
Silvie Armand

Silvie Armand é poeta, ensaísta e cronista, transita entre jornalismo cultural e escrita experimental, unindo crítica e criação.
Atualmente vive em Lisboa e é correspondente do Blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários
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