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Entre a memória, o tempo e o desejo: o Brasil de fevereiro de 2026 à luz da Pesquisa Meio/Ideia-Paulo Baía

arlindenor pedro
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Neste ensaio, Paulo Baía interpreta a Pesquisa Meio/Ideia de fevereiro de 2026 como o retrato de um Brasil em suspensão. Mais do que números, os dados revelam para ele memórias, afetos, rejeições e expectativas que estruturam o cenário político atual. Lula surge como figura histórica condensada, enquanto o bolsonarismo busca novas formas de continuidade do ponto de vista de uma direita ressentida.O centro aparece como espaço de passagem, não de destino. A análise mostra um país profundamente polarizado, mas atravessado por incertezas e desejos de recomposição. Entre estatística e imaginação política, o texto expõe um Brasil que hesita, espera e procura transformar memória em futuro compartilhado.

Entre a memória, o tempo e o desejo: o Brasil de fevereiro de 2026 à luz da Pesquisa Meio/Ideia- uma análise de Paulo Baía

A Pesquisa Meio/Ideia realizada entre 30 de janeiro e 2 de fevereiro de 2026, registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR-08425/2026-BRASIL, é mais do que um levantamento de números, é um espelho sensível do país em suspensão. Foram 1.500 entrevistas, com intervalo de confiança de 95% e margem de erro de 2,5 pontos percentuais. A coleta foi telefônica, com monitoramento e checagem posterior de questionários, e o plano amostral prevê ponderação por sexo, idade, grau de instrução e nível econômico. A própria metodologia descreve um Brasil plural: 48% homens e 52% mulheres; faixas etárias de 16 a 24 anos com 13%, 25 a 34 com 20%, 35 a 44 com 21%, 45 a 59 com 25% e 60 anos ou mais com 20%; escolaridade distribuída entre 36% com ensino fundamental, 41% com ensino médio e 23% com ensino superior; e, no mundo do trabalho, 62% economicamente ativos e 38% não economicamente ativos. Esses dados técnicos não são simples anexos burocráticos, são a moldura social que permite enxergar o retrato político com nitidez e responsabilidade.

Quando o eleitor é convidado a responder espontaneamente, sem cartela e sem guia, emerge uma política feita de lembranças, afetos e silêncios. Lula aparece com 33%, como uma presença que atravessa o tempo, não apenas um candidato, mas uma narrativa histórica condensada em nome próprio. Flávio Bolsonaro surge com 16,3%, evidência de uma herança em transição, o bolsonarismo procurando novo corpo sem abandonar sua alma combativa. Jair Bolsonaro marca 8%, ainda vivo na memória de seus seguidores e de seus adversários, uma sombra que continua projetada sobre o presente. Tarcísio de Freitas alcança 4,5% e Michelle Bolsonaro 4,3%, figuras que orbitam entre gestão e moral, técnica e fé. Ciro Gomes registra 2,5%, Ratinho Jr. 2%, Romeu Zema 1,9%, Ronaldo Caiado 1,5%, Eduardo Bolsonaro 0,5%, Fernando Haddad 0,3% e Renan Santos 0,2%, enquanto 2,6% dizem ninguém, branco ou nulo. Mas o número mais eloquente é o dos que ainda não sabem, 22,2%, quase um quarto do país que hesita, observa, sente e espera por um chamado que una o cotidiano à esperança.

A liderança de Lula na espontânea não é apenas aritmética, é simbólica. Para muitos, ele encarna proteção social, memória de crescimento, a sensação de que o Estado pode ser abrigo e não ameaça. Para outros, ele carrega o peso de conflitos passados, de disputas morais e econômicas que ainda vibram. Sua facilidade é ser imediatamente reconhecido em cada esquina política do país. Sua dificuldade é que o reconhecimento traz limites, porque o Brasil o julga como se julgasse uma era inteira. Ele parte de um piso elevado, mas encontra um teto que só poderá ser rompido se transformar memória em futuro compartilhado.

Flávio Bolsonaro representa um momento de transição dentro do conservadorismo. Seus 16,3% mostram que o eleitorado bolsonarista busca continuidade sem repetir exatamente o mesmo rosto. A facilidade de Flávio é herdar uma marca poderosa, uma identidade política que ainda mobiliza milhões. Sua dificuldade é carregar junto com essa marca todas as paixões e rejeições que a acompanham, tendo de expandir sem diluir e moderar sem trair.

Quando a pesquisa passa ao cenário estimulado, o eleitor é conduzido por uma lista e, mesmo assim, revela desejos e fronteiras. No primeiro turno com Lula, Flávio Bolsonaro e Ratinho Jr., Lula aparece com 39,5% e Flávio com 32%. Ratinho Jr. soma 8,8%, Romeu Zema 3%, Renan Santos 0,7% e Aldo Rebelo 0,5%, enquanto 5% optam por branco ou nulo e 10,5% seguem indecisos. Aqui, o país se mostra dividido, não apenas entre direita e esquerda, mas entre expectativa e cansaço, entre convicção e dúvida. O centro existe, mas ainda não consegue ser destino, apenas passagem.

Num segundo desenho de primeiro turno, Lula registra 38,7% e Flávio 35,3%, com Romeu Zema em 5,1% e Eduardo Leite em 3,4%, além de Renan Santos e Aldo Rebelo com 0,7% cada, branco ou nulo em 5,5% e não sabe em 10,5%. A proximidade entre os dois polos sugere um país em disputa permanente, onde qualquer deslocamento econômico, qualquer crise moral ou qualquer gesto político pode alterar o equilíbrio. A dificuldade do centro não é apenas programática, é narrativa, falta-lhe uma história capaz de tocar o coração do eleitor.

No cenário em que Lula enfrenta Tarcísio de Freitas, o presidente aparece com 40% e Tarcísio com 35%, com Zema em 6,5%, Renan Santos em 1%, Aldo Rebelo em 0,5%, branco ou nulo em 6% e não sabe em 11%. Tarcísio carrega a promessa de eficiência e ordem, um discurso de administração que dialoga com setores urbanos e produtivos. Sua facilidade é apresentar resultados como argumento. Sua dificuldade é evitar que essa imagem se confunda com a mera continuidade do conflito ideológico que muitos brasileiros já não suportam.

O segundo turno expõe a tensão central da nação. Lula 45,8% contra Flávio Bolsonaro 41,1%, com 7,4% de branco ou nulo e 5,7% de indecisos. Lula 44,7% contra Tarcísio 42,2%, com 8,2% de branco ou nulo e 4,9% de não sabe. Lula 45% contra Michelle Bolsonaro 40,7%, com 7,6% de branco ou nulo e 6,7% de indecisos. Em todos os confrontos Lula lidera, mas lidera em terreno estreito, como quem caminha por uma ponte fina sobre águas agitadas. Estatisticamente não há vitória assegurada. Politicamente há um país ainda partido, buscando reconciliação sem abrir mão de suas convicções.

A régua de possibilidade de voto revela muros e pontes. Lula tem 48,4% que poderiam votar nele e 47% que não votariam de jeito nenhum, um retrato da polarização em estado puro. Flávio Bolsonaro apresenta 43,1% de possibilidade e 44,3% de rejeição, com 8,9% que não o conhecem, mostrando que sua batalha será ampliar horizontes sem acender rejeições. Tarcísio de Freitas tem 49,7% de possibilidade e apenas 26,1% de rejeição, mas 15,1% de desconhecimento e 9,1% de indecisão, indicando que ainda é uma figura em construção nacional.

Michelle Bolsonaro exibe 42,5% de possibilidade e 42,1% de rejeição, com 10,5% de desconhecimento, refletindo sua força entre eleitores guiados por valores religiosos e sua dificuldade de romper limites para além desse universo.

Entre os nomes que orbitam o centro-direita, Ratinho Jr. apresenta 40,3% de possibilidade, 32,7% de rejeição e 21,9% de desconhecimento. Romeu Zema tem 37,1% de possibilidade, 26% de rejeição e 25,8% de desconhecimento. Ronaldo Caiado registra 36,1% de possibilidade, 29% de rejeição e 28,5% de desconhecimento. Eduardo Leite aparece com 31,6% de possibilidade, 27,3% de rejeição, 25,3% de desconhecimento e 15,9% de indecisão. A facilidade desses nomes é não estarem saturados pela disputa nacional. A dificuldade é transformar curiosidade em confiança e confiança em voto útil num cenário que tende a se fechar entre dois grandes polos.

Fernando Haddad apresenta 44,4% de possibilidade e 43,1% de rejeição, com baixo desconhecimento de 6,6%, o que revela um político claramente posicionado no imaginário coletivo. Renan Santos, por sua vez, tem 27,9% de possibilidade, 23% de rejeição, 38,9% de desconhecimento e 10,2% de indecisão, mostrando que sua visibilidade ainda é limitada fora de círculos específicos, apesar do barulho que seu campo ideológico produz.

O Brasil que emerge desse conjunto de dados é um país em busca de linguagem para o futuro. A disputa não é apenas entre pessoas, mas entre visões de mundo. De um lado, a ideia de Estado como proteção e comunidade. De outro, a defesa de valores conservadores como ordem e identidade. E, entre eles, a promessa gerencial de eficiência como resposta ao cansaço coletivo. A pesquisa mostra que nenhum desses projetos domina plenamente. O país caminha dividido, mas também inquieto, desejoso de algo que una dignidade material e sentido moral.
Fevereiro de 2026 aparece como um tempo de espera ativa.

A polarização persiste, mas convive com uma vasta zona de indecisão e desconhecimento. A eleição que se aproxima não será decidida apenas por slogans, mas pela capacidade de cada liderança de transformar números em sentimento compartilhado, estatística em esperança vivida. A Pesquisa Meio/Ideia não entrega certezas, entrega pistas. E essas pistas indicam que o Brasil está diante de um momento em que memória e promessa disputam o mesmo coração público.


Ler essa pesquisa é compreender que a democracia brasileira continua vibrante, tensa, contraditória e, sobretudo, humana. Os números falam, mas também respiram. Eles contam uma história de conflitos, afetos, medos e desejos que nenhum gráfico esgota. Cabe à política transformar esse retrato em caminho, à sociedade transformar diferença em diálogo e ao país transformar divergência em projeto comum.

Rio de Janeiro, fevereiro de 2026

Paulo Baía

Paulo Baía é Sociologo,cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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