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E a utopia pré-capitalista?Roberto R.Martins

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 6 leitura mínima

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Neste texto,o escritor baiano Roberto R. Martins apresenta para os leitores do Blogue Utopias Pós Capitalistas o seu projeto de novo livro onde ele articula história, ficção e reflexão crítica para pensar a utopia pré-capitalista, inspirada na Utopia de Thomas Morus, no contexto da colonização do Brasil. A partir da história do pau-brasil e do extrativismo madeireiro nas capitanias do Sul da Bahia e do Espírito Santo, o autor constrói uma narrativa que dialoga com o primeiro ciclo econômico colonial. A ficção surge, então, como recurso metodológico para iluminar dimensões pouco exploradas da historiografia, especialmente o encontro entre europeus e povos indígenas.

Visões do Paraíso

E a utopia pré-capitalista?Roberto R.Martins

Estou com um livro no prelo, a sair agora em março pela Editora Europa, onde trato da utopia. Mas da utopia pré-capitalista, da utopia original, conforme a formulou Thomas Morus. O livro é de história, a historia da madeira nas capitanias do centro – Ilhéus, Porto Seguro e Espirito Santo – região que preservou a última grande reserva florestal da Mata Atlântica, que só veio a ser erradicada em meados do século XX. Projetei neste estudo uma trilogia, até mesmo por perceber que o extrativismo florestal foi um tema pouco estudado e tratado na historiografia e na literatura brasileira. O primeiro volume, que sai agora, se chama: A Saga da madeira: I – Pau-brasil. O II será o Jacarandá, o III, não tem jeito, é o que se impõe: o Eucalipto.

Mas que tem a ver a história da madeira com a utopia? há de perguntar o leitor. Explico. O livro busca contar, em seus mínimos detalhes, a história do pau-brasil enquanto pau-de-tinta, com ênfase para o primeiro ciclo econômico do Brasil, assunto igualmente pouco ou nada abordado pela maioria dos historiadores e literatosportugueses e brasileiros. E achei por bem inserir, neste estudo histórico, uma ficção. Ora, se os romances históricos são baseados em parte, em personagens e fatos reais, por que o inverso não pode se dar? Por que não usar na história um pouco da ficção para ilustrar e enriquecer a história? Fiz isso.

E é nesta parte da ficção que vai aparecer a utopia, com toda a naturalidade, conforme veremos. Na procura do encaminhamento a dar à nova colônia cuja posse foi tomada por Pedro Alvares Cabral em 1500, o reino português que privilegiava o rendoso comércio das especiarias com as Índias Orientais, encontra no pau-de-tinta a principal mercadoria a buscar por aqui. Nesse interim, um lorde português, em viagem por Flandres, conhece um holandês comerciante e conhecedor das madeiras, inclusive do pau-brasil, o Ruben, e propõe à coroa portuguesa contratá-lo para vir para a colônia estudar o potencial do pau-de-tinta. Ruben aceita a proposta, não só pelo trabalho que faz com a madeira. Há uma outra razão com a qual ele sonha, naqueles tempos difíceis da Europa: quem sabe encontrar um mundo novo?Foi naqueles anos que havia sido publicado a Utopia de Thomas Morus. E foi ali, naquela região, que o autor conheceu Flávio Hitlodeu – o contador de histórias – o qual, diz no livro, participou de duas das três viagens de Américo Vespúcio. Então, obviamente, teria vindo ao Brasil. E será que a ilha da Utopia não seria próxima à colônia portuguesa? A ilha não estaria nas Índias Ocidentais? Ruben procura identificar parentes de Hitlodeu em Antuérpia, encontra uma sobrinha, mas segundo ela, não há mais nada que ela soubesse, que não tivesse sido contado ao Sir inglês, e pressupunha que Hitlodeu já tivesse falecido naquelas terras das Índias Ocidentais, onde resolvera morar o fim da vida.

Ruben organiza um grupo e vem para a colônia portuguesa. Traz consigo um jovem colega holandês, especialista em marcenaria, em instrumentos musicais, com quem muito conversa sobre aquele sonho. Vai situar-se na vila de Porto Seguro, a mais próspera das três capitanias, mas estende às duas outras suas atividades.Entre fidalgos e autoridades, pouco consegue, nem mesmo conversar, a não ser com o capitão donatário de Porto Seguro, Pero do Campo Tourinho, homem progressista,perseguido por clérigo e fidalgos, os quais, ao fim, fazem dele a primeira vítima no Brasil da Santa Inquisição. Mas antes disso Ruben obtém sua opinião, pois ele conhece o livro de Thomas Morus, mas acha que tudo é uma belainvenção do autor.

Ruben prossegue em sua busca ao lado do trabalho com o pau-brasil, especialmente nas relações que estabelece com uma tribo Tupiniquim. O pajé, já idoso,lhe promete, quem sabe, talvez consiga lembrar-se de alguma coisa que lhe teria sido contada sobre o assuntopor seu antecessor, já falecido. E numa de suas retiradas para a mata, para pensar, refletir, não mais retorna. Mas Ruben estreita suas relações com esta tribo, onde faz muitos amigos, e, no futuro, vai encontrar sua esposa na bela Anahí, filha do pajé. Ele encontra, na vida primitiva daquele povo, algumas qualidades que são ressaltadas no livro de Morus. Entre eles não há ganância, nem o sentido de acúmulo de riqueza. Os índios são todos iguais: têm chefe, definem responsabilidades, mas de resto são iguais, e nenhum deles procura superar o outro, a não ser o inimigo, na guerra. Também as mulheres, se solteiras, são inteiramente livres.  

Estas questões alimentam muito os sonhos de Ruben e fazem com que ele, assim como, seus três companheiros de missão, nunca mais retornem à Europa. Morrerão por aqui . Ruben casado, com uma renca de filhos, jáconhecendo os primeiros netos, todos eles criados em sua grande casa, e à sombra  de um belo jacarandá, que todo mês de dezembro anuncia com suas flores o início do verão.

Roberto R.Martins

Roberto R.Matins é jornalista, historiador e escritor, hoje residindo no extremo sul da Bahia, membro da Academia de Letras de Porto Seguro.

 

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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