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Pensar quando o chão da política desaparece-Paulo Baía

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 11 leitura mínima

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Neste ensaio original e sensível, Paulo Baía, num fôlego só, escreve a partir do corpo em movimento e da escuta do cotidiano brasileiro para pensar um tempo em que a política parece ter perdido o chão. Entre ruas, periferias, comunidades religiosas e redes digitais, o autor questiona as certezas da esquerda tradicional e as simplificações do identitarismo contemporâneo. O texto recusa fórmulas prontas e categorias rígidas, apostando numa crítica que une razão e afeto, estrutura e experiência vivida. Ao afirmar que a crise do capitalismo atravessa desejos, relações e modos de cuidar, Baía propõe reinventar a transformação social a partir dos gestos cotidianos e das redes de cuidado. É um ensaio-provocação que convida a pensar, sentir e agir num Brasil em fratura.

Pensar quando o chão da política desaparece-um ensaio,de Paulo Baía

Escrevo este texto como quem atravessa o Brasil a pé, com poeira nos sapatos, vento no rosto e um ouvido colado ao chão para escutar o que não aparece nos discursos oficiais, sou um andarilho por este país imenso e contraditório, um corpo em movimento entre rios, estradas, becos, pontes, viadutos, praias e periferias, carregando na pele o calor das ruas e na memória o murmúrio subterrâneo de um tempo que parece ter perdido seu eixo, este ensaio nasce de uma conversa longa, antiga e contínua com meu amigo de décadas, desde a adolescência, Arlindenor Pedro, que não é apenas professor, mas sociólogo do chão da vida, ensaísta, libertário, alguém que pensa com os pés fincados na terra e o olhar aberto ao céu, nossas conversas atravessaram noites, livros, cafés amargos, derrotas políticas, esperanças coletivas e silêncios compartilhados, e este texto é fruto dessa travessia comum carregando afeto, dissenso, tensão e cumplicidade intelectual, sei que é um texto provocador, que com os ânimos exaltados pelas certezas políticas da esquerda brasileira e internacional certamente será enxotado, rechaçado ou acusado de heresia, ainda assim escolho provocar o debate de maneira sensorial, a partir do que vejo nas ruas, nas filas, nos ônibus lotados, nas redes digitais, nas conversas de calçada e nas pesquisas quantitativas e qualitativas que venho lendo obsessivamente de 2025 até este fevereiro de 2026, talvez o que mais me inquiete seja perceber que a política já não decide, digo isso como quem sente um terremoto silencioso sob os pés, pois o chão que sustentava nossas categorias políticas desmoronou e com ele ruíram nossas certezas e ilusões de controle, a crise do capitalismo contemporâneo não é apenas econômica, ela atravessa a pele, a linguagem, o desejo, o tempo das mulheres, o ritmo dos afetos e a textura das relações, reorganiza como vivemos, trabalhamos, cuidamos, sofremos e sonhamos, vejo o Brasil como um mapa pulsante de contradições, comunidades mestiças em que a cor da pele muda conforme o bairro e a luz do dia, quilombos que preservam memória como quem protege água em tempo de seca, favelas que criam ordem no caos e solidariedade no abandono, condomínios de luxo que blindam o medo e transformam a cidade em arquipélago de muros, vejo também comunidades de brancos, muitas vezes silenciosas, protegidas por privilégios herdados e cercadas por códigos invisíveis de distinção, e vejo comunidades religiosas onde a fé oferece abrigo, sentido e cuidado, mas também se converte em campo de disputa moral e política sobre corpos, desejos e destinos, nesse cenário grande parte da esquerda reage não com pensamento novo, mas com memória teórica endurecida, refugiando-se em um passado conceitual previsível, masculino em sua gramática e rígido em sua sensibilidade, repetindo o previsível em nome do radical, vigiando o passado em nome do futuro e reduzindo o povo a uma figura abstrata que cabe em cartazes e slogans, o retorno à ontologia do trabalho e à luta de classes como eixo totalizante soa para mim como saudade travestida de ciência, nostalgia de fábrica e de um sujeito universal que nunca foi universal, tentativa de restaurar um mundo teórico que já não respira no presente que habitamos, escrevo na primeira pessoa porque não escondo meu corpo nem minha trajetória, não falo de uma torre acadêmica, falo da rua, do ônibus lotado, da ponte atravessada a pé, da conversa em calçada, da fila do mercado, do culto evangélico, da roda de samba e do grupo de WhatsApp que pulsa madrugada adentro, o trabalho abstrato não é natural, é invenção histórica do capitalismo que reorganizou corpos, afetos e tempos de vida, e quando a esquerda o sacraliza repete o fetiche do capital apenas trocando de ídolo, pois hoje o capital governa por algoritmos, imagens, emoções, cliques e hábitos, habitando nossos sonhos, medos e rotinas digitais, não aceito a hierarquia que trata sexismo, racismo e colonialismo como contradições secundárias, isso não é erro teórico, é violência simbólica que reinstala dentro da própria esquerda o patriarcado e o eurocentrismo que dizemos combater, aprendi caminhando que dor tem território, CEP, corpo e genealogia, e nas comunidades mestiças, nos quilombos, nas favelas, nas comunidades de brancos e nas comunidades religiosas a política não aparece como conceito, mas como comida, água, ônibus, escola, cuidado, medo, oração, festa e trabalho invisível, minha crítica ao identitarismo contemporâneo é dura, reconheço sua importância ao nomear violências, mas vejo que muitas vezes caiu numa armadilha binária que empobrece o pensamento transformando tudo em opressor e oprimido, branco e negro, homem e mulher, como se a vida fosse um quadro sem nuances, substituindo pensamento por classificação e política por moralização, congelando identidades e transformando diferença em essência imutável, aproximando-se paradoxalmente do marxismo dogmático que critica, pois ambos preferem certezas a perguntas, enquanto isso a dívida das famílias cresce, o trabalho se precariza e o futuro encolhe, e a dívida não é só número, é disciplina íntima que molda sono, humor, relações e esperança, a crise climática atravessa tudo como lâmina quente com enchentes nas periferias, secas no interior, fumaça nas cidades, doenças respiratórias e deslocamentos forçados, tornando-se máquina de desigualdade, se a política já não decide o problema não é apenas quem governa, mas como habitamos o mundo, pois o capital antecede a política e a esvazia, e repetir categorias do século XIX diante de plataformas digitais e catástrofe climática é cegueira voluntária, precisamos ser incisivos diante do mundo, não dóceis nem resignados, pensar com coragem, agir com cuidado e sentir com profundidade, e também precisamos estar plenamente neste mundo habitando com igual intensidade as redes digitais e as relações face a face, entrando nas plataformas com a mesma energia com que abraçamos alguém na rua e debatendo no grupo de WhatsApp com a mesma responsabilidade ética que usamos na mesa da cozinha, pois o digital não é inimigo, é território de disputa, afeto, mentira, criação e política, não quero retornar a Marx como autoridade paterna, quero dialogar com o que ainda pulsa em sua obra, sobretudo a crítica ao fetiche, e abandonar o resto sem nostalgia, porque o Brasil não cabe em teoria única, ele é comunidade mestiça e quilombo, favela e condomínio, comunidade de brancos e comunidade religiosa, culto lotado e roda de samba, aplicativo e fila do posto, rio transbordando e encosta desabando, e se a política já não decide precisamos reinventar a transformação social a partir dos corpos, dos cuidados, das relações, dos afetos e das crenças, construindo uma crítica ao mesmo tempo racional e sensível, capaz de analisar estruturas sem esmagar a poesia da vida, e como andarilho percebo que a verdadeira política acontece nos gestos mínimos, na vizinha que divide comida, no líder comunitário que organiza mutirão, no pastor, no padre e na mãe de santo que arrecadam doações e sustentam redes de cuidado, na mãe de favela que mantém a casa de pé e no morador de condomínio que decide abrir ou não o coração ao outro, pois é nesse cotidiano invisível que ainda pulsa a possibilidade de um Brasil menos cruel e mais vivo, e por isso afirmo que nosso desafio histórico é duplo, lutar contra as estruturas que nos oprimem e ao mesmo tempo cuidar das relações que nos mantêm humanos, sendo firmes como pedra e ternos como água, críticos como intelectuais e sensíveis como poetas, presentes no celular e presentes no abraço, e por fim digo que pensar livremente hoje é um gesto de coragem radical, recusa a qualquer tutela teórica, seja marxista ou identitária, e o direito de imaginar um mundo que ainda não existe, escrevo como andarilho, como brasileiro inquieto, como alguém que ama este país e se recusa a reduzi-lo a fórmulas prontas, este texto é desabafo, método, provocação e cuidado, que incomode, que provoque, que desarrume, porque só assim poderemos reconstruir o chão que desapareceu sob nossos pés.

Paulo Baía é Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ em 06 de Fevereiro de 2026.

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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