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O serviço médico no campo de batalha da Guerra de Canudos-Marcos Roberto Brito dos Santos

arlindenor pedro
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Este ensaio de Marcos Roberto Brito dos Santos busca trazer aos leitores deste blogue informações sobre o serviço médico-hospitalar prestado pelo Exército brasileiro durante a Guerra de Canudos, acompanhando as quatro expedições militares ao sertão baiano. A partir de relatos de médicos, comandantes e correspondentes de guerra, o texto evidencia o improviso, a precariedade sanitária e as enormes dificuldades enfrentadas no campo de batalha. Mostra-se como a insuficiência de recursos humanos e materiais, aliada à hostilidade do terreno, às epidemias e às elevadas baixas, produziu um quadro médico-sanitário calamitoso. O estudo ilumina, assim, uma dimensão pouco explorada do conflito, revelando as contradições do Estado republicano em sua tentativa de impor a ordem pela força em um dos episódios ainda tão pouco estudado da história brasileira do período republicano.

o horror da guerra empreendida pelo Estado Brasileiro aos seus filhos

O serviço médico no campo de batalha da Guerra de Canudos-um ensaio de Marcos Roberto Brito dos Santos


Com o ensaio anterior, intitulado “A Guerra de Canudos chega a Faculdade de Medicina da Bahia”, iniciamos uma série de artigos que abordam a questão do serviço médico-hospitalar na Guerra de Canudos. Nele, tratamos, primeiramente, após breve introdução ao tema, do socorro médico realizado por esta instituição aos soldados feridos e doentes vindos do sertão baiano, mas que eram atendidos, após longo e agoniante trajeto até a capital, nos hospitais improvisados em Salvador sob a iniciativa do colegiado de professores desta faculdade. Antecede, porém, a estes esforços, outros realizados pelo corpo médico-sanitário do Exército (atuante durante todas as quatro expedições). É sobre este tema que discorreremos neste ensaio.


Hospitais de Sangue do Alto da Favella, em frente ao Arraial de Canudos. Foto de Flávio de Barros, 1897. Em fins do século XIX, no tempo da Guerra de Canudos, era comum o uso dos termos “Hospital de Sangue” ou “Ambulância” para designar os hospitais de campanha. Estes eram unidades de saúde criadas em situações emergenciais, em especial durante os conflitos bélicos, estabelecidos provisoriamente em pontos estratégicos militarmente e próximos ao locais dos combates, a fim de oferecer pronta e rápida assistência hospitalar aos soldados feridos e doentes. Desta forma, eram prestados os socorros médicos que necessitam ser realizados de forma mais imediata, até ser viabilizada a transferência para hospitais de instalações mais permanentes.

O serviço médico no campo de batalha da Guerra de Canudos- um ensaio de Marcos Roberto Brito dos Santos

PRIMEIRA EXPEDIÇÃO

sem enfermeiro, ao menos, que me auxiliasse no tratamento das feridas”

O serviço médico aos soldados no campo de combate durante a Guerra de Canudos, ou seja, no Sertão Baiano, remonta ainda à primeira expedição militar contra o arraial. Ficando a cargo domédico do Exército Antonio Alves dos Santos, este tornou-se célebre na história da Guerra por supostamente ter surtado durante a operação. Isso é o que afirma o comandante da expedição o tenente Manuel da Silva Pires Ferreira em sua “parte” (relatório) sobre o combate em Uauá: 

O dr. Antonio Alves dos Santos, médico adjunto do exercito, (…), prestou reais serviços durante o combate, tratando as praças feridas com interesse e desvelo, mostrando-se na altura da humanitária missão que lhe fora confiada; tendo, porém, depois de terminada a luta apresentado sintomas de desarranjo mental” (MILTON, 1902, p. 38).

Em um escrito onde descreve a diligência, entretanto, o médico Antonio Alves dos Santos, aparentando, em várias partes do texto, mania de perseguição, seja ela fundada ou infundada, demonstra suas desconfianças e receios em relação a várias pessoas ao seu derredor durante a realização da expedição, incluindo o chefe, o tenente Pires Ferreira. Sobre isso, discorrendo seu olhar sobre os acontecimentos vivenciados, afirma, em oposição ao comandante da expedição:

A ideia de perseguição não foi uma quimera”. 

Neste mesmo texto, narra ainda o seguinte sobre o serviço médico que prestou em meio aoscombates:

Apenas entraram os bandidos, travou-se em pequena distância renhido combate, achando-me eu em companhia do Professor Bellarmino e sua família, casa situada no campo de ação, (…), transformada em hospital de sangue, onde somente eu, sem enfermeiro, ao menos, que me auxiliasse no tratamento das feridas, os recebia, ministrava-lhes os primeiros socorros (…)” (SANTOS, s/d, p. 5).

​Percebe-se já ai, em suas palavras, o improviso que marcaria a atuação médica e hospitalar durante as quatro expedições, diante de um apoio governamental exíguo para as necessidades existentes no campo de batalha.

SEGUNDA EXPEDIÇÃO

enterramos feridos e carregamos mortos”

​Malograda a primeira expedição militar contra o Belo Monte de Antonio Conselheiro, asegunda partiu de Salvador também com apenas um médico, o Dr. Pedro Americano. Este, em meio aos desentendimentos entre o governador Luis Viana e o comandante do 3º Distrito Militar, o general Frederico Sólon Ribeiro, que marcaram o fracasso da 2ª expedição, é exonerado, sendo designado três outros médicos: os capitães do exército Everaldino Cícero de Miranda (que servia no Hospital Militar) e Gabriel Arcanjo Dutra de Andrade (vindo do Arsenal de Guerra); e o médico capitão da força pública (Regimento Policial da Bahia) Edgard Henrique Albertazzi. 

O último, nos legou uma memória do ano de 1932, que embora valiosa de informações sobre a guerra de Canudos e seus combatentes, pouco deixou das suas impressões sobre o serviço médico e o estado de saúde e sanitário durante a expedição. Em dois dos poucos momentos do textoem que trata da questão, relata:

Febrônio e até dois médicos, eu e Everaldino puxamos as lanças, carregamos feridos e enterramos mortos. O nosso colega mais franzino vinha tomando conta dos feridos. (…). Era desolador o estado da força. Famintos, tendo no rosto impresso o sofrimento, com fardas rasgadas pelos espinhos de unha de gato, xique-xique, mandacaru… arrancando dos lajedos um cardo chamado ‘cabeça de frade’ e cavando raiz de umbu para mitigarem as dores de estomago, muitos ao ingerirem tal alimento, começaram a ter vômitos e vertigens… outros pela ação contínua do sol, manifestação de insolação (…)” (ALBERTAZZI, 1932).

TERCEIRA EXPEDIÇÃO

Nesse hospital contaram-se, ao entardecer, para cima de 200 feridos”.

A terceira expedição, comandada pelo coronel Moreira César, contou desde o seu início com dois capitães médicos, Francisco Joaquim Ferreira Nina (do Arsenal de Guerra) e Francisco Camilo de Holanda. Outro médico, o também capitão Fortunato Raymundo de Oliveira, é citado na literatura referente à guerra como tendo não apenas participado desta expedição, como desaparecidodurante  os combates.

É nesta fase da campanha militar que temos a primeira notícia da instalação de um “hospital de sangue” em uma colina próxima ao arraial para atendimento aos feridos e doentes, e que serviu para socorrer o próprio chefe da expedição militar, como nos relata Aristides Milton: 

(…) na segunda colina, penúltima ocupada pela mesma artilharia, foi oportunamente instalado o hospital de sangue, de cuja guarnição ficou encarregado um piquete da policia baiana, comandado pelo alferes F. Requião. Nesse hospital contaram-se, ao entardecer, para cima de 200 feridos. Quanto ao numero dos mortos, não foi possível verificá-lo então. (…). Recolheu-se o coronel à barraca, e foram-lhe ai feitos os primeiros curativos. Depois, o conduziram numa padiola para o hospital. (…). No hospital de sangue, os médicos desenvolveram louvável atividade e zelo, dignos de francos encômios.” (MILTON, 1902, p. 72-73).

QUARTA EXPEDIÇÃO

regurgitavam de feridos, envolvidos na mesma sangueira misturada com a terra avermelhada”.

​A organização da 4ª expedição militar, comandada pelo General Arthur Oscar, iniciou-se logo após a derrota da 3ª, em março de 1897. A nova expedição compunha-se de duas colunas, a primeira comandada pelo General João da Silva Barbosa e a segunda pelo General Cláudio do Amaral Savaget. 

Alberto Martins da Silva, cujo trabalho neste tema parece ter sido o de maior fôlego e profundidade nas pesquisas, aponta uma ampla “

mobilização na área médico-militar” que “atingiu todos os Estados da Federação, de onde os profissionais foram transferidos”. 

É neste contexto da 4ª expedição militar contra Canudos, que hospitais de sangue mais estruturados foram criados nas bases de operações em Queimadas e Monte Santo. Também foi improvisado um pela 2ª Coluna, antes do encontro das duas colunas no Morro da Favela, para atendimento dos feridos no combate do Cocorobó. Mas os hospitais de sangue que ganharam maior notoriedade foram aqueles estabelecidos próximos ao Alto da Favela (ou Morro Vermelho), após a junção das tropas neste local em 28 de julho de 1897. Segundo o Tenente Macedo Soares, em sua obra A Guerra de Canudos, 

Foram organizados dois  hospitais, um para cada força, respectivamente; o correspondente à 1ª coluna, permanecia em extensa e larga vala à direita, terminando ao sopé do Morro Vermelho, enquanto que o da 2ª, foi estabelecido na retaguarda. Ambos regurgitavam de feridos, oficiais e praças na maior promiscuidade, envolvidos na mesma sangueira misturada com a terra, por sua vez avermelhada. Os lamentos daqueles desventurados em tão grande número, muitos já invadidos pela gangrena, outros expirando famintos e sedentos, davam tom demasiado lúgubre aquele raro e comovedor espetáculo” (MACEDO SOARES, 1902, p. 138).

​Neste hospital de sangue do Alto da Favela, dirigido pelo médico militar José de Miranda Cúrio, internava-se provisoriamente os pacientes e realizavam-se desde pequenos procedimentos até cirurgias mais complexas, avaliando-se a possível transferência (“evacuação”) para os hospitais de Monte Santo e da capital. À medida em que o Exército conquistou parte do território do arraial, os feridos e doentes foram gradativamente, no mês de setembro, sendo transportados para um novo hospital de sangue instalado dentro do povoado.

Mas apesar de toda essa mobilização médico-hospitalar a nível nacional, o corpo médico ainda era numericamente deficiente diante dos desafios enfrentados. O inimigo mostrara-se mais perigoso do que o previsto, o terreno era hostil às tropas do exército, as epidemias e doenças se manifestavam ou disseminavam (varíola, beriberi, tifo, malária, cólera, entre outras) e as baixas ganharam dimensões elevadas, desde o início dos combates na Serra do Cocorobó (2ª coluna, em 25 de junho) e nas imediações do Alto da Favela (1ª coluna, em 27 de junho).

Uma situação Calamitosa e a morte de dois médicos

Embora houvessem jornais que anunciassem um excelente estado sanitário das tropas (como o jornal Minas Geraes que afirmava em sua edição de 25/08/1897: “Felizmente é ótimo o estado sanitário das forças em Canudos”), a grande maioria dos depoimentos dos que participaram no front de batalha descrevem um situação de total calamidade do ponto de vista médico-sanitário. É certamente baseado nestes depoimentos que Alberto Martins da Silva, afirma:

Ninguém ignora os imensos obstáculos que os profissionais da área de saúde enfrentaram naquelas inóspitas regiões. Vindos de várias partes do território brasileiro, e reunidos em um ambiente pouco propício para uniformizar ações, o corpo médico encontrou grandes problemas que determinaram improvisações que, em última análise, feriram toda estimativa de doutrina existente ou eficiência técnica desejada”.

Segundo Marco Antonio Villa,

as baixas desde o início da campanha são extremamente altas: de 27 de junho a 18 de julho, foram 3 mil homens colocados fora de combate”

sendo que em 27 de julho,

no hospital improvisado no Alto da Favela, havia 1.650 feridos, a maioria em estado grave” (VILLA, 2025, p. 159; 156).

 Um mês antes, em 25 de junho, segundo informação do correspondente de guerra do Jornal do Comércio, o major Manoel Benício, a estatística era parecida: haviam 1.862 feridos, nos hospitais de sangue do Alto da Favela (PIEDADE, 1901, p. 25).

As baixas atingiram os próprios médicos da expedição: 

por exemplo, o capitão médico Dr. Alfredo Augusto Gama, morto em combate com o corpo carbonizado em virtude da explosão de um barril de cartucho de canhão no dia 29 de junho de 1897  (NERY, 1898, p. 91)

Da mesma forma, indo em socorro ao coronel Carlos da Silva Telles, comandante da 4ª brigada, para atendimento médico, quando da tentativa de assalto ao arraial em 18 de julho, o doutor João Tolentino Barreto de Albuquerque

foi atingido por uma bala que o matou no meio do caminho” (MONIZ, 1987, p. 198). 

Neste combate de 18 de julho, se por um lado, foi conquistada uma pequena parte do território do arraial (cerca de 300 casas), por outro, teve como resultado mais de 1.000 baixas entre os atacantes.

Em decorrência desta situação médica calamitosa, entre julho e agosto, uma série de medidas e iniciativas são realizadas a fim de agenciar apoios e reforços, buscando evitar mais uma derrota das forças governamentais: 

(1) o deslocamento do Ministro da Guerra para o campo de operações, fixando centro de comando na base em Monte Santo; 

(2) a organização, no Rio de Janeiro, da Brigada Girard, com 1.500 soldados e o envio de efetivos das Polícias Militares de São Paulo, Pará e do Amazonas; 

(3) a criação dos hospitais provisórios pela Faculdade de Medicina da Bahia; 

(4) a fundação do Comitê Patriótico da Bahia e a instalação de enfermarias em Queimadas e Cansanção sob a tutela desta entidade;

(5) o envio de duas turmas de estudantes de medicina para o sertão baiano, com vistas a prestar auxílio ao serviço médico-militar.

No artigo anterior, tratamos da criação dos hospitais provisórios. Neste, do serviço médico-hospitalar promovido pelo corpo militar do Exército nas quatro expedições. 

Nos próximos, discorreremos sobre as ações promovidas pelo Comitê Patriótico e sobre o envio dos estudantes de medicina para o campo de batalha.

Marcos Roberto Brito dos Santos

Marcos Roberto Brito dos Santos é doutor em História pela UFBA

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MACEDO SOARES, Henrique Duque-Estrada de. A Guerra de Canudos. Rio de Janeiro: Typ. Altina, 1902.

MILTON, Aristides. A Campanha de Canudos. Brasília: Senado Federal, 2003.

MONIZ, Edmundo. Canudos: a luta pela terra. São Paulo: Global, 2001.

NERY, Constantino. A quarta expedição contra Canudos. Pará: Pinto Barbosa & Cia, 1898.

PIEDADE, Lélis. Histórico e Relatório do Comitê Patriótico da Bahia. Salvador: Litho-Typ e Enc. Reis & C., 1901.

SILVA, Alberto Martins. Médicos em Canudos. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, 156 (386), 9-51, jan/mar 1995.

VILLA, Marco Antonio. Canudos: o povo da terra. São Paulo: Planeta, 2025.

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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