Fundado em novembro de 2011

O motor bateu-Dalton Rosado

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 9 leitura mínima

Ouça aqui o áudio do nosso Post 

Receba regularmente nossas publicações e assista nossos vídeos assinando com seu e-mail em utopiasposcapitalistas.Não esqueça de confirmar a assinatura na sua caixa de mensagens

Dalton Rosado usa a imagem do motor que bateu para afirmar que o capitalismo perdeu sua força interna. A automação corrói a fonte de valorização ao reduzir o trabalho vivo, base da produção de valor. O sistema passa a depender de endividamento e financeirização, enquanto a queda da taxa de lucro revela um impasse estrutural. As elites oscilam entre saídas autoritárias e formas de controle que preservem privilégios. Para o autor, não há reforma possível. A saída exige romper com a forma mercadoria e construir um novo pacto social emancipado da lógica do valor.

O capitalismo é um sistema parasitário. Como todos os parasitas, pode prosperar durante certo período, desde que encontre um organismo ainda não explorado que lhe forneça alimento.”

Zygmunt Bauman

 O motor bateu-um texto de Dalton Rosado

Na linguagem popular a expressão “o motor bateu” significa que a força motora interna dos pistões que movem o veículo entrou em pane. A analogia metafórica com o motor a combustão que colapsa pela falta de conjugação sincronizada eficaz dos seus elementos internos cabe perfeitamente para o sentido funcional do capitalismo na era da terceira revolução industrial da microeletrônica/cibernética. 

Simplesmente a força propulsora do capitalismo, a extração de mais valia, cedeu lugarem maior proporção à uma produção mecânica de mercadorias que mata a galinha dos ovos de ouro: a capacidade de reprodução aumentada do volume global do valor, objeto teleológico vazio de sentido humano do capital. 

Tangidos pela guerra concorrencial de mercado, os produtores de mercadorias buscam a eliminação dos custos de produção para ganhar a competição autofágica capitalista e mecaniza a produção visando a obtenção de aumento da produtividade e qualidade das mercadorias, e com isso  reproduzir o seu capital de modo aumentado.

​Com tal procedimento comum a todos os produtores de mercadorias (sejam privados ou estatais no mercado aberto; no mercado estatal monopolista fechado ocorre a estagnação e obsolescência) surge um paradoxo: 

– Cada produtor individualmente vitorioso aumenta seus lucros individuais e amplia sua capacidade de produção e abrangência de mercado e passa a ter a empáfia própria ao “macho alfa capitalista” concentrador da riqueza abstrata e material coletivamente produzida;

– Mas o lucro individual obtido conspira contra o aumento da massa global de valor (e ele não está nem aí para isso) em face de que há uma redução paulatina do valor (e preço, que são coisas distintas, mas correlatas) das mercadorias, reduzindo a capacidade de lubrificação do motor capitalista do ponto de vista da sustentabilidade (mesmo que excludente como sempre fora) darelação social sob seus critérios.  

Então, a engrenagem funcional do capitalismo mostra fissuras irremediáveis sob sua lógica que apontam para impasses sociais intransponíveis de natureza econômica que se interligam e têm profundas interferências negativas na vida social. 

A tese marxiana da redução gradual da taxa de lucros no capitalismo da sua fase desenvolvida, por exemplo, interliga-se com a necessidade de investimentos cada vez maiores em capital fixo (instalações, máquinas, pesquisas, insumos) em detrimento de investimentos em capital variável (trabalho abstrato, salários) sem que haja uma exata correspondência de geração de lucros que remunerem os juros incidentes sobre as dívidas.

Esse fenômeno tem provocado uma rolagem de dívidas do tipo juros compostos (juros que se somam a outros juros) tanto na área do capital privado, em maior volume, mas também no capital público estatal, e de modo constante e irrefreável. 

É evidente que esse processo caminha para uma hora da verdade que já se apresenta sob várias formas (retaliação do mercado sob a forma de tarifas alfandegárias, redução de subsídios à produção nacional, emissão de moeda sem lastro, emissão de títulos da dívida para cobrir títulos vencidos, inflação, redução de direitos trabalhistas, desemprego estrutural que atinge a todos e principalmente aos mais jovens, processo migratório internacional em busca de oportunidades nas decadentes ilhas de prosperidade ainda existentes, etc.). 

Diante disso tudo vem o medo sobre o futuro; o apego ao que está posto mesmo que esteja nomódulo disfuncional; e a inevitável pergunta: “o que fazer?”

A transição para um modo de produção que satisfaça a necessidade de consumo e serviços de todos de modo confortável, seguro e sustentável está se impondo inexoravelmente em face de que o capitalismo e seu estado mantenedor está excluindo da produção e do consumo grande parte da população.

Os grandes capitalistas (e agora até há bilionários capitalistas assumindo a gerencia do estado burguês, como Donald Trump), como Elon Musk, Zhang Yiming (empresário chinês dono da Bitedance controladora do Tik Tok, com fortura calculada em US$ 66,5 bilhões), para citar apenas três exemplos ilustrativos, sabem que é insustentável o prolongamento da agonia capitalista diante do abismo e querem encontrar formas de continuidade dos seus poderios econômicos e políticos; então propõem dois tipos de saída:

– a guerra de extermínio dos seres considerados supérfluos para a manutenção do capitalismo, já em curso;

– a instituição de um “voucher sobrevivência” sob controle estatal forte que conserve os seus privilégios capitalistas dos que sobreviverem na guerra concorrencial de mercado e dos governantes políticos que lhes servem.    

A nós, os emancipacionistas, cabe a luta pela ruptura com o modo de produção de mercadorias e contra qualquer hipótese de controle político burguês superveniente ao colapso iminente pela via da conscientização da força e poder da mobilização popular imbuída de um propósito socialmente transformador. 

Tal postura emancipatória popular consiste na apropriação dos meios de produção de bens e serviços fora da lógica da mercadoria e do valor monetário com a corresponde instituição de uma ordem jurídica e constitucional de base na qual a coletividade possa arcar com os ônus e os bônus de suas decisões sob critérios de partilha pré-estabelecidos.

Se as revoluções russa e chinesa, países continentais que fizeram as revoluções ditas proletárias em nome do marxismo, tivessem caminhado no sentido da superação das categorias capitalistas (principalmente superado o trabalho e o trabalhador, células mater da produção do valor capitalista, ao invés de incensá-lo), teriam dado um bom exemplo ao mundo ao invés de enxovalhar o ideal comunista. 

Disse Karl Marx em definição de boa percepção, que “é o modo de produção que define o caráter da sociedade”. A alteração cada vez mais substancial do modo de produção, como está a ocorrer, provoca a necessidade de um novo caráter social que lhe seja coadunado, ou seja, que a lógica capitalista e suas contradições internas irresolúveis sejam superadas a partir de um novo contrato social.

Há que se adotar um novo contrato social cujo caráter supere a forma mercadoria e sua compra e venda sem a volta do antigo escambo (que já era mercadoria); a mercantilização pelo escambo moderno (a compra e venda) é o mecanismo pelo qual se materializa a parte final do processo de produção capitalista em fase de metástase interna.

Há que se estabelecer o critério da produção e corresponde distribuição partilhada que abrirá novos horizontes de possibilidades de uma vida social cômoda e sustentável, superando-se o famigerado critério da viabilidade econômica que estabelece limites de produção ora intransponíveis. 

Caminhamos para um desfecho que só a mobilização popular consciente poderá conduzir a humanidade à sua emancipação plena. 

 Fortaleza, fevereiro de 2026

Dalton Rosado.      

Dalton Rosado é carioca do Rio Comprido,advogado, escritor, articulista de blogs e jornais, e desde longa data atuou contra a ditadura militar. Foi fundador do PT e do Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Arquidiocese de Fortaleza.

Loading

Compartilhe este artigo
Seguir:
Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Ensaios e Textos Libertários

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading

Ensaios e Textos Libertários