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Em Entre o Rio e a Utopia, Silvie Armand atravessa o Atlântico e desembarca em Macapá movida não apenas por uma pauta jornalística, mas por uma inquietação mais funda. Entre o reencontro com Olga, as conversas à beira do Amazonas e os sinais de transformação trazidos pela Petrobras, a crônica captura o instante delicado entre chegada e travessia. É um texto sobre deslocamento, expectativa e busca — o momento em que a margem deixa de ser metáfora e se torna destino real.

Entre o Rio e a Utopia-uma crônica de Silvie Armand
A viagem foi longa demais para o corpo, mas insuficiente para o pensamento. Saí da Europa ainda envolta pelo inverno e fiz escala em Belém, onde o ar já tinha outra densidade. Havia um cheiro de água larga, de terra quente, de algo que não cabe nos aeroportos climatizados do norte. Quando o avião pousou em Macapá, senti que atravessava não apenas um oceano, mas uma camada do mundo que sempre me foi distante.
Olga me esperava no aeroporto. O abraço foi longo, desses que não precisam de explicação. Ela já não se parecia com a ativista urbana que conheci em São Paulo, anos atrás, em debates apressados e salas fechadas. Havia nela agora uma presença que vinha da luz. Era uma indígena! A pele queimada de sol, o vestido vibrante que acentuava o tom moreno, os cabelos mais soltos. Não era uma mudança estética. Era uma mudança de chão. Olga parecia ter se deixado atravessar pela paisagem.
No caminho até o hotel, falamos sem pausa. Recordamos amigos em comum, histórias antigas, desilusões que hoje soavam quase suaves. Macapá passava pela janela com sua simplicidade direta. Mototáxis, fachadas coloridas, o calor subindo do asfalto mesmo ao anoitecer. Havia algo de inaugural em cada esquina. Eu escutava como quem tenta reaprender a geografia.
Depois de um banho demorado e de uma refeição simples no restaurante do hotel, saí novamente para encontrar Olga e seu companheiro Mateus em um trailer à beira do Amazonas, no centro da cidade. O lugar era simples, mesas de plástico, luz amarela, o rio escuro logo adiante respirando como um animal antigo. Mateus era agradável e exalava vitalidade. Atencioso, logo me senti a vontade com eles.. Conversamos como velhos amigos que atravessaram mundos distintos. Falamos do passado, das ausências, das escolhas que nos trouxeram até ali. Mas falamos também do presente. Olga contou que a região já sentia os primeiros movimentos da Petrobras. Técnicos chegando do Sul, estrangeiros sondando oportunidades, pousadas ficando mais cheias, conversas sobre contratos e empregos circulando pelos bares. Havia um cheiro de mudança no ar, uma expectativa inquieta que não era apenas econômica. Macapá parecia suspensa entre promessa e receio.
A conversa foi longa e afetuosa. Ao final, combinaram de me encontrar novamente dali a dois dias. Até lá, reuniriam informações mais precisas sobre a logística da viagem até Oiapoque e a chegada à Vila da Utopia. Mateus era minucioso. Não queria falhas na viagem de barco .Precisavam verificar o nível do rio, falar com contatos ribeirinhos, ajustar datas. Enquanto isso, disseram que eu deveria caminhar pela cidade, escutar as ruas, deixar que Macapá me atravessasse antes de entrar na floresta.Fiquei ansiosa. Embora já experiente em minhas viagens a África e Ásia sentia ali algo de inédito .Minha alma queria aquilo.
Voltei ao hotel com a sensação de que esta viagem já havia começado, antes mesmo da travessia fluvial. Pensei no percurso que me trouxe até aqui. Deixei um jornal que já não comportava minhas perguntas. Afastei-me de um mundo que confundia prudência com silêncio e crítica com inconveniência. Vim como jornalista autônoma, mas também como alguém que procura outra forma de respirar.
Esta primeira noite em Macapá é apenas chegada. O rio está ali, imenso e silencioso, como uma promessa que não se apressa. Não sei o que encontrarei na Vila da Utopia. Não sei se haverá respostas ou apenas novas perguntas. Sei apenas que, pela primeira vez em muito tempo, não estou tentando explicar o mundo a partir do centro. Estou disposta a escutá-lo a partir da margem.
E isso, para mim, já é uma mudança profunda.
Macapá, noite úmida
Silvie Armand

Silvie Armand é poeta, ensaísta e cronista, transita entre jornalismo cultural e escrita experimental, unindo crítica e criação.
Atualmente vive em Lisboa e é correspondente do Blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários
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