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Umbandas e o Brasil das frestas-Paulo Baía

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 12 leitura mínima

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Neste ensaio, Paulo Baía propõe um olhar pouco convencional sobre o país ao comentar o livro Umbandas: uma história do Brasil, de Luiz Antônio Simas Em vez do Brasil narrado pelos palácios e instituições, surge o Brasil das encruzilhadas, dos terreiros e das culturas populares. A partir da umbanda entendida no plural, o autor revela um país marcado por conflitos históricos, mestiçagens e invenções culturais. O texto convida o leitor a perceber como essas tradições guardam memórias da escravidão, da colonização e das desigualdades que ainda atravessam a sociedade brasileira. Um retrato sensível e crítico de um Brasil que continua se reinventando nas suas próprias frestas.

Umbandas e o Brasil das frestas-uma resenha de Paulo Baía

Ler Umbandas: uma história do Brasil, de Luiz Antônio Simas, é aceitar um convite raro: olhar o Brasil não a partir dos palácios, dos decretos ou das atas parlamentares, mas a partir das encruzilhadas. Não as encruzilhadas abstratas das teorias, e sim aquelas onde se acendem velas, se fazem pedidos, se cruzam caminhos e destinos. O livro é uma narrativa histórica, mas também é uma declaração de método. O país pode ser lido por suas frestas.


Simas escreve umbanda no plural. Umbandas. A escolha não é mero detalhe estilístico. É um gesto sociológico. Ao pluralizar, ele recusa a tentação classificatória que tanto seduz o pensamento moderno. Não há uma essência fixa, não há um modelo puro, não há uma doutrina única. Há práticas, há experiências, há terreiros, há variações. Há uma constelação de sentidos que se articulam na história brasileira como resposta à violência colonial, à escravidão e às tentativas reiteradas de disciplinar corpos e crenças.


O livro não é um tratado dogmático. É uma travessia histórica contada com linguagem de cronista. Simas combina erudição com oralidade, pesquisa com memória, documento com chão de terreiro. Ao fazer isso, recoloca no centro da narrativa nacional os saberes que foram tratados como superstição, feitiçaria ou atraso. A umbanda aparece como síntese tensa de matrizes africanas, indígenas e europeias, mas também como criação urbana do início do século XX, atravessada por disputas de legitimidade, por tentativas de embranquecimento simbólico e por movimentos de reafricanização.


O Brasil que emerge dessas páginas é mestiço, multicultural, multirracial e sincrético. Não como slogan turístico, mas como processo histórico conflitivo. A mestiçagem aqui não é harmonia idílica. É fricção. É convivência forçada, é negociação simbólica, é conflito que gera cultura. Nesse ponto, o livro dialoga com reflexões de Darcy Ribeiro, quando este pensa o povo brasileiro como resultado de encontros traumáticos e criativos. Também conversa com Sérgio Buarque de Holanda, ao deslocar o olhar para as formas de sociabilidade que escapam às instituições formais e se constroem na vida cotidiana.


Simas não idealiza. Ele sabe que o mesmo país que cria caboclos e pretos velhos como entidades de sabedoria popular é o país que extermina indígenas e encarcera jovens negros. É o país marcado pelo racismo estrutural, que organiza desigualdades, distribui privilégios e naturaliza violências. A umbanda, nesse sentido, funciona como arquivo da memória subalterna. Cada entidade é um vestígio histórico. O preto velho carrega a lembrança da escravidão. O caboclo guarda a violência da colonização. A pomba gira revela as ambiguidades morais de uma sociedade que reprime e deseja ao mesmo tempo.


Há, no livro, um diálogo implícito com formulações de Stuart Hall sobre identidade como processo e não como essência. As umbanda não são identidade fixa. São movimento. São tradução cultural contínua. A cada contexto histórico, reorganizam símbolos, reconfiguram hierarquias espirituais, absorvem linguagens. Essa plasticidade não é fraqueza. É estratégia de sobrevivência diante de um Estado que muitas vezes reprimiu terreiros e perseguiu práticas religiosas negras.


A narrativa também se aproxima de intuições de Édouard Glissant, quando este propõe a ideia de crioulização como dinâmica aberta, imprevisível, marcada por encontros que produzem algo novo sem apagar as diferenças. O Brasil que Simas descreve é um laboratório de crioulização. As umbanda são expressão dessa lógica relacional. Nelas, santos católicos convivem com orixás, entidades indígenas e espíritos de malandros urbanos. Não há pureza. Há composição.


Ao percorrer a formação histórica da umbanda, Simas revisita o contexto da Primeira República e das primeiras décadas do século XX. O país se urbaniza com rapidez. Cidades como Rio de Janeiro e São Paulo crescem de forma vertiginosa. A imigração é intensa. Milhares de europeus desembarcam, europeus de toda a Europa do leste ao oeste, italianos, portugueses, espanhóis, alemães, poloneses e libaneses. Ao mesmo tempo, chegam asiáticos, sobretudo japoneses, que se estabelecem em São Paulo, no Paraná, no Rio de Janeiro e também na Região Amazônica, onde participam de projetos agrícolas e dinâmicas comerciais. Esse mosaico humano altera o tecido urbano, reconfigura bairros, produz novas sociabilidades.


Nesse ambiente de transformação acelerada, as umbanda ganham forma. São religiões urbanas que dialogam com operários, trabalhadores informais, pequenos comerciantes, migrantes internos e estrangeiros. A pluralidade étnica das cidades reforça a dinâmica sincrética. O Brasil do início do século XX não é apenas herdeiro da escravidão recém abolida. É também território de imigrações diversas que se cruzam nas ruas, nos cortiços, nos subúrbios. A umbanda nasce nesse caldo histórico, atravessada por tensões raciais e por projetos de modernização que muitas vezes buscavam embranquecer simbolicamente a nação.


Simas mostra como setores intelectualizados tentaram codificar a umbanda, aproximando-a do espiritismo kardecista, organizando federações, criando estatutos. Essas tentativas revelam disputas internas e externas. De um lado, o desejo de reconhecimento público. De outro, o risco de apagar matrizes afroindígenas para torná-la mais aceitável a uma sociedade marcada pelo racismo estrutural. Ao mesmo tempo, registra as resistências populares que mantiveram a diversidade ritual e a centralidade da experiência comunitária.


O livro é sociológico porque recusa a visão folclórica. Não trata a umbanda como curiosidade exótica. Trata-a como chave interpretativa. Ao observar as práticas de proteção, os patuás, as oferendas de fim de ano, Simas sugere que grande parte da cultura brasileira se move em registros simbólicos que escapam à racionalidade burocrática. O país formal convive com o país encantado. O cartório convive com o despacho na encruzilhada.


Essa convivência revela um traço estrutural. O Brasil é um espaço onde a modernidade nunca eliminou o sagrado popular. A urbanização não dissolveu as cosmologias. Ao contrário, produziu novas formas de espiritualidade híbrida. Nesse aspecto, a leitura dialoga com Néstor García Canclini, que pensa as culturas híbridas como resultado de processos desiguais de modernização na América Latina. A umbanda surge como religião urbana, mas enraizada em matrizes ancestrais que resistem às tentativas de homogeneização cultural.


Há também uma dimensão política no ensaio de Simas. Ao reivindicar as umbanda como parte constitutiva da história do Brasil, ele confronta narrativas que privilegiam heranças europeias e silenciam saberes afroindígenas. O livro é, nesse sentido, uma intervenção no debate público. Ao afirmar a legitimidade dessas tradições, ele questiona a intolerância religiosa, denuncia as violências sofridas por terreiros e insere a discussão no campo mais amplo das desigualdades produzidas pelo racismo estrutural.

A linguagem é lírica, mas o argumento é consistente. Simas articula fontes históricas, memórias pessoais e reflexão crítica. Ele escreve como quem conta uma história à beira da calçada, mas o que está em jogo é uma teoria do Brasil. A ideia de que o país pode ser compreendido a partir de suas margens. Que as encruzilhadas são mais reveladoras do que os salões oficiais. Que a cultura popular não é resíduo do passado, e sim laboratório de futuro.


Ao final da leitura, fica a impressão de que as umbanda funcionam como metáfora ampliada do próprio país. Um território de encontros improváveis, de tensões permanentes, de criatividade diante da adversidade. Um Brasil que exclui e inventa. Que violenta e celebra. Que tenta normatizar e vê escapar pelas frestas aquilo que insiste em viver.


A resenha poderia encerrar com uma síntese conceitual. Mas talvez seja mais fiel ao espírito do livro terminar com uma imagem. Uma encruzilhada ao entardecer. Velas acesas. Pessoas de origens distintas dividindo o mesmo chão. Ali estão descendentes de africanos escravizados, indígenas sobreviventes, imigrantes europeus e asiáticos, migrantes nordestinos, trabalhadores urbanos. Ali está o Brasil que Simas descreve. Não o Brasil idealizado. O Brasil real, contraditório, mestiço, multirracial, multicultural, sincrético, atravessado por desigualdades históricas e por uma impressionante capacidade de reinvenção.


Ler Umbandas: uma história do Brasil é reconhecer que a história nacional não cabe apenas nos arquivos oficiais. Ela pulsa nos terreiros, nas festas populares, nos rituais de proteção, nos gestos cotidianos que misturam fé, memória e invenção. É um ensaio sociológico em forma de crônica. Um convite a olhar o país com outros olhos. Não para romantizá-lo, mas para compreendê-lo em sua complexidade viva, marcada por conflitos, por mestiçagens e por lutas contínuas contra as engrenagens do racismo estrutural que ainda moldam a sociedade brasileira.

Rio de Janeiro, Marco 2026

Paulo Baía

Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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