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O fundamento da crise; o pressuposto da guerra-Dalton Rosado

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 10 leitura mínima

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Neste ensaio, Dalton Rosado desenvolve o raciocínio de que a a guerra entre EUA, Israel e Irã revela mais do que um conflito regional: ela expõe a crise estrutural do capitalismo.A queda da produção de valor, a automação e o endividamento global indicam um sistema em esgotamento.Nesse cenário, segundo ele,a guerra surge como tentativa de sustentar uma hegemonia em declínio, especialmente dos EUA.A fragilidade do dólar e as tensões energéticas reforçam esse quadro de instabilidade.Não se trataria aqui, , então, de falhas políticas isoladas, mas de contradições das próprias categorias do capital.E conclui: sem superar o sistema produtor de mercadorias, a crise tende a se aprofundar! Um importante tema para reflexão.

O fundamento da crise; o pressuposto da guerra-um ensaio de Dalton Rosado

Essa guerra do Irã é sem fim e com objetivos pouco claros; a Alemanha não se tornará parte dela.

Friedrich Merz-atual chanceler da Alemanha

​Nada mais exemplar de que há uma crise social patrocinada pela disfunção dos fundamentos que regem a atual relação social do que o impasse e pressupostos da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã com reflexos na depressiva economia mundial, que agora e por ela se agrava substancialmente.

As contradições do sistema produtor de mercadorias afloram de modo irremediável seja pela redução da massa do valor e preços da produção e comercialização destas, ou ainda pelo aquecimento global provocado pela irracionalidade da queima de combustíveis fósseis capitaneada pelas duas locomotivas do capitalismo mundial: Estados Unidos e China.  

Paradoxalmente, é a escassez do petróleo em face do fechamento do Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, por onde passa o petróleo produzido no Oriente Médio, aquilo que está sendo objeto mais atual e visível de um modelo de relação social saturado que clama por soluções alternativas a ele.

O feitiço virou contra o feiticeiro. O sistema produtor de mercadorias tem no mercado o altar no qual se opera uma guerra encarniçada denominada concorrência comercial na qual poucos sobrevivem à autofagia da disputa; nela quem produz mais com menor custo de produção sai vitorioso; aquilo que fez a pujança da Europa e Estados Unidos nas primeiras revoluções industriais, é justamente aquilo que inviabiliza agora a manutenção de suas riquezas.

Manter privilégios pela força militar é a ordem trumpista que desmascara o hipócrita sentimento de civilidade da democracia burguesa; há, portanto, uma guerra híbrida, mercantil e bélica como resultante da crise de fundamentos das categorias capitalistas.

É na guerra concorrencial de mercado que se estabelece mais um dos muitos paradoxos da lógica do sistema capitalista, porque a redução de custos implica na redução de valor contido em cadamercadoria, e com isso decresce a massa global de valor e o fluxo monetário representativo de valorválido (substituído  pelas emissão de moedas fiduciárias ditas fortes sem valor) anunciando um colapso inevitável no fim da linha.

O capital, tal como a água numa superfície que busca a acomodação que lhe é própria pela gravidade, migra para as zonas de salários baixos buscando sobrevivência. A China é o melhor exemplo desse processo ao abrigar em seu solo as grandes multinacionais capitalistas em busca do oxigênio (leiam-se extração de mais-valia e lucro).

É nesse contexto que entra a terceira revolução industrial da microeletrônica/cibernética que se configura como resultante do estágio evolutivo da guerra concorrencial de mercado e que promove a fase terminal do capitalismo provocada pela substituição do trabalho vivo (abstrato e assalariado) pelo trabalho das máquinas (trabalho morto) em maior parte.

Mas o que mais inquieta a visão emancipatória anticapitalista é o fato de que a grande maioria das proposições de saída da crise busca na permanência da causa da crise (o sistema produtor de mercadorias) a solução da dita cuja, como se produzir mercadorias fosse um dado ontológico da existência humana sem o qual a humanidade não sobreviveria. Traduzindo: busca-se na causa do mal a solução do mal, algo assim como usar a droga para a cura dos males causados pela própria droga.

Em geral, as proposições reformistas atribuem aos erros administrativos e políticos a falência do sistema produtor de mercadorias, sem atinar para o fato de que se trata de um modo de relação social contraditório, excludente, escravista, e que esgotado, saturado, tende à autodestrutibilidade.  

Nesse contexto a ação belicosa de um país que sempre se beneficiou com as guerras, principalmente após o fim da segunda guerra mundial em 1945, com a instituição do dólar como moeda global e num país cuja infraestrutura industrial e militar ficou intacta, agora tem contornos diferenciados. A guerra de escolha, tangida pelo desespero da decadência econômica estadunidense causada pela contradição dosfundamentos da economia globalizada, já não é capaz de render os mesmos frutos. 

Os países do CCG – Conselho de Cooperação do Golfo Pérsico, Arábia Saudita, Barein, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Omã (só ficam de fora da confraria o Irã e o Iraque), dominados pelos Estados Unidos que por lá mantém bases militares, estão sendo atacados por um inimigo inusitado: o Irã, que historicamente foi respeitado por sua cultura e grandeza territorial, populacional, cultural e religiosa, e descobrem que o seu dominador yankee e guardião comprador do petróleo que produzem é um leão sem dentes.

A guerra se alastrou de modo mal calculado por Washington e o poderio estadunidense no Oriente Médio, que já definha na Ásia com a ascensão econômica chinesa e deslocamento industrial mundial para outros continentes fora da América do Norte e Europa, evidenciou a percepção do que se queria manter escondida: o dólar, a moeda global, meramente fiduciária, não vale o seu prestigio e credibilidade, e tende a ser substituída por um fundo constituído por uma cesta de moedas internacionais mais próximas do valor que representam ou querem representar.

A revogação do dólar como moeda fiduciária internacional: esse é o fator que corresponde a uma estaca a furar o coração do império decadente. 

O prolongamento dessa guerra deve apressar o que os estudos macroeconômicos estão a evidenciar: não há extração de mais valia e lucros na economia mundial capazes de adimplir sequer os juros sobre a dívida mundial privada e pública no médio prazo, e a queda do PIB mundial ocasionada pelo conflito bélico que se alastra pode provocar a maior crise econômica da história do capitalismo, capaz de fazer a depressão de 1929/1930 parecermera e localizada “crise de espasmo do capital capaz, como foi, de ser remediada pelo estado e pela guerra”. Agora o buraco é mais embaixo.

Assim, a invasão do Irã representa um tiro no pé dado por um bufão arrogante que colocou contra os Estados Unidos toda a humanidade, incluindo-se nessa unanimidade até antigos aliados que perceberam a insensatez de uma guerra aérea que mata civis inocentes e não tem o condão de dominar as vítimas dos ataques covardes perpetrados à distância. 

Não há saída da crise dentro dos fundamentos que a geraram; por favor senhores da direita e da esquerda: parem de buscar soluções dentro do sistema produtor de mercadorias; ou superamos as categorias capitalistas ou elas nos destruirão como espécie.  

Donald Trump está num beco sem saída, inclusive porque na sua retaguarda é alvo de uma impopularidade poucas vezes vistas para um mandatário estadunidense, e esse é um risco para a humanidade diante do poderio bélico militar dos Estados Unidos com um louco megalomaníaco a controlar o botão vermelho ao lado assessores imberbes, incultos e igualmente narcisistas. 

A humanidade e, principalmente, o povo dos Estados Unidos, têm que conter esse projeto neonazista no seu nascituro.

 Fortaleza,março de 2026

Dalton Rosado.

Dalton Rosado é carioca do Rio Comprido,advogado, escritor, articulista de blogs e jornais, e desde longa data atuou contra a ditadura militar. Foi fundador do PT e do Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Arquidiocese de Fortaleza.

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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