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O ensaio Caleidoscópio, de Alaor Júnior, é uma delicada reflexão sobre a arte como dimensão essencial da existência humana. A partir de uma narrativa sensível e poética, o autor entrelaça memória, infância e experiência urbana no cenário de Botafogo Ao dar voz a um edifício, o texto constrói uma perspectiva original sobre o tempo, os afetos e a formação do olhar sensível. As imagens de luz e sombra evocam a infância como espaço de criação e descoberta, onde a imaginação transforma o cotidiano em arte. Mais do que um relato, trata-se de um convite à contemplação e à valorização da sensibilidade. Um texto que nos lembra que viver, em sua plenitude, é também um ato estético.

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Caleidoscópio-um ensaio de Alaor Junior
Eu – aqui, imponente, desfrutando do meu prumo retificado, apreciando os confrades do entorno e a arquitetura junto ao mar, me questiono: o que seria da vida sem a arte? É bem isso, não consigo capturar a essência existencial, sem o atravessamento desta dama, fina tapeçaria tecida cuidadosamente com infindos alinhavos, os tais “sobe e desce” que trazem aos homens a maturidade, e que – pela ótica refinada do tecelão – dão robustez ao todo: a dita identidade. Da mesma forma, para que algo carregue o conceito intrínseco de arte – e aqui cabe um universo sensorial, é necessário que na obra-expressão pulse a vida. Não há arte sem afeto, sem sensibilidade, uma vez que esta é pauta de visceralidade. Há como ser diferente?
Eu mesmo acredito que não. E ainda me arrisco a afirmar que a própria ideação é, em si, uma arte, principalmente para aqueles que se permitem os vôos dos devaneios criativos, assim como os diálogos, a ourivesaria das palavras, trazendo o sentido empático do aconchego, da proximidade, do prazer em compartilhar, dividir para somar, multiplic[ação]. Como ouço palavras em minhas vísceras, é isso! Converso com uma velha casa vizinha, de telhado colonial, sobre arte, experiências de vida, pombos ousados que se apropriam das nossas estruturas e ações do tempo. Em determinado momento, numa associação livre, ela me levou a uma recordação de infância, na qual vi e senti nas entranhas,toda uma poética, que desaguou neste texto.
Botafogo, zona sul carioca, décadas atrás, eu já despontava como um edifício imponente.Recebia nas faces de esquinas, brisas frescas da praia deslizando em minhas formas, e elas vinham como um hálito de maresia, acarinhando os grandes olhos da fachada, olhos convexos, envidraçados,dispostos em semicírculo, que, no balé arquitetônico, quebravam o classicismo das quinas e davam ao interior dos cômodos o gostoso ar das visões dos mezaninos ou varandas entregues aos ares urbanos.Sou lembrança, ainda presente, nas vivências de uma menina de outrora: havia ali um quarto, especial aos seus olhos ingênuos, que por tudo se encantavam e que por pouco se espantavam. Pequenina, ela tentava se situar no mundo, vencer meus medos e anseios. Por meus olhos vítreos as preces iam longe,assim como os desejos mais simples eram erigidos à figura do Redentor, que se apresentava num abraço acolhedor, silencioso, pai protetor, encimando o Corcovado.
Mas à noite, ao apagar das luzes, assim que se deitava, é que a mágica acontecia, no órgão que me apetecia, o quarto dos sonhos. Encasuladas em lençóis, borboletas embrulhadas em sedas. Os medos eram quebrados com a prima, na cama ao lado, compartilhando do espetáculo. Era ali que o vôo começava. Os movimentos dos faróis ganhando as curvas da cidade projetavam, pelas lentes das janelas, íris cansadas do dia, na parede-pele maquiada por fina massa, um mundo de imagens filtradas por cortinas esvoaçantes. Isso aguçava a explosão criativa de quem desfrutava do desfile de ilusões,como um carrossel inusitado, suas emoções atravessavam o concreto do meu ego.
Naquele momento, o êxtase pelas imagens mergulhava cada uma delas no seu universo particular, os diálogos eram poucos. Estavam arrebatadas pela viagem, pela arte. Subjetividades buscavam interpretações, formas sombreadas, intensidade de feixes, e, às vezes, coloridossurpreendentes abriam as portas ao caleidoscópio das percepções. Ao contrário dos meus janelões, sempre alertas e abertos às experiências do mundo, os olhos das pequenas iam se cerrando, cediam ao embate com o sono, impregnados de fascínio, entregues ao mundo de Morfeu, levando ao profundo do eu, toda a mágica do onirismo. Reflexos companheiros, aquelas imagens projetadas marcaram, de alguma forma, um período que foi singular e não deve ser apagado, posto residir, literalmente, na luz. Naquela época, já era a tal da “Dona Arte”nos iluminando os sonhos…E estes certamente aindacontinuam, ali.
Alaor Junior
Saquarema, março de 2026

Alaor Junior ė Psicólogo e embasa sua abordagem clínica no viés psicanalítico. Especializou-se em psicologia hospitalar. Atualmente mora em Saquarema, RJ, onde divide horários entre o atendimento clínico e o exercício literário. Assinou enredos no carnaval carioca e catarinense, publicou contos em coletâneas, participa de oficinas de escrita e rodas de leitura.E autor do livro “Invencionismos,Pitoresquices e Fantaciosidade” e “Em Cont(r)os Bordejantes”

Entre a Luz e o Espetáculo: a Contemplação como Fissura
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O ensaio Caleidoscópio, de Alaor Júnior, pode ser lido não apenas como uma evocação lírica da infância e da memória, mas como uma experiência estética que tensiona, ainda que de forma silenciosa, os fundamentos daquilo que Guy Debord denominou de A Sociedade do Espetáculo,
Para os situacionistas,movimento crítico do qual Debord foi um dos principais articuladores,capitalismo avançado não se limita à exploração econômica: ele reorganiza a própria experiência sensível, convertendo a vida em representação, em fluxo contínuo de imagens que substituem o vivido. O espetáculo, nesse sentido, não é um conjunto de imagens, mas uma forma de relação social mediada por imagens.
É precisamente nesse ponto que o texto de Alaor adquire densidade crítica.
No interior do quarto infantil, onde fachos de luz atravessam cortinas e se projetam em formas mutáveis nas paredes, instaura-se uma situação, no sentido situacionista do termo. Não se trata de um cenário passivo, mas de uma experiência construída, ainda que espontaneamente, onde o sujeito se apropria do mundo sensível e o recria. A criança não consome imagens: ela as transforma, as reinventa, as vive.
Aqui encontramos um elemento central do pensamento situacionista: a necessidade de romper com a passividade imposta pelo espetáculo e produzir situações capazes de reativar a experiência direta. Se, como afirmava Debord, o espetáculo é a negação da vida vivida, o que vemos em Caleidoscópio é justamente o seu contrário:uma afirmação da experiência como criação.
Essa prática sensível aproxima-se também daquilo que os situacionistas chamavam de deriva: uma forma de deslocamento não utilitário pelo espaço, guiado pelos afetos e pelas intensidades. No ensaio, essa deriva não ocorre pela cidade, mas pelo interior do quarto,um espaço aparentemente banal que se transforma em território imaginário. A parede deixa de ser superfície inerte e se converte em campo de projeção subjetiva; a luz deixa de ser fenômeno físico e se torna linguagem.
Há, portanto, uma subversão da funcionalidade dos objetos e dos espaços, um gesto fundamental na crítica situacionista à racionalidade capitalista, que tende a reduzir tudo ao seu valor de uso ou de troca.
Mas,vamos tencionar um pouco esta leitura!
A experiência descrita por Alaor permanece circunscrita ao plano da subjetividade. Ela não se pretende organizar-se como prática coletiva, nem se converte em intervenção consciente sobre o espaço social mais amplo — como pretendiam os situacionistas em sua crítica radical à vida cotidiana. Trata-se, aqui, de uma resistência micropolítica, que atua na esfera da percepção e da sensibilidade, mas que não enfrenta diretamente as estruturas que produzem o espetáculo.
Ainda assim, seria um equívoco subestimar seu alcance.
Pois é justamente na formação do sensível que se produz a possibilidade de ruptura. Uma sociedade incapaz de imaginar não é capaz de transformar-se. Ao resgatar a potência da experiência estética, Caleidoscópio nos lembra que toda transformação social exige, antes, uma transformação da percepção — uma reeducação do olhar, uma reaprendizagem do sentir.
Nesse sentido, o texto de Alaor Júnior aponta para algo que os próprios situacionistas intuíram, mas nem sempre conseguiram realizar plenamente: a revolução não começa apenas nas ruas, mas na maneira como vemos o mundo. Uma visão de mundo fora dos padrões do capitalismo. Um olhar diferente que questiona a realidade como ela se apresenta para nós, no cotidiano. A negação do que se diz positivo!
E talvez seja aí, nesse espaço íntimo onde a luz se fragmenta e se reinventa, que se anuncie — ainda que de forma tênue — uma verdadeira utopia pós-capitalista.
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há textos que a gente lê… e há textos que atravessam.
O seu não se contenta em ser lido — ele nos ocupa. Vai se alojando devagar, como quem conhece o caminho das frestas, e quando percebemos, já não estamos mais do lado de fora da narrativa. Estamos dentro dela, respirando o mesmo ar, vendo pelas mesmas janelas, sentindo o mesmo silêncio que antecede o sonho.
O que você constrói não é apenas linguagem — é permanência.
Essa “Dona Arte” que você invoca não aparece como conceito distante; ela pulsa, viva, íntima, quase cúmplice. Está nas paredes, na luz que dança, nos medos pequenos que só a infância sabe nomear sem dizer. E talvez seja isso que mais impacta: você não escreve sobre memória — você reabre a memória. Faz com que ela aconteça outra vez, aqui, agora, em quem lê.
Há uma delicadeza brutal no seu texto. Um cuidado que não suaviza, mas aprofunda. Porque ao mesmo tempo em que acolhe, ele também expõe — esse abismo bonito que existe entre o que fomos e o que ainda insiste em permanecer.
E permanece.
Fica nas imagens que não se desfazem quando terminamos a leitura. Fica na sensação de que algo nosso também foi tocado ali — alguma lembrança esquecida, alguma sombra projetada na parede de um quarto antigo que, de repente, volta a se acender.
Você não escreveu apenas um texto.
Você criou um lugar.
E, de algum modo, agora a gente também mora nele.