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14 teses sobre a comuna – Guy Debord

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 10 leitura mínima

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Há que retomar o estudo do movimento operário clássico de uma forma desenfeudada e em primeiro lugar desenfeudada das diversas classes de herdeiros políticos ou pseudo-teóricos, pois não possuem mais que a herança do seu fracasso. Os êxitos aparentes deste movimento são os seus fracassos fundamentais (o reformismo ou a instalação no poder de uma burocracia estatal) e os seus fracassos (a Comuna ou a revolta das Astúrias) são até agora os seus êxitos abertos, para nós e para o futuro.

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A Comuna foi a maior festa do século XIX. Encontra-se nela, na sua base, a impressão de que os insurgentes se converteram em donos da sua própria história, não tanto a nível da decisão política “governamental” como da vida quotidiana, naquela primavera de 1871 (ver o jogo de todos com as armas; o que quer dizer jogar com o poder). É também neste sentido que há que compreender Marx: “a maior medida social da Comuna foi a sua própria existência em actos”.

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A frase de Engels “Olhai a Comuna de Paris. Era a ditadura do proletariado” deve ser tomada a sério, como base para fazer ver o que não é a ditadura do proletariado como regime político (as diversas formas de ditadura sobre o proletariado, em seu nome).

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Todos souberam fazer justas críticas sobre as incoerências da Comuna, sobre a manifesta falta de um aparelho. Mas como pensamos hoje que o problema dos aparelhos políticos é muito mais complexo do que pretendem os herdeiros abusivos do aparelho de tipo bolchevique, é tempo de considerar a Comuna não já como um primitivismo revolucionário de que se ultrapassaram todos os erros, mas como uma experiência positiva na qual contudo não se encontrou nem realizou toda a verdade.

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A Comuna não teve chefes, num período histórico em que a ideia de que era preciso tê-los dominava absolutamente o mundo operário. Assim se explicam de antemão os seus fracassos e êxitos paradoxais. Os guias oficiais da Comuna são incompetentes (tomando como referência o nível de Marx ou de Lenine e inclusivé de Blanqui). Mas em contrapartida os actos “irresponsáveis” desse momento são precisamente o que há-de reivindicar de imediato o movimento revolucionário do nosso tempo (mesmo se as circunstâncias quase o limitaram ao estádio destrutivo – o exemplo mais conhecido é o do insurgente dizendo ao burguês suspeito que afirma que nunca se meteu em política: “é precisamente por isso que te vou matar”.

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A importância vital do povo em armas manifesta-se na prática e nos signos ao longo de todo o movimento. Em conjunto, não se abdicou a favor de destacamentos especializados o direito de impor pela força uma vontade comum. O valor exemplar desta autonomia dos grupos armados tem a sua contrapartida na falta de coordenação, no facto de não ter levado em nenhum momento ofensivo ou defensivo da luta contra Versalhes a força popular a um grau de eficácia militar. Mas não se pode esquecer que a revolução espanhola se perdeu e com ela a própria guerra com a transformação em “exército republicano”. Pode pensar-se que a contradição entre autonomia e coordenação dependiam muito do nível tecnológico da época.

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A Comuna representa até hoje a única realização de um urbanismo revolucionário, atacando in situ os signos petrificados da organização dominante da vida, reconhecendo o espaço social em termos políticos, não crendo que um monumento possa ser inocente. Aqueles que identificam isto com um niilismo de lumpenproletariado, com a irresponsabilidade dos incendiários, devem confessar em contrapartida tudo o que consideram como positivo, a conservar da sociedade dominante (ver-se-á que é quase tudo). “Todo o espaço está já ocupado pelo inimigo… O momento da aparição do urbanismo autêntico será a criação em certas zonas do vazio desta ocupação. O que chamamos construção começa com isso. Pode compreender-se com a ajuda do conceito de campo positivo, cunhado pela física moderna”. (Programa elementar de urbanismo unitário, I.S. n.º 6).

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A Comuna de Paris foi vencida menos pela força das armas que pela força do hábito. O exemplo prático mais escandaloso foi a recusa em recorrer ao canhão para tomar o Banco de França, quando o dinheiro fazia tanta falta. Enquanto durou o poder da Comuna, a banca permaneceu como um enclave em Paris, defendida por algumas espingardas e pelo mito da propriedade e do roubo. Os restantes hábitos ideológicos foram desastrosos sob todos os pontos de vista (a ressurreição do jacobinismo, a estratégia derrotista das barricadas em memória de 48, etc.)

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A Comuna mostra como os defensores do velho mundo beneficiam sempre de um modo ou de outro da cumplicidade dos revolucionários; e sobretudo daqueles que pensam como eles. O velho mundo conserva deste modo bases (a ideologia, a linguagem, os costumes, os gostos) no campo dos seus inimigos e serve-se delas para reconquistar o terreno perdido (só lhe escapa para sempre o pensamento em actos próprio do proletariado revolucionário: a Bolsa ardeu). A verdadeira “quinta coluna” está no próprio espírito dos revolucionários.

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A anedota dos revolucionários chegados nos últimos dias para destruir Notre-Dame e que tropeçam com o batalhão dos artistas da Comuna está cheia de sentido: é um bom exemplo de democracia directa. Mostra também e sobretudo os problemas ainda por resolver na perspectiva do poder dos conselhos. Será que estes artistas tinham razão ao defenderem uma catedral em nome de valores estéticos permanentes e em última instância em nome do espírito de museu, enquanto outros homens pretendiam aceder à expressão precisamente nesse dia, traduzindo por meio da demolição o seu desafio total a uma sociedade que, na derrota iminente, lançava as suas vidas no nada e no silêncio? Os artistas partidários da Comuna, actuando como especialistas, encontravam-se já em conflito com uma manifestação extrema da luta contra a alienação. Há que censurar aos homens da Comuna não se terem atrevido a responder ao terror totalitário com a totalidade do emprego das suas armas. Tudo leva a crer que se fizeram desaparecer os poetas que nesse momento traduziram a poesia em suspenso da Comuna. A massa de actos irrealizados da Comuna permite que se convertam em “atrocidades” os actos esboçados cuja lembrança foi censurada. A frase “aqueles que fazem revoluções a meias não fazem senão cavar a própria sepultura”, explica também o silêncio de Saint Just.

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Os teóricos que reconstituem a história deste movimento, colocando-se do ponto de vista omnisciente de Deus que caracterizava o novelista clássico, mostram facilmente que a Comuna estava objectivamente condenada, que não tinha superação possível. Mas não se pode esquecer que para aqueles que viveram o acontecimento a superação estava ali.

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A audácia e a criatividade da Comuna não se medem evidentemente em relação à nossa época, mas em relação às banalidades de então na vida política, intelectual e moral; em relação à solidariedade de todas as banalidades no meio das quais surgiu a Comuna. Assim, considerando a solidariedade das banalidades actuais de direita e de esquerda, pode imaginar-se a enorme criatividade que podemos esperar duma explosão idêntica.

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A guerra social de que a Comuna constitui um momento continua sempre (por muito que tenham mudado algumas condições superficiais). Sobre o trabalho de “tornar conscientes as tendências inconscientes da Comuna” (Engels) ainda não foi dita a última palavra.

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Desde há cerca de vinte anos em França os cristãos de esquerda e os estalinistas puseram-se de acordo, recordando a sua frente nacional anti-alemã, para pôr o acento tónico naquilo que houve na Comuna de rasgo nacionalista, de patriotismo ferido e, para falar claramente, de “povo francês expressando a sua vontade de ser bem governado” (segundo a política estalinista actual) e no fim lançado no desespero pela fraqueza da direita burguesa apátrida. Bastaria, para vomitar esta água benta, estudar o papel dos estrangeiros vindos para combater pela Comuna, que foi antes de mais, como dizia Marx, a inevitável prova de força a que deveria conduzir toda a actuação da Europa do “nosso partido” desde 1841.

(In Internationale Situationiste, n.º 7, Abril de 1962)

La Commune 1871 – Peter Watkins- legendas em espanhol

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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