Imagem:Basquiat

O mundo está sempre em guerra. Desde que eu me entendo por gente, os homens se desentendem, brigam, se matam, em nome da paz universal. Três guerras mundiais e ainda acham pouco. E depois dizem que eu é que sou louco.
Queimam as árvores, secam os rios, poluem os ares, contaminam os mares, destroem a camada de ozônio, em nome do progresso mundial. Metade das florestas já se perdeu. E ainda dizem que o louco sou eu.
Se acabam as árvores e desaparecem os rios, para onde vão os peixes e os passarinhos? Os jacarés, o elefante e o macaco? O
leão, as borboletas, o porco-espinho? Bichos? Só no circo ou no jardim zoológico. E ainda dizem que eu é que não sou lógico.
Com o mar contaminado e o ar poluído, como vão viver a cacatua e o leão-marinho? As baleias, o peixe-espada, o peixe lua? A orca, a foca, o pinguim e os golfinhos? Golfinhos? Só nas piscinas e fazendo piruetas. E ainda dizem que eu é que sou zureta.
O homem se afastou da natureza e agora vive emparedado, empacotado, engarrafado no quarto-e-sala, no metrô, no elevador, na sua raça, na sua crença, na sua classe. A civilização, às vezes, parece que anda para trás. E ainda questionam as minhas faculdades mentais.
O homem está cada vez mais distante do homem. Comunica-se, em segundos, como mundo inteiro, mas não conhece o seu vizinho de porta. Na tela de um computador vive a sua vida virtual. E, nesse mundo, onde tanta insensatez medra, ainda dizem que eu é que sou louco de pedra.
Silvio Ribeiro de Castro, no livro ‘Memórias, Confissões & Outras Mentiras’, Ibis Libris, 2002. Este poema fez parte do espetáculo ‘Se cobrir é circo, se cercar é hospício’, apresentado pelo Grupo Poesia Simplesmente.
Genial! Parabéns!👏👏👏👏👏🌹
Muito bom texto ! Gostei também da interpretação! Parabéns!