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O texto de Arlindenor Pedro nos lança diretamente no turbilhão histórico da noite de 31 de março para 1º de abril de 1964 — momento inaugural do golpe civil-militar no Brasil. Longe de uma narrativa distante ou meramente informativa, trata-se de um testemunho vivido, marcado pela urgência, pelo medo e pela incerteza que atravessam a experiência concreta de sujeitos imersos em uma ruptura histórica.

Um dia de cão-um ensaio de Arlindenor Pedro
Artigo originalmente publicado neste blogue em 2012.
Ouça aqui o áudio do nosso post
Acordei sobressaltado. O dia 31 de março de 1964 terminara e o 1 de abril estava começando; nublado, um daqueles dias sem cor que às vezes se apresentam na cidade do Rio de Janeiro.
Todos estavam em casa, pois fora convocada uma Greve Geral, que atingira os transportes, nos privando dos ônibus. As rádios tocavam hinos militares, numa programação estranha, que nos deixavam alerta. Afinal, o que estava acontecendo?
Passei na casa dos Toledos: — Estão querendo derrubar o presidente! Disse-me o Sergio, o mais novo dos irmãos.
Rapidamente nos colocamos em marcha, caminhando em direção ao centro da cidade, saindo do Grajaú.
Pessoas andavam às tontas, em rumos indefinidos. Nas ruas, somente alguns automóveis, nem um sinal das lotações. Nos pontos de ônibus apinhados de gente, figuras assustadas, temendo pelo pior, aguardavam um transporte que não chegava. Volta e meia cruzávamos com caminhões da polícia Militar que passavam com as sirenes ligadas. Abaixávamos as cabeças e apressávamos os passos. Pouco falamos entre nós: uma angústia nos tomava o peito. Aflição da dúvida, medo do que se avizinhava.
Em pouco tempo estávamos na Tijuca, na casa do Ruy Raposo — uma grande confusão, o Exército em Minas se rebelou e exige a renúncia do presidente, nos disse a irmã do Ruy, que já tinha saído de casa.
Retomamos a marcha e já tínhamos alcançado a Praça da Bandeira. Adiante, vimos os vagões dos trens tombados na porta da Leopoldina, impedindo o tráfego, cruzando toda a avenida.
No Campo de Sant’Anna foi quando ouvimos os primeiros tiros. Estudantes fugiam do CACO em direção à Central. Rajadas que se alternavam com estampidos secos. O caos: numa estação de trem vazia, vultos corriam de um lado para o outro, sem direção. Carreata de automóveis, muitos deles conversíveis, com lenços brancos nas antenas, buzinavam sem parar, indo em direção à Candelária. Víamos claramente o sorriso de alegria nos semblantes daquelas lindas jovens que agitavam bandeirolas do Brasil.
Num repente, Astrogildo, um dos Toledos, subiu em um banco e fez um discurso relâmpago: falou que o golpe contra a democracia não iria passar e exortou a todos para que resistíssemos (no que foi entusiasticamente aplaudido por uma pequena multidão, saída não sei de onde, que se formou ao seu redor).
Deixamos os populares e seguimos, chegando à Cinelândia, onde nos misturamos a uma grande multidão, contida por cordões de policiais da PM, às portas do Clube Militar, de onde, lá do alto, quepes oliva nos observavam.
A turba vaiava sem cessar:gorilas, golpistas, ecoavam gritos da multidão. PM fascista, gritava o povo, empurrando os soldados apavorados.
Do lado do obelisco surgiu uma tropa de soldados da PE marchando resoluta, sendo imediatamente aplaudida pela multidão: -são os soldados do presidente, vieram nos proteger e prender os golpistas que estão lá em cima, gritou alguém.
Engano: a tropa abriu fogo sobre nós. Após a surpresa, estabeleceu-se o pavor, a corrida para salvar a vida, no meio de corpos que caiam, ficando para trás.
Deixamos, então, a praça e rumamos para o Flamengo, para nos abrigarmos no prédio da UNE.
Não havia mais abrigo. O prédio ardia, com móveis que eram atirados pelas janelas pela súcia do MAC.
A noite já vinha chegando. Cabisbaixos, empreendemos a volta ao Grajaú, passando pela cidade, pelos prédios, de onde podíamos ouvir os gritos de comemoração, daqueles que mais adiante iriam chorar, rangendo os dentes.
Nessa altura, uma chuva fina caia, molhando nossos corpos, misturando-se às lágrimas de quem sabia o que estava por vir.
Arlindenor Pedro
Serra da Mantiqueira, março de 2012.
contatos@utopiasposcapitalistas.com

Arlindenor Pedro é ex-preso político e anistiado. É também professor de história, filosofia e sociologia, além de editor do Blogue: Utopias Pós-Capitalistas — Ensaios e Textos Libertários.
Ótima narrativa ! Nessa época eu estava no Seminário São José Inrernatimo, não assisti a esses absurdos.Abs
😵😢
Ao republicar o artigo autoral “Um dia de cão”, para marcar a passagem dos 62 anos do golpe civil-militar de 1964, o professor Arlindenor Pedro não resgata apenas a memória daquele dia, mas personifica sua própria resiliência intelectual e política que pernanece a sustentar a redemocratização do Brasil.
Com formação multidisciplinar em história, filosofia e sociologia, sua trajetória é marcada pela coragem de quem enfrentou o arbítrio para defender o pensamento crítico e a liberdade de expressão.
Como ex-preso político da ditadura civil-militar, Arlindenor conheceu de perto as consequências da repressão que tentou silenciar sua geração. Sua militância, iniciada no movimento estudantil em 1964, não se encerrou com a abertura política; ao contrário, transformou-se em um compromisso permanente com a democracia. Esse compromisso se expressa tanto na sua vasta produção de textos, quanto na coordenação de projetos de cidadania e educação, como o Parlamento Juvenil da Alerj, iniciativa que promove a vivência do processo legislativo e incentiva a participação cidadã entre estudantes da rede estadual.
Além disso, Arlindenor mantém viva a chama da reflexão social como fundador e editor do projeto Utopias Pós-Capitalistas – Ensaios e Textos Libertários, que reúne blogue, revista eletrônica, podcast e canal no YouTube. Por meio dessas plataformas, segue como uma voz ativa da resistência, produzindo conteúdos que desafiam o “status quo”. Entre eles, destaca-se o recente documentário que resgata a trajetória de Marcelo Cerqueira, advogado que enfrentou a ditadura na defesa de mais de mil presos políticos.
A história de Arlindenor não se resume a atos de confronto, mas destaca-se pela construção persistente de espaços de liberdade e pensamento crítico, contribuindo para consolidar a nossa democracia como uma das mais testadas e resistentes do mundo, alicerçada na convicção de que o saber — e não as armas — é a ferramenta mais poderosa em defesa da democracia.