A menina acordou com os pingos de chuva batendo no zinco do telhado. Tinha esperado tanto tempo por aquele barulhinho. A mãe dizendo que aquele seria um ano de seca.

-Tudo perdido, o milharal ‘ruinado’.
Mas ela sabia que a mãe estava errada. Durante a semana podia sentir o gostinho da chuva vindo de longe. O galo garnisé também sentia e só fazia bater as asas, saudando por antecipação, o cheiro da terra molhada subindo para os céus. O pai chamava de ozon. Mas ele também estava errado. Ela já havia perguntado, durante o catecismo, para o padre Miguelito, e ele ensinou direitinho ozônio. Não falou para o pai. Medo de magoar.
Pé ante pé, para não acordar a casa, Lourdinha correu para o quintal. A calha de zinco brilhava de tanta água. Uma cachoeira de diamantes, pensou. Com muito cuidado fez a primeira tentativa, exatamente como Tide havia ensinado: com a mão esquerda pegou a água bem em cima; com a direita segurou dois palmos abaixo e tentou dar o nó. Nada! Insistiu várias vezes. Acho que Tide ensinou errado. Amanhã pergunto de novo. E lá foi a menina de volta para a cama. Naquela noite, sonhou com pingos de chuva, águas cristalinas, nós prateados e laços de fita.
Dormiu feliz. E lá se foi Lourdinha pela vida… Eternos nós em pingos d’água. Persistente, sobreviveu.
LAURA ESTEVES, no livro ‘o dia em que as Mulheres Voaram e outras histórias’. Ibis Libris 2007