O contador de histórias
Era apenas um muro de pedra, baixo e largo, e que simbolicamente separava as nossas vidas. Ela vinha do seu lado e eu do meu, e era lá que nós nos encontrávamos. Quase sempre ao cair da tarde, naquela hora linda e melancólica do final do dia.
Conversávamos sentados no muro e, às vezes, sentados no chão e recostados no muro, aproveitando a sombra que ele projetava. Embora não falássemos sobre isso, sabíamos que era um amor impossível. Um encontro de dois corações que se procuraram a vida inteira, mas só se encontraram quando a vida já não lhes permitia decidir sobre o próprio destino. Ela não se sentia feliz, mas criara laços com pessoas e lugares, àquela altura, difíceis de desatar. Estava dividida, mas se perguntava se em nome da sua felicidade teria o direito de decepcionar e magoar pessoas que a amavam e confiavam nela, e que, com certeza, ficariam surpresas com a sua infelicidade. Eu também vivia uma situação parecida,
acomodado numa rotina de sentimentos estáveis e consolidados, onde tudo acontecia de modo previsível e nada parecia fazer sentido. Mas me questionava se esta insatisfação não era por minha própria culpa, eu que sempre tive dificuldade de me situar na vida e escapava para me refugiar no mundo da imaginação.
Éramos felizes naquelas tardes. Ela adorava deitar no meu colo para ouvir as fantasiosas histórias que eu contava sobre a minha vida e eu adorava vê-la fechar os olhos, ela dizia que era imaginar melhor a cena, e depois vê-la morrer de rir dizendo que eu tinha inventado aquela história e que eu era um mentiroso.
Evitávamos falar do futuro.
Só o presente importava, o futuro era um lugar incerto e distante, não tínhamos pressa de encontrá-lo.
Mas o futuro sempre chega.
Numa tarde chuvosa, uma chuvinha fraca e intermitente, ela chegou atrasada e me abraçou. Ficamos longo tempo debaixo de um guarda-chuva, abraçados e calados.
Depois ela me contou que aquela era a última vez que nos encontraríamos. Contra a sua vontade, ela ía se mudar para um outro país.
Não entrou em detalhes e também não perguntei para não prolongar aquele sofrimento. Fiquei vendo ela ir embora. De longe, ainda acenou para mim. Fiquei ainda algum tempo encostado no muro, sem querer acreditar que nunca mais ía vê-la. Depois, a chuva aumentou e comecei a sentir frio. Pulei o muro e voltei para o meu lado.
SILVIO RIBEIRO DE CASTRO
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Chega, e por isso que não podemos ficar presos no passado! Amei!