O contador de histórias
Noite passada sonhei com você. Era a nossa antiga casa em Santa Teresa. Parecia domingo. Acordei com o sol batendo em cheio no meu rosto e uma estranha luminosidade que parecia encantar todos os objetos. Você já tinha se levantado, mas ainda sentia o calor do seu corpo ao meu lado na cama. Procurei pela casa toda mas nada de você. Nossa velha vitrola tocava aquele seu velho disco de boleros, gasto de tanto uso. A agulha parava sempre no mesmo lugar (você se lembra?), arranhando e repetindo:“Bésame mucho, bésame mucho, bésame mucho… “Até que alguém acudia. Segui o seu perfume pela casa toda. A luz do banheiro estava acesa, mas quando abri a porta, o espelho devolveu apenas o meu próprio rosto, olhos fundos, barba por fazer. Comecei a sentir aquela sensação de quando ainda estávamos juntos: você tão perto e tão distante de mim. Voltei à sala a tempo de ouvir a vitrola dizendo: “Bésame mucho, que tengo miedo perderte, perderte después…” Quando o telefone tocou, custei a perceber que acordava de um sonho. Fechei os olhos tentando prolongar aquele momento, mas o telefone continuou tocando, tocando… Fui atender com a tola esperança de que fosse você. Mas era apenas o porteiro avisando que ia faltar água no prédio. Voltei para a cama e não consegui dormir, mas continuei ouvindo a vitrola tocando…
“Bésame, bésame mucho. Piensa que talvez mañana ya estaré lejos, mui lejos de ti.
Adoro essa música, tive oportunidade de ir a alguns bailes de orquestra e essa música atraía gostos. Não conhecia a história. Muito interessante. parabéns pelo mini conto.