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(Dor)mentes perante o espelho-Alaor Junior

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 6 leitura mínima


Estamos juntos nessa existência, não digo nos mesmos barcos, mas tentando atravessar as inconstâncias dos mares relacionais, por vezes bravios, agitados, arrebata[dores],por outras serenos, acalenta[dores].

A grande questão é que somos seres gregários,
estabelecidos e acostumados às relações de [inter]dependência, vivemos sob o peso das normas sociais, trespassados pelos desejos alheios de indivíduos e da coletividade.


Mas como conviver com o volume e a intensidade das tais ‘inconstâncias’, ou melhor, como é ser sujeito nesse meio? Como ‘adequar’ minhas potencialidades e limites, galgando espaço frente às demandas coletivas? Como explicitar os meus desejos? A sociedade
sempre espera algo,mas um ‘algo’ definido pelos que se entendem na posição de mando e poder (por exemplo, superioridade econômica), de determinação de valores a serem seguidos e do que, supostamente, é melhor para todos. Mas isso é uma falácia. Somos diferenciados por
natureza física, psíquica e emocional, entre outras. Indivíduos, singulares.

Nas exigências de tradicionalismos, visões de mundo engessadas e preconceitos percebe-se a fragilização da saúde, inclusive a psíquica.Muitas das relações estabelecidas são pueris, principalmente agora na atualidade, segundo Bauman, amores líquidos, vivemos uma farsa consentida, é o ‘finge que me engana, que eu finjo que entendo’, pacto escudado na virtualidade que vende o sucesso, a felicidade e as realizações de forma fácil, plenamente acessível a todo aquele que se esforce – aqui vale a meritocracia tóxica, que participe de um grupo, que tenha muitos seguidores e ‘likes’, encanto pelo status, que exerça a fé condizente ao rebanho, que fale a linguagem de interesse das massas, enfim, modelos e funcionamentos estabelecidos para o topo da pirâmide dos afetos. Populismo raso. Mitificação.

Mas qual o preço da tão sonhada aceitação? Num trocadilho, quanto isso nos afeta? É certo que haverá impacto no emocional, principalmente nos de ego mais frágil. Se numa ponta temos os alienados que mal enxergam o ranço da futilidade, na outra temos os
eternamente infelizes, que se afogam no insucesso de uma busca constante, ambos tomados pela mágica que subverte a realidade, ou seja, saúde trincada, fissurada.

Pensando na publicidade mágica que alimenta um mundo de fascínio, nada escapa, inclusive o conteúdo direcionado à saúde, a saber as redes e mídias estão tomadas de anúncios médico-odontológicos e estéticos que prometem mudanças, aprimoramento da imagem, perfeição, fonte da juventude, propostas infantilizadas que beiram realizações surreais
e levam, de acordo com o aporte financeiro, a um nivelamento social, ou seja, a oferta dilatada do clímax estético, deságua em uma homogeneização das pessoas, que sofrem ou passam enganadas com a percepção de uma quebra de identidade, perda de subjetividade. Rótulos e Padrões. Cada qual elege as importâncias nas suas vidas…


No mundo virtual, quiçá o tão sonhado metaverso, a mágica dos filtros,
possibilidades e recursos promovem o ajuste das falsas ilusões: ‘retificamos nossas aparências entregues a um plano de aparências’, pois é, as rimas e repetições frasais não nos servem mais de álibis, a metalinguagem dos versos está comprometida, transitamos em meio a bonecos, sim, somos avatares do capitalismo, dos sonhos largamente estimulados: sorrisos perfeitos, pele rejuvenescida, olhares claros sem pés de galinhas, narizes afilados, cabelos lisos e volumosos,ausência de rugas, musculaturas torneadas, egos inflados e simpáticos, asas da amabilidade, personagem carismático, vida de cinema, porém autoimagens comprometidas, reféns da crítica coletiva. Para uma grande maioria, as percepções de si estão adoecidas frente às realidades dos espelhos. Quem sou eu?

As métricas que apontam para processos depressivos, transtornos do pânico e crises de ansiedade deram saltos astronômicos, deixando claro que toda a fantasia veiculada no “universo paralelo’ não dá conta da realidade. Somos seres faltantes, incompletos por natureza,
e tudo bem. Sim, nossas vidas são como o curso dos rios, as águas, às vezes se mostram lentas, em outras são corredeiras empedradas que se lançam em sinuosidades, e que nos desbastam as margens, rasgando desejos, mas de uma forma ou outra vamos seguindo, trechos assoreados, límpidos, turvos, rasos, profundos, lodosos, fluidos e navegáveis…

Para todos é reservado o destino do mar, e talvez a percepção desse sentimento oceânico assuste alguns ou esteja comprometida, voltemos a Sartre que nos convoca ao crivo das nossas responsabilidades, enquanto peso exigido pelas liberdades. Muitos são até avessos,
mas também me permito pensar em Kant e seu imperativo categórico, ajamos de tal maneira que nossa postura possa ser erigida como norma universal. Fantasia? Nem sei, prefiro me resguardar na consciência de poder encarar o espelho e arcar com as dores advindas das minhas
decisões.

Vida segue, que os espelhos nos sejam importantes referenciais…

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
3 Comentários
  • Estamos saindo do real em franca jornada na direção do imaginário! Estamos com os pés cá e a cabeça lá. Somos imagem forjada lá e aqui.
    O espelho nos mostra ao inverso! Já não conseguimos ver o real exceto pela silhueta do outro.

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