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Menos circuitos e placas.Mais artérias e órgãos-Alaor Junior

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 9 leitura mínima


Estou passado por um relativo bloqueio criativo na escrita, digo relativo, pois, tenho tentado terminar alguns contos para compor novo livro, e não tem sido tão fácil, talvez por estar deslocando a energia psíquica, que também alimenta os processos cognitivos para outros patamares da vida. Há uma lógica no caos inconsciente.Pois é, nesse sentido parece que as explicações pautam nossos vieses na órbita de automações, determinismos elétricos e químicos que promovem ações. Poderíamos ser apreciados à guisa das máquinas, a tal Inteligência Artificial já bota sua cara de vidro e metal, objetivando um espaço em meio ao conhecimento humano.

Essa semana fui questionado pelo amigo Arlindenor, grande Mestre, sobre o meu paradeiro, não por vias das produções textuais que compartilho por aqui, mas, por sincera preocupação que enlaça os seres, a palavra gatilho foi saudade. Sim! Sempre afirmo que somos criaturas gregárias, nossa posição enquanto ‘entes subjetivos’ só toma corpo através da inteiração com o outro, nessas ‘operações’ de trocas mútuas construímos a nossa identidade, é através do outro que damos sentido à nossa existência, nos alicerçamos no trânsito saudável que permeia discursos,elaborados e inconscientes, a linguagem nos faz sujeitos, passamos a caminhar pelo patamar do simbólico. Freud, Lacan e outros que o digam…

Em uma proposta irreverente e irônica, diga-se metafórica, meu amigo interlocutor se lançou à produção de narrativas terapêuticas com a IA, reflexões e conversas que buscam sentido no espaço psicoterapêutico, aliás, textos bem interessantes. Nobre alegoria, afinal cabe ao analisando, em termos de psicanálise, a fala livremente associada que oportuniza um encadeamento de significantes que vão deslisando e compondo o fluxo discursivo sob a escuta atenta e flutuante do analista. Seria uma máquina capaz de tal desempenho? Não basta jorrar uma catarata de palavras, essas últimas necessitam estar revestidas de emoção, sob a ótica de um outro que se coloca à abeira de um abismo de neutralidade técnica, o que entendo ser diferente de uma fria imparcialidade, não acessamos emoções se não tocarmos a alma alheia,
em termos de significantes pensemos em senso de humanidade, empatia, zelo e, por que não, profissionalismo também.

Em linguagem de máquina, arriscaria programar tais comandos: FALE EM JORRO TUDO O QUE LHE VIER À MENTE, LIVREMENTE… Fico pensando se esse ‘prompt’ basta ao sofredor que carece regurgitar mazelas… Obviamente não, o ato da fala livre, que evoca
memórias, deve trazer consigo toda uma carga emocional atrelada ao traço mnêmico. O analista, com seu próprio inconsciente, previamente trabalhado na sua análise pessoal, através da escuta flutuante, respaldado pela técnica, funciona como importante eco pontual, ajudando ao falante a elaborar o que é dito e, principalmente o que não está dito. Tarefa árdua. Uma máquina possui tal capacidade? Já haveria um ‘prompt’ afetivo? Quase que um botão de alerta amarelo que dispara um sinal frente a emotividade e sensibilização subjetiva? Qual seria o filtro do que é importante? Qual o critério de importância em se tratando de subjetividades? As dores podem ser arquivadas em blocos?

Me formei em 1995, me permito afirmar que tenho uma experiência consistente na relação com sofredores que nos procuram nos consultórios e ambulatórios da vida, em busca de alívios das suas dores, de tudo que está engasgado e é energia potencial para os sintomas, e para tais relações as ‘fórmulas’, se é que existem, transcendem em muito o academicismo, vão para além da técnica aprendida e escolada, tais sentimentalidades sutis não estão em livros, são muito mais assimiladas pelos analistas em seus processos de submissão à análise particular, enfrentamento dos diabos, aquilatado por estudos e laureados por preciosa supervisão, que nos remete aos antigos processos de transmissão de conhecimento advindos de figuras com mais lastro na experiência: falamos da oralidade. Tá aí, voltamos à fala e sua importância enquanto disseminação e compartilhamento de conhecimentos.

Meus textos tendem ao intimismo, já ouvi esse comentário, que até me agrada, não consigo elaborar produções desvinculadas do emocional, minhas palavras precisam, necessariamente, carregar o peso e o valor da reflexão que toque a emoção (deu até rima).Questiono novamente, onde está alocada a emoção da máquina? Sua artificialidade me aponta para uma superficialidade metálica que beira a frieza da técnica, simples acumulado de dados, mas em termos de terapias e análises os caminhos são outros, os discursos são subjetivos, nem sempre x mais x é 2x, pode ser um y ou z, revestidos de particularidades associadas ao contexto individual de quem fala. Veja bem, não sou avesso ao progresso, muito menos à inteligência artificial, confesso que só a uso para tentar confirmar algumas ideias que brotam da minha criatividade, devidamente revestida da minha afetividade, o texto que me é trazido pela artificialidade passa pelo meu crivo, significação emocional, precisa mobilizar, convencer não somente o intelecto, mas, antes, o resfolego do mergulho nos abismos inconscientes.A proposta textual do professor Arlindenor é fantástica, terapia com IA, pois nos aponta para a necessária reflexão dos meandros cognitivos que tem permeado a sociedade atual, cada vez mais dependente e agrilhoada às interatividades virtuais. Estaria uma máquina verdadeiramente pronta para nos ouvir, a ponto de sugerir uma pauta ou conselho? Sinceramente, não acredito, sem qualquer saudosismo, prefiro os papos retos e abertos, daqueles, olho no olho, não atravessados por telas, e muito menos por interlocutores virtuais e avatares bonitinhos, sociáveis e disponíveis.Não consigo imaginar uma máquina ocupando o lugar do outro, seja no sentido físico ou psicanalítico. Não troco fios por artérias e nem pulsos magnéticos por boas batidas de um coração.

Na velocidade que estamos, não me nego em me abrir ao novo, ao desconhecido, posso até amanhã mudar de ideia e repensar as artificialidades cibernéticas, muito oportunas ao progresso, é fato, quando pensamos nos avanços da medicina, da engenharia, entre outros, mas continuo refletindo, qual o preço, ou melhor, o valor mais íntimo, e aí me vem um ‘ethos’, necessário para a relação saudável dos seres, incluindo a terapêutica. A ética psicanalítica reside numa proposta do bem dizer, aliás é realmente bendita a possibilidade da expressão plena dos nossos desejos, que sejamos fiéis aos mesmos.Há processo transferencial destinado a um robô? Um chip é capaz de captar minha dor e/ou demanda a exemplo da vaziez de angústias existenciais? Enfim, por enquanto só lanço conjecturas prefiro ouvir a palavra sincera de uma saudade do que uma interpretação de banco de dados que ocupa a gaveta fria de um chip, ou de um Hardware. Não troco a grandiosidade dos macro-sentimentos sinceros que forjam as personalidades, pelo ‘endereço’ de uma informação gravada num nano-espaço ou em um mega banco.Mais caráter e menos caracteres, pode ser uma alegoria sugestiva. Nada substitui uma palavra amiga, menos ainda um abraço fraterno e um firme aperto de mão. Ainda me vejo como um sujeito que demanda o legitimo, para tudo temos limites, sigamos rumo ao amanhã, só me permiti falar e letrar.

Declaro que não sou um robô! Sempre… Isso não é contação, nem cotação…

AlaorJunior 241124 (Será que a máquina capta o espelhamento numérico? Ou seria só uma superstição construída pelo mergulho na cultura?)

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
3 Comentários
  • Olá, Alaor! Fiquei muito tocado pelo seu texto. É realmente interessante como a energia psíquica pode ser desviada para outras áreas da vida, impactando a criatividade. Seu questionamento sobre a capacidade da IA em substituir o papel humano na psicanálise é extremamente pertinente. Concordo que a empatia, a conexão humana e o toque emocional são insubstituíveis. Admiro a sua capacidade de introspecção e a forma como você articula esses pensamentos complexos. Sua escrita carrega uma profundidade que vai além das palavras, tocando verdadeiramente a alma de quem lê. Continue compartilhando suas reflexões, elas são um verdadeiro bálsamo para a mente e o coração.

    Abraços fraternos,

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