As secas castigam com regularidade sazonal a Região Norte. A severidade com que veio no ano passado também acontece a cada 30 ou 50 anos. Ela, se repetir esse ano e agravada como a maior já estabelecida, mostra o agravamento do fenômeno com o advento das mudanças climáticas, devido ao aquecimento da atmosfera devido ao efeito estufa, relacionado às ações humanas.
O desmatamento e os incêndios provocados para abrir áreas para a pecuária e as monoculturas (principalmente soja) voltadas para alimentar o gado e as exportações ameaçam a sobrevivência de animais e a biodiversidade da flora e da fauna.
As enchentes severas que castigam o sul se repetem. Os efeitos do aquecimento do Atlântico e das variações de temperatura do Pacífico, que provocam os fenômenos El Niño e La Nina, são potencializados pelas mudanças climáticas.
Ainda assim, os políticos refletem e acentuam a indiferença da sociedade e as campanhas políticas ignoram o câmbio do clima. Alheios a tudo, os deputados discutiam sobre suas perdas com a Emenda Pix, quando viram e se espantaram com a fumaça dos incêndios que cercavam as florestas de Brasília. No Rio Grande do Sul, o prefeito, que relaxou na manutenção de diques e equipamentos existentes há pelo menos 50 anos para o controle das cheias em Porto Alegre, teve 49% dos votos.
A região norte elegeu inúmeros prefeitos multados por crimes ambientais, desafiando as autoridades federais e às vezes estaduais. O tema das mudanças climáticas inexistiu nas campanhas. Só o governo do Pará foge um pouco a essa regra. Grandes projetos de reflorestamento com a venda de créditos de carbono vêm sendo incentivados, assim como uma tentativa mais séria de repressão ao desmatamento e algum apoio às iniciativas federais de contenção da mineração predatória e criminosa.
Parâmetros econômicos positivos não inibem o aumento da inflação. Mesmo com a inflação sendo alimentada pelas perdas na agricultura devido a secas e inundações. Soluções ortodoxas não consideram as novas variáveis do clima e a solução capitalista clássica de aumento dos juros é a apontada pelo mercado. A medida pode provocar retração da economia e mais dificuldades para a criação e adaptação a um novo paradigma econômico, social e cultural que considere os novos cenários.
Dentro desse novo cenário, há que se pensar na reformulação das prioridades na agricultura e no desenho de um novo padrão alimentar mais saudável. A agricultura familiar, que produz o alimento do brasileiro, tem que ser priorizada; com mais produção orgânica, uso reduzido de fertilizantes químicos e agrotóxicos. A compostagem aeróbica e o uso de Biodigestores anaeróbicos devem ter incentivo dos governos municipais para a produção de biofertilizantes e biogás (metano). As prefeituras têm que se adaptar à Lei de Gerenciamento de Resíduos Sólidos, com alto aproveitamento de reciclados e aproveitamento do metano gerado nos Aterros Sanitários. Tudo isso, se bem gerenciado, pode gerar recursos para as prefeituras através do combustível gerado para uso na frota dos automóveis da prefeitura e da venda de créditos de carbono no mercado internacional. E um projeto bem elaborado pode ter assistência do BNDES e de emendas de parlamentares comprometidos com a causa ambiental. O PDT poderia dar assistência nas implantações desses projetos. (um programa de educação ambiental definido junto aos projetos, é essencial).
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o agronegócio têm posicionamentos diferentes sobre vários temas, como a produção de alimentos, a utilização de agrotóxicos, a preservação do meio ambiente e a Reforma Agrária.
1 — O MST defende a diversificação da produção para garantir a soberania alimentar, enquanto o agronegócio se especializa em monoculturas. O MST também defende a agroecologia e a produção de alimentos saudáveis e sustentáveis.
2 — O MST defende a diminuição do uso de agrotóxicos, enquanto o agronegócio brasileiro é o maior consumidor desses venenos do mundo.
3 – O MST critica o agronegócio por crimes ambientais, como queimadas e desmatamento, que afetam as comunidades rurais e a classe trabalhadora.
A Pecuária e o agro negócio são os grandes responsáveis pelo desmatamento e queimadas; pela poluição das águas e do solo por agrotóxicos e excesso de nutrientes por adubos químicos. Tem rios no Pantanal ou no limite amazônico, ou do cerrado mais poluídos do que o Rio Paraíba do Sul na industrializada S. José dos Campos. O uso do agrotóxico garante a extensa monocultura de soja, a custa de milhões de abelhas.
E os números: vamos analisá-lo sob uma ótica reveladora: O Agro divulga safras anuais acima de 300 milhões de Ton. Ano passado foi recorde: 340milhoes de ton. Esse ano deverá ser menor devido às secas e inundações.
Mais de 60% é de soja (180 a 190 milhões). O milho fica em torno de 85 milhões de toneladas.
O maior consumo de vegetais do brasileiro é o arroz. A demanda nacional para todo o povo do país é de 12 milhões de toneladas anuais de arroz.
Ou seja, além do pasto que não consta naqueles números, a área ocupada para produzir carne é de quase 18 vezes as áreas para produzir os vegetais produzidos para consumo do brasileiro.
E assim é a pecuária que aumenta a pressão sobre as florestas.
No artigo anterior eu previa a necessidade de se consumir menos carne para diminuir a pressão sobre as florestas. Aqui, creio que fica evidente. A pressão sobre a floresta não é somente pelo espaço que as criações, principalmente o boi, ocupam; mas também pelas enormes áreas ocupadas pela monocultura de soja e milho.
A população da Índia é de cerca de 6 vezes a população do Brasil. A Índia produz cerca de 130 milhões de toneladas de arroz por ano. Alimenta todo o seu povo e é um dos maiores exportadores de arroz do mundo. A quebra de safra do arroz esse ano devido às enchentes no RGS, quase provoca a importação do produto pelo Brasil.

José Roberto Tavares de Paiva é físico formado pela UFRJ.Foi professor de vários colégios públicos e particulares do RJ.
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