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Ilustração de Cunca Bacayuva
No traço interrompido de uma mão que já não alcança, Cunca Bacayuva nos entrega uma imagem de profunda angústia: uma anatomia do sofrimento em estado bruto, transfigurada pelo peso da história. “A Mão que Sangra Silêncios” não é apenas uma figura; é um território dilacerado. Um corpo que, como a Palestina, sangra sem que o mundo escute.
As linhas vermelhas, febris e convulsivas, cortam o vazio com a fúria de um povo sitiado. Não são apenas marcas: são mapas de dor. São fronteiras desenhadas com sangue, são gritos suprimidos que escorrem pelas frestas da diplomacia cínica e da indiferença internacional. A mão — esse instrumento de cuidado e construção — aqui aparece fragmentada, amputada de sua potência, como as vidas despedaçadas sob escombros e bloqueios.
Ao fundo, a escuridão se impõe . É o silêncio imposto. É o pano de fundo de uma narrativa apagada, onde apenas alguns têm o direito de falar, enquanto outros são forçados a calar. E a mão, símbolo de humanidade, estendida talvez em súplica, talvez em protesto, desfaz-se em ausência.
Cunca Bacayuva não ilustra apenas uma dor individual: ele convoca o espectador a encarar a violência estrutural de um conflito onde o horror se tornou cotidiano. Sua imagem denuncia aquilo que os números não dizem: que há uma mão tentando existir entre os escombros — uma mão que sangra silêncios enquanto o mundo desvia o olhar.Enquanto o mundo desvia o olhar…
Pedro Claudio Cunca Bocayuva
Professor do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos da UFRJ. Coordenador do Laboratório do Direito à Cidade e Território. Doutor em Planejamento Urbano e Regional.
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Belo texto, comovente, que envolve o leitor até o final, com uma linguagem poética.