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A paz armada e a compulsão de morte do capital-Arlindenor Pedro

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A paz armada e a compulsão de morte do capital- um artigo de Arlindenor Pedro

Durante cerca de duas horas assisti ao evento de comemoração dos 80 anos da vitória da luta antifascista do povo chinês contra a ocupação japonesa. Não se tratava apenas de uma cerimônia histórica, mas de uma encenação monumental, televisionada para o mundo inteiro, na qual a Nova China buscava afirmar-se como herdeira de uma tradição revolucionária e, ao mesmo tempo, como candidata legítima a vértice de um novo arranjo hegemônico global. No majestoso palco da Praça Celestial, sob a imagem de Mao Tse-Tung, o nacionalismo e a memória antifascista foram convertidos em espetáculo de legitimação: a promessa de que o país está pronto para assumir a responsabilidade de conduzir os destinos da humanidade ao lado dos Estados Unidos e da Rússia, em um mundo multipolar.

A exemplo do que fez recentemente o presidente norte-americano Donald Trump, que reuniu no Salão Oval da Casa Branca os líderes do chamado “Mundo Ocidental”, o dirigente chinês fez subir ao palco da Porta de Tiananmen uma constelação de Chefes de Estado. Entre eles, destacaram-se figuras centrais da política nuclear contemporânea, como os representantes da Rússia e da Coreia do Norte, convidados a testemunhar o grandioso desfile militar no qual a China exibiu seu moderno arsenal de última geração. Visivelmente excitados, os convidados de honra apontavam para as peças militares que se sucediam na extensa avenida, enquanto aviões de todos os modelos cobriam o céu sobre a imensa multidão que agitava bandeirinhas ao som dos hinos patrióticos. Um espetáculo de poder que atingiu o ápice com o discurso de Xi Jinping, que poderia ser resumido na fórmula da “promessa de hegemonia responsável”: apresentar a China não apenas como competidora na disputa pelo poder, mas como potência destinada a “guiar a humanidade através da paz armada”. Confesso que fiquei perplexo. E fui levado a refletir.

Será que a humanidade deve seguir por estes caminhos? Será que o investimento de milhões — e já trilhões — de dólares em armamentos, que hoje consomem parcelas imensas dos orçamentos da China, do Japão, da Alemanha, dos países da OTAN e, acima de tudo, da extraordinária máquina de guerra dos EUA, poderá trazer paz ao mundo? O que, de fato, está por trás de tudo isto?

A resposta não está apenas na má vontade dos governantes ou na suposta irracionalidade dos povos, mas na própria lógica do capital em crise. Ao perder sua capacidade de expansão produtiva, a modernidade capitalista volta-se cada vez mais para formas destrutivas de reprodução. Nesse contexto, a indústria bélica desempenha um papel central: ela não produz bens de consumo nem amplia a riqueza social concreta, mas cria uma demanda artificial para o capital excedente, funcionando como mecanismo de adiamento da crise.

Desde a Segunda Guerra Mundial, a guerra tornou-se motor silencioso da economia capitalista. A reconstrução do pós-guerra nos EUA e na Europa não se explica apenas pelo plano Marshall, mas também pelo gigantesco aparato de pesquisa e produção bélica que gerou inovação tecnológica, emprego em massa e uma demanda constante para o capital. Foi nesse processo que se consolidou o complexo industrial-militar: a fusão estrutural entre Estado, indústria e forças armadas. Na Guerra Fria, esse complexo funcionou como sustentáculo da modernização. A corrida espacial, a informática e até setores da medicina nasceram como subprodutos da economia de guerra. Tanto os EUA quanto a URSS sustentaram sua legitimidade interna e sua projeção global através de investimentos militares colossais. O paradoxo era evidente: a produção de riqueza social passava a depender de mercadorias cujo único valor de uso era a destruição.

Hoje, no entanto, a guerra não depende apenas de tanques, aviões e bombas nucleares. A revolução tecnológica, conduzida pelas big techs, abriu caminho para uma nova etapa da compulsão de morte. Empresas privadas que dominam a inteligência artificial, a análise massiva de dados e a robótica fornecem diretamente aos complexos militares tecnologias de vigilância, drones autônomos, sistemas de reconhecimento facial e algoritmos capazes de selecionar alvos humanos sem intervenção humana. O que antes se apresentava como promessa de progresso civilizatório converte-se agora em meio de extermínio em massa. A IA, que poderia ser usada para reduzir a carga de trabalho social ou resolver problemas ambientais, é apropriada pelo capital como arma de guerra, tornando cada avanço tecnológico parte integrante da engrenagem destrutiva. A fronteira entre Silicon Valley e o Pentágono, ou entre Shenzhen e o exército chinês, desaparece, revelando a unidade estrutural entre capitalismo digital e militarismo global.

Com o colapso da União Soviética, imaginou-se que viria um “dividendo da paz”, com redução do armamentismo. Mas o que ocorreu foi o oposto: a guerra do Golfo, as intervenções no Oriente Médio e, mais recentemente, a guerra da Ucrânia mostraram que a indústria bélica se tornou insubstituível na reprodução capitalista global. Hoje, China e Rússia disputam esse espaço, enquanto a OTAN se reorganiza como justificativa permanente para novos orçamentos militares.

Nesse quadro, o espetáculo de Pequim não é um episódio isolado, mas parte de uma tendência histórica: quando o capitalismo entra em crise estrutural e não pode mais expandir-se pela via da produção civil, ele recorre à guerra e ao militarismo como formas de prolongar artificialmente sua existência. A indústria bélica, agora cada vez mais entrelaçada com a tecnologia digital, é a materialização da compulsão de morte do capital: um sistema que só consegue seguir adiante destruindo o que resta de suas próprias condições de vida — o meio ambiente, os recursos sociais e, em última instância, a própria humanidade. Assim, a “paz armada” anunciada por Xi Jinping nada mais é do que a versão chinesa da mesma lógica que moveu os EUA durante todo o século XX: transformar a destruição em negócio e a guerra em espetáculo legitimador. A humanidade, entretanto, não pode esperar que dessa engrenagem surja qualquer horizonte emancipatório; apenas a repetição ritualizada da catástrofe.

O desfile de Pequim deve ser lido como síntese visível de uma dinâmica mais funda: a guerra deixou de ser um “fim exterior” e converteu-se em meio funcional do automovimento do dinheiro, isto é, um dispositivo interno da reprodução capitalista em crise. O que se exibe em tanques, mísseis e formações aéreas é a continuidade da economia de guerra que não refluiu após 1945 e se tornou modelo de organização social, técnica e produtiva — a própria dessocialização catastrófica do capital: recursos, ciência e trabalho mobilizados não para produzir riqueza social, mas para aniquilá-la e, com isso, manter girando a valorização bloqueada. A coreografia bélica legitima Estados e conglomerados industriais ao mesmo tempo em que reafirma o vínculo sacrificial entre guerra, dinheiro e poder — herança histórica da “revolução militar” que instituiu o fetichismo moderno da mercadoria e do valor. Por isso, o espetáculo de Pequim não é exceção asiática, mas a forma contemporânea, planetária, do Leviatã técnico-militar em que a guerra total (com seu horizonte nuclear) permanece como matriz de governo e de acumulação. 

É particularmente lamentável constatar que grande parte da esquerda mundial se perde na tolice de escolher qual imperialismo apoiar, como se houvesse diferença essencial entre a dominação exercida pelos EUA, pela China ou pela Rússia. Essa postura, que oscila entre uma nostalgia pelo “anti-imperialismo” clássico e a ilusão de que um dos blocos hegemônicos poderia oferecer alternativas emancipatórias, não faz mais do que legitimar a compulsão de morte do capital em sua fase militarizada. A humanidade não pode salvar-se optando por um “imperialismo menos pior”, mas apenas por meio de um movimento autônomo, mundial e radical pela paz e pelo desarmamento, que rompa com a lógica da valorização do valor. Hoje, diante da possibilidade concreta de uma guerra atômica e da destruição irreversível das condições de vida, a alternativa é clara: ou a sociedade global se organiza contra a barbárie armada que sustenta a economia bélica, ou será tragada pela catástrofe que o próprio capital prepara em escala planetária.

Ao recordar o desfile de Pequim, não posso deixar de imaginar a utopia de que aqueles milhares de seres humanos, que marchavam disciplinados sob o signo do nacionalismo e da promessa de poder, de repente ultrapassassem o fetiche capitalista criado pelo capital automático da reprodução incessante de mercadorias. Que se recusassem a continuar como autômatos da destruição da humanidade, negando o papel de engrenagens de uma máquina de morte que já ameaça a própria sobrevivência do planeta. E que esse gesto, essa recusa coletiva, pudesse contagiar multidões em todas as partes do mundo, transformando-se num grande movimento global pela paz e pelo desarmamento, o único capaz de romper com a compulsão suicida do capital e abrir espaço para a verdadeira emancipação humana.

Serra da Mantiqueira,setembro de 2025

Arlindenor Pedro

Literatura de apoio

-Robert Kurz – Dinheiro sem valor (2012) Obra em que Kurz aprofunda a crítica das categorias fundamentais do capitalismo, analisando o dinheiro e o valor como expressões do fetichismo moderno, e apontando seus limites históricos .

-Robert Kurz – O Colapso da Modernização (1991) Texto seminal em que o autor interpreta a derrocada do socialismo de caserna e a crise estrutural do capitalismo mundial como manifestações do esgotamento histórico da modernização, destacando o papel da economia de guerra no processo .

-Marildo Menegat – Tremor e cataclismo da segunda natureza: a guerra como modelo da dissociação catastrófica do capitalismo – Um ensaio (2022) Ensaio em que Menegat mostra como a guerra, desde a revolução militar dos séculos XIV-XV até o capitalismo tardio, constitui um modelo estruturante da forma social, revelando seu caráter sacrificial e sua compulsão autodestrutiva.

-Rosa Luxemburgo – A acumulação do capital (1913) Obra clássica que analisa o papel do imperialismo e do militarismo como “bom campo de acumulação” em fases de crise, antecipando a relação entre economia de guerra e limites da expansão capitalista.

-Moishe Postone – Tempo, trabalho e dominação social (1993) Fundamentação teórica sobre a centralidade do trabalho abstrato e da temporalidade capitalista, que dá suporte à crítica da reprodução destrutiva do capital.

-Roswitha Scholz – ensaios sobre dissociação e crítica do valor-dissociação Para compreender a dimensão de gênero e de reprodução social invisibilizada na lógica militarizada do capital, sempre associada ao modelo da destruição.

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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