Fundado em novembro de 2011

Ode ao Hermeto Pascoal-Silvie Armand

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 3 leitura mínima

Receba regularmente nossas publicações e assista nossos vídeos assinando com seu e-mail em utopiasposcapitalistas.Não esqueça de confirmar a assinatura na sua caixa de mensagens


Quem és tu,
senão o rio que toca seus próprios segredos,
a montanha que respira em flautas de vento,
o sapo coaxando em clave de sol?

Teu cabelo branco não é idade,
é nuvem acumulando trovões,
é espuma que sobra do mar
quando a música se lembra de ser maré.

Hermeto,
teus dedos não dedilham teclas,
eles acordam espíritos.
Do porco, do galho seco, do copo d’água,
tudo é orquestra,
tudo é infinito.

Há em ti uma anarquia que compõe,
um caos que organiza,
uma matemática que se ri dos números.
Teu som não cabe em pauta:
é o silêncio conversando com a lua,
é a sanfona bebendo estrelas.

Chamam-te Bruxo.
E com razão.
Pois só a feitiçaria explica
que do brejo nasça sinfonia,
que do cotidiano brote o sagrado,
que da dissonância surja o abraço.

És sertão e cosmos,
cavalo e cometa,
roça e laboratório.
Um alquimista que nos mostra,
entre risos e sopros,
que a liberdade é a única partitura digna de ser seguida.

E enquanto o mundo insiste
em reduzir a vida a metrônomos,
tu, Hermeto,
és a lembrança de que cada ser humano
é um instrumento por afinar.

Qui es-tu,
sinon le fleuve qui murmure ses propres secrets,
la montagne qui respire à travers des flûtes de vent,
la grenouille coassant en clé de sol ?

Ta chevelure blanche n’est pas le poids des années,
c’est un nuage accumulant les orages,
c’est l’écume qui déborde de la mer
quand la musique se rappelle qu’elle est marée.

Hermeto,
tes doigts ne se contentent pas de toucher les touches,
ils réveillent des esprits.
Du porc, de la branche sèche, du verre d’eau,
tout est orchestre,
tout est infini.

En toi, une anarchie qui compose,
un chaos qui s’organise,
une mathématique qui se rit des nombres.
Ton son ne tient pas dans une portée :
c’est le silence qui parle avec la lune,
c’est l’accordéon qui boit les étoiles.

On t’appelle Sorcier.
Et avec raison.
Car seule la sorcellerie explique
que du marécage naisse une symphonie,
que du quotidien jaillisse le sacré,
que de la dissonance surgisse l’étreinte.

Tu es sertão et cosmos,
cheval et comète,
campagne et laboratoire.
Un alchimiste qui nous révèle,
entre rires et souffles,
que la liberté est la seule partition digne d’être suivie.

Et tandis que le monde insiste
à réduire la vie aux métronomes,
toi, Hermeto,
tu es le rappel que chaque être humain
est un instrument à accorder.
Silvie Armand nasceu em Lyon, em 1985,entre artesãos e músicos de bairro.
Formou-se em Filosofia na Université Lumière Lyon 2 e em Lisboa apaixonou-se pela língua portuguesa e pelo fado.
Poeta, ensaísta e cronista, transita entre jornalismo cultural e escrita experimental, unindo crítica e criação.
Pesquisa a música improvisada e sua dimensão comunitária, inspirando-se em Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti.
Hoje é uma voz itinerante, escrevendo em francês e português: “a língua é casulo, a música, borboleta”.

Loading

Compartilhe este artigo
Seguir:
Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
1 comentário

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Ensaios e Textos Libertários

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading

Ensaios e Textos Libertários