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Amigos Invisíveis-Paulo Baía

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 11 leitura mínima

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Muitos amigos e amigas me perguntam como tenho paciência de escrever todos os dias. Alguns dizem que é disciplina de monge, outros acham que é mania, e há até quem brinque que devo ter uma fábrica secreta de palavras em algum canto da casa. A verdade é bem mais simples: escrevo como forma de conversar. Escrevo como quem acende uma luz em uma sala e chama os amigos para entrar. Escrevo para vibrar, para partilhar a maneira como sinto e percebo o mundo, a vida, os encontros, as pessoas, a natureza, o cotidiano, os fatos, os acontecimentos, a imaginação, os desejos, os sonhos, os pesadelos, as alegrias e também as frustrações que atravessam qualquer existência. Escrevo porque não consigo não escrever. Mas, sobretudo, escrevo porque leio.

Sou, desde menino, um leitor compulsivo. Leio tudo, absolutamente tudo. Sempre fui assim: devorador de livros, jornais, revistas, folhetos de farmácia, bulas de remédio, legendas de filmes, placas de rua. Quando digo que leio de tudo, não é exagero. A leitura é a energia que move minha escrita. Se escrevo tanto, é porque carrego em mim essa necessidade vital de ler. É como respirar: não dá para parar.

Passei quarenta anos escrevendo textos sociológicos e políticos dentro das regras universitárias e acadêmicas. Eram textos sérios, sisudos, muitas vezes chatos. Escrita cifrada, engessada, aprisionada em normas editoriais que muitas vezes matavam a liberdade da criação. A academia, que poderia ser espaço de invenção, quase sempre se transformava em prisão de palavras. Claro que havia exceções: alguns textos acadêmicos belos, bem narrados, cheios de poesia e clareza. Mas, em regra, o peso das convenções sufocava o frescor da escrita.

Foi nesse cenário que conheci a clareza luminosa de uma amiga: Carla Rodrigues, professora de filosofia do IFCS/UFRJ. Carla criou uma disciplina eletiva chamada Oficina de Escrita Filosófica. O nome é esse, mas conhecendo a Carla, que escreve de maneira bela, clara e deliciosa, essa disciplina poderia muito bem se chamar Escrita Criativa. Porque é disso que se trata: abrir janelas, deixar o ar fresco entrar, libertar as palavras do cárcere da sisudez. Sempre pensei que os estudantes de Ciências Sociais deveriam poder se inscrever também. Imagino a alegria deles ao descobrir que a filosofia pode ser narrada como quem conta uma história, como quem abre a porta da sala e convida todos a sentar-se para conversar.

Desde 2010, abandonei o formalismo exagerado. Deixei para trás as citações intermináveis, o cientificismo árido que transforma textos em códigos indecifráveis. Passei a seguir os conselhos de mestres da vida, como o jornalista Artur da Távola e o psicanalista e escritor Eduardo Mascarenhas. Eles me ensinaram a escrever com a cabeça livre, a deixar o texto respirar. Claro que depois cuido da gramática, lapido o estilo, organizo a forma. Mas sem aprisionar. Escrevo hoje como quem fala, como quem conversa em roda de amigos, como quem convida o leitor a sentar-se na cozinha para dividir um café coado na hora.

Escrever, para mim, é sempre uma conversa com amigos invisíveis. Carlos Ruiz Zafón disse isso de modo magistral: “Ele cresceu entre livros, fazendo amigos invisíveis entre páginas e letras.” Essa frase poderia estar tatuada na minha pele, porque me descreve inteiro. Cresci assim: entre livros, conversando com vozes que nunca me abandonaram. E sigo assim: escrevendo para prolongar esse encontro. Cada palavra que lanço ao mundo é uma tentativa de criar novos amigos invisíveis. É como soltar balões no céu, confiando que alguém, em algum lugar, os verá e se alegrará com a cor.

E devo confessar: meus amigos invisíveis muitas vezes se tornam visíveis. A escrita aproxima. Quantas vezes não encontrei pessoas que começaram como leitores distantes e, depois, viraram companheiros de café, de conversa, de caminhada pela cidade? A invisibilidade é só o primeiro capítulo de uma amizade. Escrever é lançar a semente, e de vez em quando essa semente floresce no jardim da vida real.

É por isso que digo: tenho com as redes sociais, tão mal faladas por muitos, uma excelente relação. Para mim, elas sempre foram espaço de conversas, diálogos, aprendizados. Estou nelas desde a época dos chates de conversas, aqueles pioneiros, em que as letras tremiam na tela como quem testa um novo idioma. Passei pelo Orkut, aquele território de comunidades improváveis e depoimentos afetuosos. E sigo até hoje, entrelaçando amigos invisíveis e visíveis, num fluxo contínuo de palavras e trocas. Nunca vi as redes como inimigas. Ao contrário: são extensão do meu caderno, são praças públicas digitais onde a conversa acontece.

Há quem pense que escrever é dom. Eu sempre rio disso. Não há fada madrinha literária, não há raio divino iluminando a caneta. O que existe é hábito, vício, mania. Escrever é como roer unhas, só que mais elegante. É resultado de anos de leitura e prática. Palavras perseguem quem lê muito. A pessoa lê tanto que, em algum momento, começa a escrever. É inevitável. E o bonito é que cada texto é uma forma de resistir ao tempo. Uma palavra salva do esquecimento já é um grão de areia resgatado do mar.

Durante muito tempo tentei esconder essa necessidade atrás de bibliografias intermináveis. Citava autores como quem veste gravata em reunião: não porque acrescentava, mas porque parecia respeitável. A academia transformou a citação em religião, a ABNT em catecismo. Textos viravam missa sem altar, rituais vazios. O leitor se perdia em notas de rodapé e parágrafos que mais pareciam labirintos. Vivi esse jogo. Hoje rio dele e de mim mesmo. Descobri que clareza não é fraqueza. Clareza é força.

Escrever não precisa ser martírio. Pode ser dança. Pode ser roda de samba. Pode ser carnaval. Cada frase tem ritmo, respira, desliza. Algumas marcham, outras dançam, outras voam. O segredo está em ouvir o texto, como quem ouve música. Quando o texto vira música, o leitor dança junto.

É por isso que a Oficina de Escrita Filosófica de Carla Rodrigues é mais que disciplina. É gesto político. É devolver às palavras o direito de encantar. Imagino os alunos chegando tímidos, acreditando que escrever é sinônimo de sofrimento. E Carla dizendo: escrever é brincar. Escrever é descobrir que seriedade não é sufocar o texto, mas dar-lhe vida.

Se fosse por mim, haveria escrita criativa em todos os cursos. Engenheiros descreveriam navios como poemas. Arquitetos projetariam prédios como romances de aventura. Economistas narrariam crises como epopeias literárias. O mundo seria mais leve, mais claro, mais compreensível.

Escrever é também confissão. Cada frase é sangue derramado, cada parágrafo é ferida exposta. O leitor atento sempre percebe: a escrita é a alma do autor disfarçada em palavras. Escrever exige coragem: a coragem de não esconder. Mas exige também humor. Porque escrever sem humor é cozinhar sem sal. O humor oferece leveza, dá pausa, dá café no meio da conversa.

E que amigos invisíveis são esses? São amigos que nunca envelhecem. Um livro aberto hoje é o mesmo que abri aos dez anos. O personagem me espera com a mesma voz, a mesma energia. Eu mudo, mas ele continua. É esse milagre que faz da leitura um pacto eterno.

Escrever é lançar garrafas ao mar. Cada texto é uma garrafa que atiro sem saber em que praia vai parar. Pode ser que ninguém a encontre. Pode ser que alguém a abra daqui a cinquenta anos. Mas nesse instante, estarei vivo de novo. Escrever é viver duas vezes: no presente e no futuro.

Por isso digo que escrever é festa. Palavras saem rodopiando, chamam metáforas para dançar. Há em mim um bloco de carnaval literário sempre pronto a desfilar. E quem disse que festa não pode ser séria? Alegria também é profunda.

Escrever é hospitalidade. É abrir a porta da língua e dizer: entre, leitor, a mesa está posta, há música e conversa. O texto é banquete, e os amigos invisíveis são os convidados secretos. Eles brindam comigo em silêncio, levantam copos invisíveis, riem de piadas que não sei que contei.

No fundo, escrevo porque quero viver mais de uma vez. Porque aprendi, com Zafón, que “Ele cresceu entre livros, fazendo amigos invisíveis entre páginas e letras.” Eu cresci assim, continuo crescendo assim. A vida, sem esses amigos, seria deserto. Com eles, é carnaval.

Escrever é viver. Escrever é viver de novo. Escrever é viver para sempre.

Paulo Baía é Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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