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Segundo dados recentes do MEC, o número de estudantes em cursos de ensino a distância no Brasil já ultrapassa o de alunos matriculados no ensino presencial, com predominância acentuada nas instituições privadas. Esse dado não é neutro: ele revela o avanço de uma lógica de mercantilização da educação, em que prevalecem a redução de custos, a ampliação de matrículas e a padronização de conteúdos em detrimento da experiência formativa. No ambiente do EAD, a relação direta entre professor e aluno se fragiliza, a mediação tecnológica se torna regra e o tempo da aprendizagem se transforma em fluxo acelerado de tarefas e entregas. Nesse cenário, a inteligência artificial aparece não como ruptura externa, mas como prolongamento dessa mesma lógica: o estudante já distante do espaço físico da escola encontra na IA um atalho perfeito para responder demandas acadêmicas cada vez mais abstratas, genéricas e descoladas de sua realidade.O uso da trapaça, longe de episódio casual se torna constante.
A trapaça, nesse contexto, não é apenas um desvio ético individual, mas um sintoma coletivo da erosão da qualidade do ensino. A ausência de acompanhamento próximo, típica dos cursos em massa oferecidos a distância, favorece o uso acrítico da IA como substituto do esforço intelectual. Em vez de aprender a formular perguntas, investigar e refletir, o estudante é incentivado a entregar respostas rápidas, frequentemente copiadas da máquina, reproduzindo a mesma superficialidade que marca muitos currículos engessados do EAD. O resultado é a acentuação de uma formação precária, onde diplomas proliferam, mas a capacidade crítica, a autonomia intelectual e o vínculo com a realidade se esvaziam.
Essa deterioração não é casual. Ela está inserida no processo mais amplo de esgotamento do capitalismo em sua fase digital-financeira, que desloca a vida humana para a esfera da abstração e da simulação. Na esfera econômica, a financeirização e a digitalização criam valor cada vez mais abstrato e desconectado da produção material. Na esfera social, a mediação das telas e algoritmos converte conhecimento, trabalho e afetos em simulacros. Nesse contexto, o estudante que recorre à IA para entregar uma resposta pronta não age como um desonesto isolado, mas como alguém reproduzindo, em escala micro, a lógica do espetáculo. Guy Debord, no século passado, já havia descrito essa transformação: quando a aparência se impõe sobre a realidade e a imagem sobre a vida, a experiência viva é substituída por representações. A fraude escolar, nesse sentido, não é acidente, mas sintoma de uma cultura em que o imediato, o simulacro e a performance têm mais valor do que o esforço paciente da reflexão.
Essa crítica não é apenas brasileira. Em diferentes países, buscam-se saídas para a crise. Nos Estados Unidos, universidades como Princeton e Harvard reformularam avaliações e passaram a privilegiar provas orais, debates e projetos acompanhados de versões sucessivas, além de códigos de ética que obrigam os estudantes a declarar quando utilizam IA em seus trabalhos. O Reino Unido, em Cambridge, segue caminho semelhante, autorizando o uso da IA desde que citada como qualquer outra fonte. A Austrália adota uma estratégia híbrida, retomando exames escritos à mão para reduzir a dependência da máquina, ao mesmo tempo em que investe em alfabetização digital. Na França, o tema ganhou dimensão pública com consultas nacionais para estabelecer diretrizes sobre IA na educação. Já a Finlândia procura integrar a tecnologia em atividades interdisciplinares, nas quais os alunos geram hipóteses com a máquina, mas precisam verificá-las no mundo real.
No Brasil, porém, o debate permanece fragmentado. Algumas universidades ensaiam políticas de uso responsável e escolas privadas experimentam a personalização do ensino, mas no setor público prevalece uma visão defensiva que trata a IA apenas como ameaça à integridade das avaliações. Esse atraso mostra que a questão não é apenas metodológica, mas estrutural: a combinação entre o EAD de massa e o uso fraudulento da IA escancara o esgotamento de um modelo escolar que já não dialoga com a realidade.
Um ensino que se pretenda emancipador não pode se limitar a respostas prontas ou a abstrações geradas por algoritmos: ele precisa apoiar-se nas experiências reais do sujeito, de sua comunidade, de seu país e da humanidade. Paulo Freire já insistia que ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo. Isso significa que a sala de aula deve se abrir para o vivido, para a prática concreta, para os saberes populares e para os problemas históricos de cada contexto. Aprender, nesse horizonte, é decifrar a própria realidade para transformá-la, e não reproduzir mecanicamente fórmulas ou conteúdos. Ao incorporar a inteligência artificial, a escola não deve abandonar esse princípio, mas reafirmá-lo: toda tecnologia só faz sentido se servir de ponte entre o conhecimento crítico e a vida concreta, entre o saber científico e as lutas cotidianas por dignidade e liberdade.
Reinventar a escola significa, portanto, mais do que criar novos métodos de avaliação. É restituir ao aprendizado o vínculo com a realidade e com a experiência concreta, rompendo com a lógica da abstração total que domina o capitalismo atual. Trabalhos que envolvam vivências locais, diálogos comunitários, pesquisa empírica e autoria crítica tornam-se antídotos contra a colonização algorítmica. Da mesma forma, é necessário instituir uma pedagogia da IA, que não se limite a ensinar seu uso técnico, mas também a problematizar seus vieses, suas limitações e o modo como reforça a lógica de simulação que sustenta o capitalismo tardio. O professor, nesse cenário, deixa de ser um fiscal de fraude e volta a ser mediador de sentido, alguém que confronta a produção algorítmica com a reflexão humana.
No fim, a trapaça não é apenas um gesto furtivo de alunos diante das provas: é o espelho de uma civilização que já trapaceia a si mesma, que já não sustenta o vínculo entre palavras e coisas, entre diplomas e saber, entre espetáculo e vida. O ensino a distância massificado, a inteligência artificial usada como atalho e a lógica capitalista de aceleração e abstração são apenas faces de um mesmo processo: a substituição da experiência pela simulação. Mas a educação pode ser o lugar da ruptura. Cabe-lhe escolher entre seguir como engrenagem de um sistema que fabrica ilusões ou afirmar-se como espaço de emancipação, onde a palavra volta a encontrar o mundo e onde aprender é um ato de dignidade. Se a escola tiver coragem de reatar-se à vida concreta, ela poderá fazer da própria máquina um instrumento de libertação; caso contrário, será apenas mais uma vitrine iluminada na grande feira do espetáculo.
Serra da Mantiqueira, setembro de 2025

Arlindenor Pedro é ex preso político e anistiado. É professor de história,sociologia e filosofia e também Editor do Blogue Utopias Pós Capitalistas
Bibliografia de apoio
Paulo Freire
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019 [1968]. FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2018 [1967].
Crítica social e sociedade do espetáculo
DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997 [1967]. KURZ, Robert. O colapso da modernização. São Paulo: Paz e Terra, 1993. POSTONE, Moishe. Tempo, trabalho e dominação social. São Paulo: Boitempo, 2014. SCHOLZ, Roswitha. O sexo do capitalismo: teses sobre valor-dissociação. Lisboa: Antígona, 2019.
Educação e tecnologia
SELWYN, Neil. Education and Technology: Key Issues and Debates. London: Bloomsbury, 2016. WATTERS, Audrey. Teaching Machines: The History of Personalized Learning. Cambridge: MIT Press, 2021. MOROZOV, Evgeny. Big Tech: A Ascensão dos Dados e a Morte da Política. São Paulo: Ubu, 2018.
Ensino a distância e IA
MEC/INEP. Censo da Educação Superior 2022. Brasília: MEC, 2023. OCDE. Education at a Glance 2023: OECD Indicators. Paris: OECD Publishing, 2023. UNESCO. AI and Education: Guidance for Policy-makers. Paris: UNESCO, 2021. ZUBOFF, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism. New York: Public Affairs, 2019.
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