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Cantiga pra não morrer-Silvio Ribeiro de Castro

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 4 leitura mínima
Cantiga pra não não morrer-Ferreira Goulart 

Quando você for se embora
Moça branca como a neve
Me leve
Me leve

Se acaso você não possa
Me carregar pela mão
Menina branca de neve
Me leve no coração

Se no coração não possa
Por acaso me levar
Moça de sonho e de neve
Me leve no seu lembrar

E se aí também não possa
Por tanta coisa que leve
Já viva em seu pensamento
Moça de sonho e de neve
Me leve no esquecimento

Moça de sonho e de neve
Me leve no esquecimento
Me leve
Silvio Ribeiro de Castro interpreta Ferreira Goulart

Ferreira Goulart: poesia, militância e a eternidade da palavra

Ferreira Goulart (1930–2016) foi um dos maiores poetas brasileiros do século XX. Nascido em São Luís do Maranhão, trouxe desde cedo para sua obra o ritmo da oralidade e o olhar inquieto sobre o país. Estreou ainda jovem com Um pouco acima do chão (1949) e, logo depois, publicou Toda Poesia (1951), onde já se percebe o entrelaçamento entre lirismo e inquietação social. Nos anos 1950, participou do movimento concretista, mas rompeu com seus rigores formais, defendendo uma poesia que fosse também corpo, experiência, vida. Esse gesto resultou no Manifesto Neoconcreto (1959), marco decisivo da arte brasileira contemporânea.

Com o golpe de 1964, Goulart mergulhou na militância política e cultural, aproximando-se das vanguardas populares, do Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE e do teatro engajado. Essa trajetória o levaria ao exílio, passando por países como Chile, Argentina e União Soviética, até fixar-se em Buenos Aires. Foi nesse período que compôs seu livro mais célebre, o Poema Sujo (1975), um longo fluxo de memória e resistência, em que a experiência pessoal se confunde com a história coletiva de um Brasil atravessado pela ditadura. O texto, lido clandestinamente por amigos no Rio de Janeiro, se tornou símbolo de esperança e combate cultural.

Ao longo da vida, Goulart transitou entre o lírico e o político, nunca reduzindo sua poesia a uma única dimensão. Sua escrita oscilava entre a crônica existencial da perda e o grito coletivo contra a opressão, entre a delicadeza do amor e a dureza da história. Recebeu o Prêmio Camões em 2009 e continuou ativo até o fim, sempre afirmando a força transformadora da palavra poética.

Entre seus poemas da juventude, destaca-se Cantiga pra não morrer, de 1951. Nele, encontramos a cadência da canção popular, sustentada pela repetição do pedido “me leve”. O eu lírico busca permanecer na vida da amada, seja pela mão, pelo coração, pela lembrança ou até mesmo pelo esquecimento. Essa gradação revela a consciência de que o amor pode resistir de diferentes formas ao tempo, mas também que toda permanência é frágil e transitória. Na simplicidade de sua linguagem, Goulart traduz um drama universal: o desejo humano de não desaparecer. A cantiga é, ao mesmo tempo, súplica amorosa e meditação sobre a finitude, mostrando que mesmo no esquecimento há um lugar onde a poesia resiste.

Silvio Ribeiro de Castro é declamador,poeta, compositor e gosta de ser conhecido como um “ contador de histórias” . Publica regularmente para este blogue na sua coluna, na nossa Home.

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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