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O Céu de Malek-Uma crônica de Silvie Armand

arlindenor pedro
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Em “O Céu de Malek”, Silvie Armand conduz o leitor a um terraço de Montmartre, onde o diálogo entre três amigos se transforma em reflexão sobre fronteiras, pertencimento e humanidade. Malek, engenheiro espacial em Toulouse, fala do racismo que o persegue até entre as estrelas. Adrien responde com ironia cansada; Silvie escuta — e sonha com um tempo em que os seres humanos não mais se definam por cor, origem ou bandeira.Entre a melancolia e a esperança, esta crônica propõe uma utopia silenciosa: o dia em que o céu deixará de ser metáfora e se tornará condição — o lugar onde todos cabem.

O final do entardecer trazia a noite como um sopro leve sobre os telhados de Montmartre. Após um dia inteiro no apartamento, Malek sugeriu que subíssemos ao terraço. O ar estava frio e o céu começava a se abrir para as estrelas em tons de cobre e violeta. Levamos conosco três xícaras e o silêncio que já nos acompanhava desde a manhã.

De lá de cima, Paris parecia mais calma. As chaminés soltavam pequenas espirais de fumaça, e as janelas se acendiam uma a uma. Malek apontou para o horizonte, onde um avião cortava o céu. “Lá em cima não há fronteiras”, disse. “O mundo é somente linha e luz.” Ele falava com a serenidade dos que olham o infinito não como promessa, mas como lembrança.

“Desde que fui trabalhar na Cité de l’Espace em Toulouse passei a dar mais atenção à cor do céu”, contou. “Gosto do contraste do azul com o tom de tijolo das casas. Às vezes me vejo olhando uma tarde inteira para o infinito.” E respirou, como quem mede o tamanho do próprio silêncio.

Adrien sorriu, cansado. “Tu sempre foste o astrônomo da turma”, disse, “procurando sentido onde o resto de nós só via distância.” Malek não respondeu. Somente ergueu os olhos. “A distância é a nossa herança. Viemos de um planeta que se esqueceu de si.”

Havia algo na sua voz — uma doçura triste, quase profética. Contou-nos que, quando criança, o pai lhe mostrava o céu do deserto argelino e dizia que cada estrela era uma história roubada. “Na Europa, aprendi que até o céu pode ser propriedade. Aqui, até o infinito tem dono.”

Depois fez uma pausa longa, como quem pondera o peso das próprias palavras. “Mesmo agora,” continuou, “trabalhando em Toulouse, entre satélites e engenheiros, sinto o olhar que me mede antes de me ouvir. Sou o ‘berbere talentoso’, o ‘árabe educado’, nunca apenas Malek. Carrego um crachá, um diploma, um idioma — e ainda assim, para muitos, continuo estrangeiro. A França admira os céus que ajudo a mapear, mas teme o meu nome quando o pronuncio.”

Fiquei em silêncio. O vento me tocava o rosto como uma lembrança antiga. Olhei para os dois e pensei que cada um de nós carregava uma forma diferente de ausência: Adrien, a culpa; Malek, o exílio; eu, a tentativa de compreender o que nos unia apesar das distâncias. Talvez o verdadeiro pertencimento fosse isso — partilhar o mesmo espanto diante da noite.

E pensei, com um desejo quase infantil, que um dia a humanidade precisaria olhar para si como Malek olha o céu: sem fronteiras, sem cores, sem passaportes. Que houvesse um tempo em que o ser humano não fosse classificado pelo sangue, pela origem ou pela sombra da pele, mas apenas pelo sopro de sua existência. Um tempo em que o infinito não fosse metáfora, mas condição — e onde o nome de cada um não despertasse medo, mas reconhecimento.

Malek continuava olhando para cima. “As estrelas são a única coisa que ainda nos iguala”, disse. “Ninguém as conquista, ninguém as domina. Elas pertencem somente ao tempo.” A cidade lá embaixo parecia escutá-lo. Por um instante, senti que Montmartre respirava conosco, como se o universo todo coubesse naquele pequeno terraço.

Quando o vento aumentou, Adrien fechou o casaco e riu: “Ainda acreditas em redenção, Malek?” Ele respondeu sem desviar os olhos do céu. “Não. Só acredito em continuidade.”

Ficamos ali, sem pressa, assistindo ao escurecer. As primeiras estrelas surgiram, tímidas, entre nuvens lentas. Pensei no meu pai, na pintura de Adrien, na infância de Malek sob o deserto. Tudo parecia se encontrar ali, suspenso sobre Paris — como se a vida, afinal, fosse somente um movimento de luz que insiste em permanecer.

Paris, inverno de 2025.

Silvie Armand

contato@utopiasposcapitalistas.com

Silvie Armand é poeta, ensaísta e cronista, transita entre jornalismo cultural e escrita experimental, unindo crítica e criação.
Atualmente vive em Lisboa e é correspondente do Blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários
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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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