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A farsa da “Guerra Híbrida”-Paulo Baía

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 15 leitura mínima

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O texto de Paulo Baía desmonta a expressão “guerra híbrida” como um fetiche intelectual que, em vez de esclarecer, obscurece. Sua crítica acerta ao denunciar o uso indiscriminado do termo como rótulo vazio, típico de uma época em que a linguagem se torna ruído e o pensamento se rende ao atalho conspiratório. O artigo revela um sintoma mais profundo: a crise das categorias com que interpretamos um mundo atravessado por colapso social, tecnopolítica e desinformação. Em vez de aderir a jargões grandiloquentes, Baía convoca o retorno ao rigor, à pesquisa e à dúvida — elementos indispensáveis para reconstruir uma crítica capaz de enfrentar as contradições reais do capitalismo brasileiro. Uma intervenção breve, contundente e necessária.

Há expressões que nascem velhas. “Guerra híbrida” é uma delas. Aparece em textos e discursos como um selo de erudição, uma senha de acesso ao universo dos iniciados, mas o que ela revela é exatamente o oposto do que promete: a mais completa ignorância. É um termo que parece explicar tudo e, por isso mesmo, não explica nada. Como um guarda-chuva roto que se abre sobre qualquer situação, cobre tudo e não protege de coisa alguma.

A “guerra híbrida” serve para designar qualquer conflito, de qualquer natureza. Vai da disputa entre potências militares às brigas entre vizinhos, das manifestações populares por serviços públicos às tensões religiosas, das divergências partidárias às rusgas conjugais. Tudo pode ser “guerra híbrida”. Se alguém ergue a voz, se um grupo protesta, se um Estado é criticado, logo aparece o analista apressado, com seu vocabulário de laboratório, declarando que ali está em curso uma guerra híbrida. A palavra se multiplica, se dilui, se transforma em ruído.

O resultado é um desastre epistemológico. A expressão não ilumina, obscurece. É uma fórmula de substituição: no lugar do estudo, da observação, da análise empírica, coloca-se um rótulo. É o triunfo da preguiça intelectual, o atalho dos que não sabem, o refúgio dos que não têm dados nem experiência. Quando leio um texto ou ouço uma fala que pronuncia “guerra híbrida”, interrompo imediatamente a leitura, desligo o som, recuso o convite. Sei que se trata de especulação delirante, de uma ficção sem beleza e sem rigor, de uma imaginação empobrecida que tenta mascarar a própria esterilidade.

Há algo de profundamente anticientífico na difusão dessa expressão. “Guerra híbrida” é a negação do pensamento sociológico, a caricatura da ciência política, a falência da ciência da informação. Em vez de compreender a complexidade do real, simplifica. Em vez de analisar a multiplicidade de fatores, reduz tudo a uma intriga invisível. Transforma processos históricos em narrativas conspiratórias. É o delírio travestido de análise, a ignorância com diploma.

A expressão tem a aparência sedutora dos conceitos modernos. Fala de “tecnologia”, de “algoritmos”, de “geopolítica”, de “estratégia informacional”. Mas sob essa aparência sofisticada esconde-se o vazio. O que se apresenta como interpretação crítica é apenas uma sucessão de chavões. “Guerra híbrida” virou palavra mágica, fórmula prêt-à-porter para o discurso raso que busca causar impressão.

Não há método, não há dados, não há campo empírico. Há apenas o eco. Quem a usa repete, não pensa. É um papagaio do senso comum travestido de pensador geopolítico. É o tipo de linguagem que floresce nos ambientes onde o rumor é mais valorizado que o estudo, onde o enredo é mais importante que o fato. A “guerra híbrida” virou o fetiche do comentador apressado, o brinquedo preferido dos que confundem análise com paranoia.

A obsessão por esse termo revela uma época em que a dúvida desapareceu. Tudo precisa de um culpado oculto, de uma causa secreta, de uma mão invisível que comanda o caos. É a velha superstição travestida de ciência. Os deuses foram substituídos pelos algoritmos, as maldições pelas narrativas híbridas, as conspirações pelo simulacro da crítica. A “guerra híbrida” é o novo mito do século XXI: uma fábula de controle que serve para explicar o inexplicável e poupar o esforço de compreender.

O pensamento que se pretende crítico se tornou preguiçoso. Usa palavras como quem usa fantasias. “Guerra híbrida” é o disfarce da ignorância sob o manto da erudição. Não há nada de híbrido nela. Há apenas confusão. Mistura categorias sem compreender nenhuma. Emprega vocabulário militar para descrever conflitos sociais, e vocabulário sociológico para falar de batalhas digitais. Tudo se mistura, nada se sustenta.

O perigo dessa banalização é político e epistemológico. Quando tudo é guerra, nada é guerra. Quando tudo é híbrido, nada é claro. A confusão das palavras gera a confusão das ideias, e esta, por sua vez, alimenta a confusão das ações. A “guerra híbrida” dissolve a responsabilidade, dilui a causalidade, destrói a possibilidade de compreender o que acontece.

O que há de mais grave é que essa expressão, usada como diagnóstico universal, mata a própria curiosidade. Substitui o trabalho intelectual por uma etiqueta, a pesquisa pela crença, o fato pela opinião. Torna o pensamento refém de suas próprias metáforas. É a morte do pensamento crítico sob o disfarce do engajamento teórico.

Em sua essência, “guerra híbrida” é uma empulhação. Um truque retórico para encobrir a ausência de conteúdo. Uma ficção de baixo nível de criatividade, desprovida de beleza literária, de densidade poética, de força conceitual. É o simulacro da crítica em tempos de superficialidade digital, a caricatura do pensamento num mundo que confunde ruído com informação.

Diante disso, o silêncio é mais honesto que o discurso. Melhor calar do que repetir o vazio. Melhor voltar à paciência da pesquisa, ao rigor da observação, à serenidade da dúvida. Melhor relembrar que o verdadeiro pensamento nasce da humildade diante do real, não da ânsia de nomear tudo com palavras grandiloquentes.

A “guerra híbrida” não é um conceito, é um sintoma. Um sintoma da falência da linguagem e da desistência da razão. Um espelho que reflete o esgotamento de um tempo em que as palavras perderam o peso e o pensamento se dissolveu na espuma das redes. Que esse espelho se quebre, e que dele surja o desejo de pensar de novo. Porque só o pensamento, e não o jargão, pode devolver ao mundo a dignidade de ser compreendido.

Paulo Baía

Paulo Baía ė Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

Análise crítica do texto de Paulo Baía sobre a “guerra híbrida”-Dialogando com o autor

O texto de Paulo Baía é um panfleto esclarecedor contra o uso inflacionado e pouco rigoroso da expressão “guerra híbrida”. Cumpre bem o papel de desmontar um jargão que virou senha de autoridade, mas deixa lacunas conceituais e políticas importantes quando analisado a partir das categorias marxianas.Ele ė muito bem-vindo, mas dada a sua atualidade, merece uma reflexão

uma contribuição ao debate

O acerto fundamental: denunciar o termo como fetiche

Baía identifica com precisão um fenômeno típico da sociedade capitalista contemporânea: a proliferação de palavras-fetiche, isto é, conceitos que não explicam nada mas produzem aparência de profundidade.

Do nosso ponto de vista,isso se aproxima da ideia de fetichismo — quando relações sociais reais são substituídas por abstrações reificadas.

“Guerra híbrida”, nos usos denunciados por Baía, funciona como mercadoria conceitual: esvaziada, intercambiável, vendida como explicação universal.

A crítica dele acerta ao mostrar que:

a expressão vira atalho cognitivo; remove a investigação empírica; serve como muleta para paranoia política.

Neste ponto, o texto dialoga com a crítica do valor/dissociação que serve como parâmetro de nossa análise

o capitalismo, ao fazer do valor (uma forma social abstrata baseada em trabalho abstrato) o centro da vida social, produz também modos de pensar abstratos, opacos e fetichizados, onde tudo vira circulação de sinais. A “guerra híbrida” encaixa-se nesse regime de signos que perde referência ao real.

O limite da crítica: explicar o sintoma, não apenas denunciá-lo

Se o fenômeno é sintoma, é necessário perguntar: sintoma de quê?

Baía toca nisso, mas no nosso entender brevemente (“falência da linguagem”, “superficialidade digital”).Ele não vai ao núcleo histórico-social. Aqui o olhar marxiano ajuda!

Para nós a difusão dessas narrativas está ligada:

à crise estrutural do capitalismo (Kurz/Jappe): quando a produção de valor entra em impasse, prolifera o pensamento conspiratório como tentativa de dar coerência ao incoerente; à mediação digital algorítmica, onde circulam signos desconectados da experiência material (economia da atenção, tecnopolítica); à desconfiança generalizada nas instituições — fruto da decomposição social e da erosão das formas tradicionais de representação política; à colonialidade e geopolítica periférica brasileiras: num país marcado por golpes, tutela militar e oligarquias, a ideia de “guerra oculta” encontra terreno fértil.

Assim, a “guerra híbrida” não é só uma palavra ruim: é uma resposta ideológica à crise, um modo de sobreviver cognitivamente ao colapso das explicações tradicionais.

Onde o texto escorrega: o risco do moralismo epistemológico

Baía acusa usuários do termo de “ignorância”, “preguiça intelectual”, “delírio”. Isso é parcialmente justo, mas se não for aprofundado pode deslizar para o moralismo: como se o problema estivesse na falta de virtude dos indivíduos e não nas condições sociais que produzem essa forma discursiva.

A crítica marxiana, onde nos apoiamos, não busca culpados morais, mas estruturas sociais que produzem determinados modos de pensar.

Quando ele diz “melhor calar”, repete uma postura iluminista clássica (“voltem aos estudos!”), que subestima:

como o sofrimento social busca narrativas; como a insegurança econômica e tecnológica abre espaço para explicações conspiratórias; como o Estado e atores privados usam a categoria “guerra híbrida” para legitimar repressão política, inclusive no Brasil.

Sem essa mediação, a crítica perde força política.

O ponto cego político: quem ganha com a palavra “guerra”?

O autor acerta ao dizer que “quando tudo é guerra, nada é guerra”.

Mas, para nós faltou analisar o uso estratégico do termo por atores de poder.

No Brasil, “guerra híbrida” aparece frequentemente:

em discursos militares, para justificar autonomias e intervenções; em setores da direita conspiratória (ideia de “infiltração comunista”, “interferência estrangeira”); em segmentos da esquerda (visão geopolítica totalizante onde tudo é manipulação de potências).

A expressão opera como dispositivo de despolitização:

se tudo é manipulado de fora, desaparecem as contradições internas do capitalismo brasileiro — dependência, superexploração, racismo estrutural, destruição ambiental.

A crítica de Baía poderia ter ido além:

quem usa a “guerra híbrida” não apenas por ignorância, mas como tecnologia de poder?

O que o texto acerta no tom, mas perde na dimensão emancipatória

A defesa do “rigor”, do “estudo”, da “paciência da pesquisa” é importante.

Mas a crítica social, para Marx, não é apenas um chamado ao método: ė um chamado à transformação da realidade.

A nosso ver o texto de Baía, ao final, pode cair num certo elitismo ilustrado: a busca pela clareza intelectual não é apenas tarefa acadêmica, é parte das lutas sociais.

Para nós uma critica completa sobre esta questão perguntaria:

que condições materiais permitem a circulação de conceitos vazios? como disputar politicamente o imaginário social para reconstruir categorias capazes de compreender a forma-mercadoria, o valor, a crise e a dissociação?

O que fazer agora?

Desfetichizar o vocabulário político: explicitar que expressões como “guerra híbrida” ocultam conflitos reais — de classe, de gênero, de raça, de território. Reconectar análise e materialidade: olhar para as condições concretas do capitalismo em crise, no Brasil, antes de buscar explicações geopolíticas mágicas. Produzir categorias sólidas: retomar conceitos como valor, fetichismo, mais-valia, crise e dissociação para reconstruir pensamento crítico. Combater o uso autoritário do termo: denunciar quando “guerra híbrida” serve para criminalizar movimentos sociais ou legitimar militarização. Criar pedagogias populares: traduzir crítica estrutural em linguagem acessível, para não deixar que o campo seja ocupado por jargões conspiratórios.

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
2 Comentários
  • Que bom que exista crítica ao que escrevemos e pensamos. Agradeço o contraponto. Em relação a Pierre Leirner, considero-o uma boa fonte de pesquisa e reflexão. Gosto especialmente de Antropologia dos Militares, uma etnografia de excelência. Já o livro sobre guerra híbrida eu não considero convincente, embora seja muito bem escrito. O conceito de guerra híbrida funciona como uma “variável de embasamento”: é tão geral que nada explica e acaba ofuscando a realidade e os fatos, como ocorreu em 2013 no Brasil.
    Paulo Baía

  • Um texto cheio de xingamentos que repete aquilo que denuncia, um monte de palavras vazias que não explicam nada. Mas é interessante que o conceito deve estar incomodando a esquerda tradicional do sistema e desvelando muitas coisas. Sem o par o guerra híbrida/cismogênese não se entende o Brasil e o mundo de hoje. Claro que há maus usos e simplificações rasteiras, mas quantos conceitos foram simplificados e banalizados ao longo da história do pensamento. Quantas milhões de vezes a esquerda falou ‘dialética’, isso ‘é um processo dialético’, ‘sociedade dialética’, processo histórico dialético’ etc., sem fazer ideia do que estava falando? Portanto, esse pessoal apressado que quer jogar o conceito todo no lixo e não os maus usos parece incomodado com as verdades que esses conceitos estão trazendo à tona. Leia o Piero Leiner e constate o bom uso e a riqueza do conceito. Mas a esquerda oficial do sistema não quer ouvir flar de guerra híbrida/cismogêsne e justamente porque estão imbricadas até o último fio de cabelo nela.

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