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Este artigo analisa a ascensão da economia de guerra na Rússia e na Europa à luz da crise estrutural do capitalismo. A partir da declaração do Papa Francisco sobre uma “Terceira Guerra Mundial aos poucos”, o texto examina como o esforço bélico se tornou motor de crescimento, reorganizando orçamentos, setores produtivos, mercados de trabalho e fluxos financeiros. Mostra-se como a militarização avança não apenas como resposta geopolítica, mas como solução econômica frente à estagnação. Ao mesmo tempo, denuncia o retrocesso em políticas sociais e ambientais e evidencia como a guerra, longe de ser exceção, está se normalizando como forma de reprodução capitalista em colapso.

Já estamos na Terceira Guerra Mundial, só que ela está se realizando aos poucos.”
Papa Leão XIV
A frase, dita por Leão XIV durante visita oficial à Turquia em 27 de novembro de 2025, não foi uma advertência exagerada, mas uma descrição precisa do atual estágio da política global. A guerra, que já não se apresenta como episódio localizado, tornou-se o eixo de reorganização de economias inteiras, tanto no Leste quanto no Ocidente europeu. O que antes era considerado uma exceção, agora começa a operar como regra. A lógica bélica se espalha, infiltrando-se nas finanças, na indústria, na gestão estatal e nos mercados de trabalho.
A Rússia é, neste sentido, o caso mais avançado dessa mutação. Desde o início da guerra contra a Ucrânia, em fevereiro de 2022, o país reorientou sua base produtiva para um esforço militar permanente. Em 2024, os gastos com defesa superaram os 40% do orçamento federal, e em 2025 o país deve destinar mais de 6% de seu PIB à área militar. Trata-se de um volume inédito desde a Guerra Fria. A indústria se concentrou na fabricação de armamentos, veículos e munições. Setores civis foram marginalizados. A economia passou a operar com prioridade bélica, enquanto bens de consumo, infraestrutura social e tecnologia civil enfrentam retração ou estagnação.
A chamada economia de guerra, embora pareça apenas uma reorganização produtiva voltada para fins militares, constitui, na realidade, um sintoma agudo da crise estrutural do capitalismo. Quando a reprodução econômica passa a depender da produção de destruição, como armas, munições, sistemas bélicos, etc, estamos diante de uma forma de valorização que não gera valor social real: não produz bens que aumentem a vida social, mas mercadorias cujo valor de uso é a violência. Trata-se, portanto, de um desvio radical da função social do trabalho e de uma evidência de incapacidade estrutural do capital de se renovar pela produção socialmente útil.
A recusa recente de Vladimir Putin em aceitar o fim do conflito com a Ucrânia confirma essa dinâmica. Em novembro de 2025, o Kremlin rejeitou as propostas de paz formuladas pela Europa e pelos Estados Unidos, afirmando que elas não atendem aos interesses da Rússia. Poucos dias depois, Putin declarou que, caso a Europa deseje a guerra, a Rússia está pronta. Ao mesmo tempo, sinalizou o desejo de estender o conflito e alcançar objetivos estratégicos mais amplos, como o controle total do Mar Negro. As declarações deixam claro: a guerra não é mais uma contingência, mas um projeto de longo prazo. Para Moscou, a guerra prolongada serve não apenas a fins militares, mas também à consolidação de uma nova forma de economia nacional, baseada na destruição como fonte de lucro e estabilidade interna.
Mesmo diante da desaceleração econômica,com crescimento previsto abaixo de 1,5%, o setor militar russo continua em expansão. Empresas de defesa operam com contratos garantidos, acesso privilegiado a crédito, subsídios estatais e prioridade logística. A cadeia produtiva militar sustenta rendas, empregos e exportações, mesmo sob sanções. A população, por outro lado, enfrenta inflação, escassez e precarização. A economia se mantém em funcionamento, mas às custas da compressão da vida civil e do aprofundamento do autoritarismo.
Já na Europa Ocidental, o rearmamento segue ritmo acelerado. Em 2024, os países da União Europeia atingiram um recorde de 343 bilhões de euros em gastos militares. Em 2025, a cifra pode ultrapassar 380 bilhões, com vários países anunciando aumentos superiores à meta de 2% do PIB estabelecida pela OTAN. A Alemanha decidiu expandir sua base industrial bélica. França, Polônia, Suécia e até Estados tradicionalmente neutros, como a Áustria, seguem no mesmo caminho.
Esse movimento não se reduz à conjuntura da guerra na Ucrânia. Ele expressa uma reconfiguração profunda da função econômica da defesa no capitalismo europeu. A produção de armas passa a ocupar o lugar antes reservado a setores industriais estratégicos. A indústria bélica é apresentada como motor de inovação, geradora de empregos qualificados e vetor de soberania econômica. Estados direcionam recursos orçamentários, incentivos fiscais, linhas de crédito e parcerias público-privadas para apoiar empresas como Rheinmetall, Leonardo, Thales e Saab. O complexo militar-industrial europeu se expande com apoio estatal e financiamento privado.
O impacto sobre o mercado de trabalho é visível. Na Rússia, há crescimento acelerado em setores como metalurgia pesada, química industrial, eletrônica bélica, engenharia e logística. A demanda por técnicos, engenheiros e programadores de sistemas de defesa cresce em ritmo constante. Mas isso não ocorre de forma equitativa: enquanto setores militares avançam, áreas civis como educação, cultura e indústrias leves , sofrem cortes, abandono e desinvestimento.
Na Europa, o padrão se repete. O crescimento militar cria empregos técnicos bem remunerados, mas concentra renda e exclui trabalhadores menos qualificados. Empresas de tecnologia civil passam a depender de contratos militares. A militarização amplia a segmentação do trabalho e reforça desigualdades sociais. A guerra, ao reconfigurar o mercado, também transforma a estrutura social do trabalho e desloca o foco do desenvolvimento humano para a eficiência bélica.
O setor financeiro ocupa posição estratégica nesse novo arranjo. Na Rússia, bancos públicos e privados como Sberbank, VTB e Gazprombank operam como intermediários do esforço militar, garantindo crédito, financiamento e liquidez para as empresas de defesa. Na Europa, grandes bancos comerciais e de investimento retomam sua vinculação com o setor armamentista, que havia sido limitada por diretrizes éticas após a Segunda Guerra Mundial. Títulos públicos para defesa, fundos de investimento temáticos, flexibilização de critérios de sustentabilidade e reclassificação de ativos militares como estratégicos ou defensivos formam o novo vocabulário financeiro da guerra. A guerra, nesse modelo, é rentável e bancável.
Esse redirecionamento da economia implica, inevitavelmente, um recuo em políticas voltadas à qualidade de vida. O meio ambiente foi o primeiro a perder espaço nas agendas governamentais. Planos de transição energética foram postergados ou redimensionados. A Alemanha reduziu investimentos em transporte verde e adiou metas climáticas. A França reorientou verbas ambientais para logística militar. Iniciativas de habitação social, saúde pública e programas para juventude sofrem contenções. O discurso da austeridade retorna, agora legitimado pela necessidade de segurança. A guerra, mais uma vez, ocupa o lugar da vida.
No plano teórico, a guerra como vetor econômico expressa a falência da acumulação civil. O capital, sem poder expandir-se com base na produção socialmente útil, encontra na destruição organizada, disciplinada, rentável uma saída para sua crise interna. A militarização da economia não representa progresso, mas sobrevida. O Estado, ao assumir a função de sustentação artificial do capital, organiza a reprodução com base na coerção, na tecnologia da violência e na supressão de finalidades sociais. A paz, nesse cenário, torna-se disfuncional. Para os setores que lucram com a guerra, o fim do conflito é um risco. A guerra precisa continuar para manter o sistema em movimento.
Para compreender esta dinâmica do capitalismo, o da guerra como forma de economia, tal realidade tem sido nos últimos tempos objeto de estudo de diversos intelectuais, notadamente os da crítica radical do valor como o professor Marildo Menegat, especialmente em sua obra Crítica do Capitalismo em Tempos de Catástrofe (Rio de Janeiro: Consequência, 2019). Menegat chama a atenção que o capitalismo não deve ser compreendido apenas como sistema produtor de mercadorias, mas como uma forma histórica de destruição sistemática das bases da vida. A guerra, nessa leitura, não é uma exceção ou patologia, mas a expressão mais nítida da lógica do capital em sua fase terminal, quando a valorização já não pode mais se realizar no plano da produção civil. A violência armada aparece, então, como vetor de prolongamento da autovalorização por meio da negação ativa da vida. A consolidação atual de uma economia de guerra que mobiliza recursos, ciência e instituições para sustentar destruição em escala industrial confirma essa crítica radical: o capital em colapso sobrevive matando, e a guerra é sua forma mais direta de persistência.
A declaração de Leão XIV, feita na Turquia, assume então um caráter ainda mais denso. A terceira guerra mundial não virá — ela já começou. E ela não se organiza por um confronto generalizado, mas por uma multiplicidade de frentes locais, setores industriais, mecanismos financeiros e discursos de segurança que naturalizam a violência e a integram à gestão da economia. A guerra tornou-se aceitável, desejável e, em muitos casos, bem-vinda.
Serra da Mantiqueira
Arlindenor Pedro
contato@utopiasposcapitalistas.com

Arlindenor Pedro ė ex-preso político e Anistiado. É professor de história, sociologia e filosofia é editor do blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários
Fontes bibliográficas:
Reuters, “Putin says Russia not seeking war with Europe but is ‘ready’ to fight”, 2/12/2025 The Guardian, “Russia ends peace talks with US, claims Ukraine must cede territory”, 2/12/2025 Bloomberg, “Russia’s economy under growing strain as war continues”, 26/11/2025 IHU Unisinos, “Em 2024, a União Europeia gastou impressionantes 343 bilhões de euros em rearmamento”, 24/11/2025 RTP, “União Europeia deverá atingir em 2025 novo recorde para gastos com armamento”, 27/11/2025 Vatican News, “Papa Leão XIV adverte para uma terceira guerra mundial sendo travada aos poucos”, 27/11/2025 Consilium Europa, “Defence in numbers: military spending in the EU”, 2025 Financial Times, “Germany to boost defence spending at faster rate than France or UK”, 2/12/2025 El País, “Luis de Guindos alerta que o aumento dos gastos com defesa põe em risco a estabilidade fiscal europeia”, 27/11/2025,A GUERRA NÃO TEM PAZ Estudos sobre o sentido violento e destrutivo do fetichismo do capital. Autor: Marildo Menegat.
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