Fundado em novembro de 2011

Às ruas acendem, as mulheres gritam — uma crônica de Silvie Armand

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 6 leitura mínima

Ouça aqui o áudio do nosso Post 

Receba regularmente nossas publicações e assista nossos vídeos assinando com seu e-mail em utopiasposcapitalistas.Não esqueça de confirmar a assinatura na sua caixa de mensagens

Nas ruas iluminadas de Lisboa, Silvie Armand caminha carregando o peso da escrita e das notícias que desafiam o coração. A cidade veste o Natal, mas a realidade do mundo insiste em atravessar as luzes festivas. Entre a resenha sobre feminicídio que prepara para o New York Times e o vídeo de uma passeata em São Paulo enviado por uma amiga, Silvie encontra um ponto de fricção: o contraste entre o brilho da época e a escuridão que persiste na vida das mulheres. Nesta crônica, ela transforma Moscavide em palco de reflexão — um lugar onde o Natal, longe de ser apenas celebração, se converte em espelho, em alerta e, sobretudo, em resistência silenciosa.

Lisboa voltou a acender suas luzes de dezembro como quem tenta esconder as rachaduras com fios de ouro. Caminho por Moscavide no início da noite, entre vitrinas que brilham, crianças que apontam decorações e um frio insistente que parece pedir passagem para dentro da pele. Passei o dia terminando a resenha do livro da escritora paquistanesa para o New York Times. Escrevi uma narrativa dura, afiada, sobre feminicídio. Espero que o editor goste.Mas, confesso, fechei o arquivo com uma sensação de insuficiência, como se as palavras jamais descessem até a profundidade da ferida. O tema não sai da minha cabeça.

Creio que isto se deu depois que o vídeo de Jussara chegou. A imagem da minha amiga brasileira na passeata em São Paulo, com milhares de mulheres marchando pela Avenida Paulista, segurando cartazes feitos à mão e ecoando palavras que soavam como sinos de alerta — basta — atravessou o meu ser. A potência daquele cortejo atravessou o Atlântico inteiro e se instalou bem aqui no meu peito, com a força de um clarão.

O Brasil, penso, vive uma madrugada permanente para as mulheres: uma mulher assassinada a cada poucas horas, quase sempre por um homem que partilhou o seu teto. O feminicídio ali não é exceção; é rotina — e talvez seja isso o mais terrível. Isto me toca profundamente. Uma tragédia contemporânea.

Continuo a caminhar. Moscavide veste-se de Natal, mas entre as luzes há algo que não se ilumina. Recordo as ideias de Leni Wissen, que li em um de seus ensaios sobre o sujeito moderno: o homem que precisa parecer soberano quando está prestes a desmoronar, que reage à própria impotência com agressão, que transforma em violência aquilo que deveria ser fragilidade nomeada. Na América Latina, essa tensão assume formas brutais. Os homens, esmagados por suas frustrações e medos, usam o corpo das mulheres como depósito para aquilo que não conseguem enfrentar. No Brasil, essa engrenagem produz um horror diário com precisão mecânica.

Leni expõe algo ainda mais profundo e perturbador: para o sujeito masculino moldado pelo capitalismo — competitivo, isolado, hipertrofiado na sua fantasia de autonomia — qualquer brecha na própria virilidade funciona como ameaça existencial. A violência, então, surge como falsa prova de poder, como selo grotesco de uma autonomia que nunca existiu. É brutal pensar nisso à sombra das luzes de Natal: enquanto a cidade vende a promessa de harmonia, tantas vidas ruem porque um homem não suporta reconhecer sua própria fragilidade. A violência não nasce do excesso de força, mas da ruína íntima. E esta ruína tem gênero. A crise do capital que elimina os sonhos, retira empregos, desarmoniza a civilização liberal atinge a todos, mas com certeza fere profundamente o sentido de existir do “macho alfa”.

As vitrinas da Rua João Pinto Ribeiro cintilam com presépios, laços dourados e miniaturas de anjos. As pessoas passam com sacos coloridos, embaladas por músicas de Natal que tentam convencer a cidade de que tudo ainda pode ser doce. O Tejo, mesmo invisível, parece respirar perto de mim. E penso no paradoxo: celebramos um nascimento enquanto o mundo insiste em repetir mortes. As luzes não apagam o fato de que, em muitos lugares, o Natal não protege ninguém — sobretudo as mulheres.

Mas lembro de Jussara novamente: as brasileiras de todas as idades caminhando lado a lado, ocupando o espaço como quem reivindica um futuro. Há algo de profundamente revolucionário em uma mulher que decide viver. Lisboa também está cheia dessas mulheres silenciosas, cansadas, vigilantes. Talvez, penso, o milagre possível do Natal seja este: a persistência de quem acende sua própria luz quando o mundo insiste na sombra.

No fim, guardo o telemóvel no bolso e deixo que as luzes de Moscavide me acompanhem até casa. Sinto, mais do que nunca, que o Natal deste ano não é feito apenas de festa, mas de brilho e lâmina — luz e alerta. E, mesmo assim, insisto em acender velas, como quem diz: não desistiremos da vida.

Lisboa, dezembro de 2025

Silvie Armand

Silvie Armand é poeta, ensaísta e cronista, transita entre jornalismo cultural e escrita experimental, unindo crítica e criação.
Atualmente vive em Lisboa e é correspondente do Blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários

Loading

Compartilhe este artigo
Seguir:
Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Ensaios e Textos Libertários

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading

Ensaios e Textos Libertários